sábado, 15 de julho de 2017

O Hip Hop tuga dos Língua Franca salvou a noite do pior concerto da minha vida

A crónica de um roqueiro no dia do Super Bock Super Hip Hop

Ao longo da minha vida fui muitas vezes acusado de "não perceber o hip-hop". Todos os que fizeram esta abjecta e caluniosa acusação estavam completamente certos (eventualmente percebi que estavam a citar Sam The Kid). Devo por isso avisar-vos à partida de um pormenor importante: sou um roqueiro. Se já leram qualquer coisa minha já devem ter percebido isso; se não leram, ficam a saber. Porém, sou igualmente um apologista da máxima Salvadoriana de que "música é sentimento" e como tal estou aberto a todo o tipo de música. Pelo menos tento.

Por isso fazer a crónica de um dia dedicado ao Hip Hop no Super Bock Super Rock (pausa para rir no "Super Rock") é um exercício de coragem. Tudo o que vão ler daqui para a frente é a perspectiva de um peixe fora de água. Se querem ler que foi tudo arco-íris e unicórnios, o melhor é fecharem a página e irem a uma daquelas publicações que fazem esse tipo de "críticas". Portanto, se conseguirem lidar com isto, continuem a ler. Se não conseguirem, leiam também. Só não digam que não vos avisei.

Língua Franca (Palco EDP, 22h45)

Para quem não conhece, Língua Franca são os Rio Grande do Hip Hop em língua portuguesa (e digo isto como um elogio) — um supergrupo de rappers que junta nomes fortes de Portugal (Valete e Capicua) e do Brasil (Emicida e Rael). A Capicua disse à Andreia que estava no SBSR para conquistar o público e eu fui de mente aberta para ouvir o que tinham para me mostrar. E fiquei positivamente surpreendido.

Desde logo pela preocupação em mostrar um espectáculo pleno de arte e talento. Para além dos quatro rappers, os Língua Franca apresentaram-se em palco com D-One nos pratos, Fred Ferreira na bateria e, last but definitely not least, o Vítor Ferreira (obrigado Capicua!) a desenhar (excelente) artwork das músicas, a qual era projectada ao fundo do palco ao vivo, isto é, ao mesmo tempo que os MCs actuavam. Impressionante.

Os quatro MCs alternaram na frente do palco, às vezes sozinhos, às vezes em duo ou em trio. Capicua foi quem brilhou mais na primeira parte do set (o nervosismo era injustificado!) e quando chegou Valete que os níveis de entusiasmo do público descarrilaram; primeiro com "Fim Da Ditadura" (pesquisei no Google) e depois com "Rap Consciente" (esta reconheci), denunciando como "emporcalharam o hip-hop" com "alianças com kizombeiros". Impossível não gostar de um gajo com opinião forte e eles no sítio.

A seguir, por volta das 23:30, deu-se uma debandada geral para ver Future no Meo Arena. Não percebi. 'Até se está bem aqui; talvez Future seja melhor', pensei. Mas decidi ficar até ao fim.

"Somos mais iguais que diferentes", atirou Emicida depois. Ele falava das diferenças entre os portugueses e os brasileiros, mas eu ouvi aquilo como uma referência ao rock e ao hip hop. Acho que também serve. "Tudo começa com a porra de um sonho!", acrescentou. Diferentes, sim, mas pelo que eu vi aqui no Palco EDP, a paixão é a mesma. Só por coisas diferentes.

Apesar de me sentir desajustado, os Língua Franca foram para mim uma bela surpresa. Mesmo fora da minha praia, vi um bom espectáculo, onde houve empenho e preocupação com a arte e, mais importante ainda, se sentiu alma de quem estava em palco. É o que se pede quando se vai a um concerto.

Future (Palco Super Bock Super Rock, 00h)

Depois de ter saído satisfeito do espectáculo de Língua Franca, fui para Future a pensar que isto não pode ser assim tão mau. E se houve grande debandada no Palco EDP para guardar lugar em Future no Meo Arena, é porque Future é melhor, certo? God, no. À chegada Palco Super Bock Super Rock, o cenário não estava muito animador; meia casa, se tanto. Uma sombra do dia anterior, onde não cabia uma agulha mais para ver Red Hot Chili Peppers. Pode ser que a organização aprenda a lição. Se a tendência nos próximos anos for esta, o tamanho que podem esperar da audiência está à vista.

Vou ser o mais directo possível. O concerto de Future — aquilo que fui fisicamente capaz de suportar — foi a experiência mais penosa da minha vida. E estou a contar com aquela vez em que vomitei compulsivamente durante duas horas numa viagem de barco em Portimão. Foi absolutamente impossível de estabelecer uma relação de afecto com a música, isto quando se conseguia distinguir do ruído opressivo que vinha das colunas.

Já devem ter adivinhado. O som do concerto de Future estava ao habitual nível a que o Atlântico nos habituou, entre o indecifrável e o puramente doloroso. Aquele dilúvio de baixo de que vos falei em The Weeknd, que assoberba o pavilhão auricular e castiga os ouvidos (e que parece lesar tudo o que seja Hip Hop ao vivo), aqui estava ainda mais proeminente. Mas não eram só os baixos que estavam fora de controlo. Os agudos estavam tão estridentes que picavam os tímpanos. Nunca tinha sentido tal coisa na vida. E, acreditem que já vi muitos concertos com volume tão alto que até arrebitam os pêlos das partes baixas.

Agora imaginem este cenário dantesco naquelas belas condições acústicas do Atlântico. De onde eu estava na bancada, era absolutamente insuportável. Muitas foram as vezes em que fui obrigado a tapar os ouvidos de sofrimento. Ao fim de quase uma hora de concerto, não aguentei mais e tive que sair para espetar uns garfos nos ouvidos e assim aliviar a dor.

Muitos foram o que fizeram o mesmo. À saída, ouvi uma roqueira (denunciada pelo casaco de cabedal) dizer que "Hip hop tuga ainda se aguenta, agora isto... mais vale o Despacito". O que o desespero leva as pessoas a dizer. E mais tarde, passando por uma attendee inglesa "I just cannot believe how shit Future is, this is unbelievable". Não diria melhor. Pior concerto que vi na minha vida.

Agora atentem bem. A ideia que nos querem vender, de que música completamente despida de alma e humanismo como a de Future pode ser o futuro está fundada em duas bases epistemologicamente erradas. A primeira é a de que "este é o futuro, isto vai ser assim e temos que nos habituar". Errado. Isto só vai ser assim se o público assim o quiser e o público de ontem não quis. A segunda falsa premissa é a de que "o espectáculo ao vivo no futuro vai deixar de ter qualquer componente ao vivo" e será apenas um conjunto de autómatos e automatismos que as pessoas pagam para ver. Esta ideia então, à partida paradoxal, não faz sentido rigorosamente nenhum. As pessoas saem de casa e vão a live shows para se conectarem, seja no SBSR, no Alive, no Rock In Rio e até mesmo no Sudoeste; para se conectarem com a música, com o artista que está no palco, com a babe que está ao lado, ou até com "aquela pessoa" que sabem que vai ver a foto nas redes sociais e que depois desesperam que comente ou faça um mero like. Porque no fim de contas, continuamos e continuaremos sempre a ser humanos. Isso é imutável.

Por isso mesmo, podem ter a certeza de uma coisa. Depois desta experiência, passei a valorizar muito mais o hip hop português. Louvados sejam Valete e Capicua. Pela energia que passaram, pela alma, pelo humanismo, pela mensagem, pelo "som" (e aqui uso a palavra no mesmo registo que o Valete), foram os Língua Franca os melhores deste dia do Super Bock Super Hip Hop.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

O regresso ao Liceu que deixou muito a desejar dos Red Hot e o sangue novo dos The Orwells

Os Red Hot Chili Peppers deram um concerto demasiado curto e The Orwells foram a surpresa
O Super Bock Super Rock começou ontem e teve logo no primeiro dia o cartaz mais forte. Com algumas novidades e problemas antigos, estes são os destaques do primeiro dia de festival.

Red Hot Chili Peppers (Palco Super Bock Super Rock, 20h40)


Permitam-me um pequeno enquadramento. O primeiro (e último, até ontem) concerto que os Red Hot Chili Peppers deram no Pavilhão Atlântico, em Janeiro de 2003, foi um dos mais importantes da minha vida. Tinha 17 anos e a morar em Castelo Branco, estava longe de tudo o que me interessava; mas quando os Red Hot anunciaram a sua vinda a Portugal, eu sabia que tinha que lá estar. É preciso recuar no espaço e no tempo para perceber a dimensão deste acontecimento: os Red Hot eram na altura a banda do Liceu; eram eles que mais consistentemente passavam na rádio da Associação de Estudantes e eram a banda mais traficada no auge das cópias de CDs, tanto pelo seu álbum de 1999 "Californication", como o então recém-lançado "By The Way". Para mim, aquele concerto era uma espécie de corolário do Liceu; e foi, de facto, um momento decisivo da minha vida — porque a minha mãe não me deixou ir e com isso desencadeou uma fome de concertos para a vida (se soubesse disto, talvez me tivesse deixado ir).

Importa este enquadramento para perceber a magnitude do concerto de ontem no Super Bock Super Rock —  14 anos depois, pude finalmente estar no Atlântico (agora Meo Arena) para satisfazer a minha fantasia adolescente. Tantos anos esperei e tanto que o concerto deixou a minha fantasia a desejar. Começando logo pela duração do espectáculo, abaixo da hora e meia. Para uma banda que não vinha a Portugal há 11 anos, um set com 15 canções deixa muita água na boca. Para um headliner de um festival, ainda por cima o nome mais forte do cartaz (e de muito longe), torna-se incompreensível.

Claro que se este set de 15 canções fosse um concentrado "sempre a abrir" de êxitos, a história teria sido outra. Mas não foi assim. Foram demais os temas fulcrais da carreira da banda que ficaram de fora. Detesto ser aquele gajo do 'shut up and play the hits', mas dois temas do "Blood Sugar Sex Magik" e um tema do "Californication"? Compreendo que não desse para tocar todos e admito a minha parcialidade emocional em favor do "Californication", mas não houve "Scar Tissue", "Around The World", "Road Trippin'" e nem sequer houve "Otherside", provavelmente o tema de maior tracção dos Red Hot em Portugal (e o maior êxito do Liceu). Até "Under The Bridge" (!!!) ficou de fora. Já nem falo em "Dani California", "Higher Ground" ou "My Friends", porque este não era claramente um set de êxitos. Valeram "Aeroplane" e "Suck My Kiss", dois 'minor hits' que me souberam pela vida, qual sandes após jejum prolongado.

Quem não esteve lá e leu até aqui, poderá pensar que o concerto de ontem foi terrível. Nada disso. Só deixou muito a desejar e não correspondeu às minhas (admito que estratosféricas) expectativas. Os Red Hot Chili Peppers continuam a ser uma banda insanamente boa de palco. Que animais. Dá gosto vê-los tocar, tanto nas canções como nos pequenos (e tasteful) improvisos funk que fazem entre músicas. O Flea é uma verdadeira besta do baixo, sempre imprevisível, volta e meia a deixar Chad Smith aos papéis na bateria para acompanhar as suas mudanças de andamento. Mas o Chad não se vai abaixo e esteve quase sempre irrepreensível (não tinha tanta piada de outra forma). Josh Klinghoffer cumpre como substituto de John Frusciante ao vivo (nos discos a história é diferente) e confesso que não senti a falta de John tanto como temia. E por falar em animais, Anthony Kiedis mantém a mestria na arte de ocupar o palco. Pena que não o pudéssemos ouvir em condições, mas isso não era culpa dele (já lá vamos).

Houve momentos de pura apoteose colectiva no concerto de ontem. Sempre que a banda sacava de um clássico, o pavilhão ia ao rubro com um rugido tão ensurdecedor como eu acho que nunca ali ouvi. Foi assim no início com "Cant' Stop" e a meio do set com "Californication". Mas não me lembro de uma histeria no Atlântico ao nível do "Snow (Hey Oh)" de ontem, altura em que a banda praticamente deixou de se ouvir em favor do público a cantar por cima de um ruído indistinguível. Todos os anos tenho que escrever a mesma coisa: a acústica continua a ser o maior problema do Pavilhão Atlântico. Mas até para os standards (baixíssimos) daquela casa, o som no concerto dos Red Hot foi demasiado mau. E acreditem que houve muitos maus exemplos ao longo dos anos. É uma questão antiga que urge resolver, nem que para isso tenhamos que voltar ao pó do Meco.

A setlist foi algo pesada em temas pós-Frusciante (quase um terço do set), com três temas do novo álbum "The Getaway". Dos temas novos, o óbvio destaque é "Goodbye Angels" — mais recente single da banda —, uma malha que eu poderia imaginar em qualquer um dos álbuns clássicos da banda.

Os Red Hot despediram-se com o clássico "Give It Away" e estranhamente Kiedis foi-se embora sem se despedir da audiência (ou fui eu que perdi alguma coisa?). No fim ficaram Flea para agradecer o apoio do público (que foi em grande número e alto barulho) e Chad Smith para distribuir souvenirs e dizer adeus com um "we'll come back soon". Tendo em conta as recentes notícias da separação da banda, Chad deixou-nos o coração mais descansado.


The Orwells (Palco EDP, 20h)



Se os Red Hot deixaram muito a desejar, as expectativas foram ultrapassadas a alta velocidade pelos The Orwells no Palco EDP. Foram a surpresa da noite. O motim começou, desculpem, o concerto começou às 20:00, ainda sob a luz do dia e foi o perfeito aquecimento para o festival. Num concerto para uma plateia muito jovem (ainda era cedo), houve espaço para mosh, crowdsurfing, tudo.

Independentemente do que possam ter lido nas publicações mais trendy, os Orwells não são apenas mais uma 'guitar band' igual às outra. Em primeiro lugar, porque não soam igual às outras 'guitar bands'. A banda de Chicago tem uma sonoridade distintiva, construída pelas guitarras de Dominic Corso e Matt O'Keefe (a fazer lembrar os primórdios dos Oasis), que as separa das demais bandas de garagem que povoam os palcos secundários dos festivais. Depois, porque isso se sente. A energia no Palco EDP andou em ping-pong entre a banda e o público, ora entusiasmando os miúdos lá à frente para mais um mosh, ora puxando pelo vocalista para mais uma dança. O vocalista Mario Cuomo é um frontman à antiga, não toca nenhum instrumento, só canta e dá show à boa maneira de Jagger, Iggy e, obviamente, Kiedis.

São bandas como os Orwells o sangue novo que vai mantendo a chama do Rock 'n' Roll acesa. Quem lá esteve e sentiu a chama das guitarras, sabe do que estou a falar. Claro que estes concertos também têm os seus senãos, nomeadamente o prejuízo em cerveja. É que é muito difícil manter a cerveja no copo enquanto se está a saltar, ou no meio de um mosh.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Foo Fighters were awesome, but not that awesome

The epic 150 minute concert at NOS Alive that everybody is talking about, seen from a not so overwhelmed portuguese fan

They say anticipation is half the fun, but Portugal waited for 6 long years for the return of the Foo Fighters. No fun in that. Since their last concert in 2011, the Foos visited Europe 3 times during their Sonic Highways World Tour (including that infamous broken-leg Leg of the tour) and not once travelled south to play for their ever growing portuguese fan base. Last Friday, the Foos finally arrived in Lisbon after beating a storm that held them in Madrid for hours, threatening to cancel the show and yet again delay their return to Portugal. Not this time.

After waiting for so long, it was no surprise that the level of excitement prior to the show was particularly intense. Even the opening band The Cult complained that the audience was too static — "are you guys on drugs?" asked Ian Astbury, before telling everybody to "fuck off!" —, falling to frustration as people seemed to be there only for the Foos.

Foo Fighters came and delivered a 150 minute epic concert, showing why they are very probably the biggest rock band in the world at the moment. So let's clear the air right away and say that the Foos were awesome. However, like with every other super hero, with great power comes great responsibility to the boys. And great scrutiny. At this point, it's not enough to be awesome and they know that.

The 'biggest rock band in the world', now that sure is a risky title, right? It was hard-earned. Nowadays, the Foo Fighters are one of the very rare rock 'n' roll bands who are able to produce what I like to call 'The Bruce Springsteen Effect'. For those unaware of 'The Bruce Springsteen Effect', it consists on a rapidly contagious virus which spreads across the audience and leaves everybody with a big grin on their faces after the first half-dozen songs.

It didn't take that long. The audience was immediately set on fire within the gigantic 5 track opening set — “All My Life”, “Times Like These”, “Learn to Fly”, “Something From Nothing” and “The Pretender” —, a non-stop freight train recalling the old raging Foo Fighters from 10-15 years ago. It looked like the night was going to be like Barney's 'Get Psyched' mixtape — always on top — but Dave Grohl soon revealed different plans for us: "Sometimes I have to take you down". And that's exactly what he did.

Part of the audience might have felt the need for a little rest (the band certainly appreciated it) and Dave took the time to introduce the members of the band, who offered the audience a series of little gems of improvisation, such as "Another One Bites The Dust" and "Blitzkrieg Bop". Great stuff, but I was ready to get back on the freight train. What ensued though was a series of deep cuts mostly from the 2011 album "Wasting Light", which I'd be ok with (it's the last great FF album) if they weren't injected with long and pointless extended jams. These dragged the songs for far too long and lowered the temperature of the concert to the point of yawning.

It takes guts to transform a stage in front of 65 thousand people into your own living room, I give them that. It's a sign of confidence that shows the Foo Fighters from 2017 are very different from the band from 10 years ago. They are now sitting at the top of the rock n' roll hierarchy and don't feel the need to prove a thing to anyone. That's great and all, but a little grounding won't hurt. Not everybody got out of the NOS Alive festival feeling it was the best concert ever.

Although I do understand the temptation for this sort of superlatives (I overuse them myself), let's all agree that the Foo Fighters were not that awesome, or at least that they could have been so much better. The band played for 2 hours and 30 minutes and within such a lengthy set, it's a real shame they didn't find the time to play hits like "Breakout", "DOA", "Long Road To Ruin", or even the oldies "Big Me" and "I’ll Stick Around". They all could have easily fitted the set, if the long noodlings were cut. Sadly, the grungey debut album only made an appearance towards the end of the set, igniting the audience with the explosive "This Is A Call". This is where the band shows its mojo, playing these loud raging rock n roll tunes that immediately eject everybody from the ground. They should do more of that.

Afterwards, it was Dave's turn to jump, following the orders from a spontaneous chant from the audience, which eventually lead into an interaction that lasted for more than 10 minutes. The communication between the band and the audience was superb, some of the best I've ever witnessed in my whole life. Easily one of the highlights of night. Foo Fighters are self-confessed Queen fans and they play by the Freddie Mercury book, having in mind how important it is that the audience feels they're part of the show. Taylor Hawkins even emulated Freddie vocal improvisation at Wembley Stadium in 1986.

Overall it was a night of ups and downs that could have (and should have) been more on the upper side. With such a long stage time, the Foo Fighters could have played 5 more songs and done a more compelling show. Obviously, at the end of the day, as the biggest rock 'n' roll band in the world right now, they can do whatever the fuck they want. At least as long as they keep selling the tickets.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Na noite do The Weeknd, foi Ryan Adams quem reinou

O primeiro dia dos NOS Alive também contou com a pujança dos Royal Blood


O primeiro dia do NOS Alive 2017 provou por que todos os anos vemos o festival ganhar tracção internacional. A organização está cada vez melhor e, tirando a cegada que é a saída do recinto (invista num passadiço pedonal, Sr. Covões), o maior defeito está nalgumas escolhas perversas que obrigam o público a fazer. Mas esse é o preço de apresentar um cartaz muito forte. Vamos então ao resumo dos principais concertos do primeiro dia. Começando pelo fim.

The Weeknd (Palco NOS | 00:50)

Abel Tesfaye —  mais conhecido como The Weeknd —  era um dos nomes mais esperados do festival e basta olhar à volta para perceber que é o artista que mais gente trouxe ao primeiro dia do NOS Alive. Quem já ouviu a sua música (e como escapar a isso?), percebe que Abel sabe bem o que é uma música Pop e, mais importante que isso, sabe como criá-la. A expectativa era alta e a hora proibitiva do início do concerto (00:50 num dia de semana?) não demoveu os seus fiéis, que ocuparam uma boa parte do recinto em frente ao Palco NOS.

The Weeknd diz que ouve Michael Jackson antes dos concertos e essa inspiração ouve-se na sua música. Talvez seja por isso que o melhor The Weeknd apareça quando explora as pistas de dança. Como logo no início em "Star Boy", ou na imparável sequência "Secrets" / "Can't Feel My Face" / "I Feel It Coming"  lá mais para o fim, que foi facilmente o ponto alto de ontem no palco principal. Tenho um carinho especial por "Secrets", que cruza dois dos meus temas preferidos dos anos 80 — "Pale Shelter" dos Tears For Fears e "Talking In Your Sleep" dos The Romantics (se não conhecem, não deixem de espreitar) — e resulta num empadão Pop delicioso que revela arte na produção e muito, muito bom gosto.

É isto que acontece quando The Weeknd toma atenção à melodia  e foi esse talento que lhe valeu a fama de segunda vaga do Michael Jackson. Sem surpresa, foram também esses os melhores momentos do concerto de ontem. Pena que ele demasiadas vezes pareça mais apostado em ser a segunda vaga de Kanye West. Vamos então aos senãos.

O problema com The Weeknd ao vivo é o mesmo mal de que sofrem os seus discos. Estão (propositadamente) carregados de baixo que assoberbam todo o pavilhão auricular, supostamente para a música "bombar" mais. Só que isso arruína por completo quem quer ouvir a música e não está no Urban Beach. A melodia fica tão diluída no dilúvio dos baixos, que a determinado ponto torna toda a experiência penosa. O concerto de ontem teve demasiados momentos destes e não tinha que ser assim. A mudança de paradigma na audiência foi perceptível quando entrou a já referida sequência "Secrets" / "Can't Feel My Face" / "I Feel It Coming", com muito menor proeminência de baixo. Pena ele ter voltado para o fecho com "The Hills".

Agora que atingiu o estatuto de super-estrela, esperar-se-ia que Abel tentasse proteger as suas criações do tratamento sónico obnóxio a que são sujeitas. Mas é "assim" que está estabelecido agora, não é? Pois, é pena.


Royal Blood (Palco Heineken | 00:00)


Enquanto não chegam os Foo Fighters, os roqueiros que marcaram presença no NOS Alive congregaram-se ontem à meia-noite no Palco Heineken para ver Royal Blood. Mas antes de contar o que se passou no concerto, permitam-me um desabafo. Os Royal Blood são o perfeito espelho do ponto a que chegou a música Rock em 2017; ou melhor, do que é permitido ser uma banda Rock para ter algum airplay em 2017. Não que haja alguma coisa de mal com o duo de Brighton, atenção. Mas fico algo confuso quando os parecem vender como os novos Led Zeppelin. Revela mais sobre o estado do mainstream actual do que da própria banda, que não culpa nenhuma disso. 

Como qualquer roqueiro, ouço-os com toda a facilidade e esse é que é o problema. Eles são tem genéricos, tão 'clean' e tão consensuais, que fica difícil estabelecer uma relação de afecto mais intensa. Na época do politicamente correcto, os rapazes inofensivos dos Royal Blood são os heróis moderados perfeitos. É que, já sabemos, agora os músicos não podem dizer nada que seja minimamente ofensivo, não podem ter atitude e, god forbid, alguma densidade. Pela minha parte, preciso de mais alguma profundidade ou. pelo menos. mais alguma tesão (e sim, esta é a palavra) do que a insipidez de um "Figure It Out"; embora reconheça alguma melhoria do primeiro para o segundo álbum (nomeadamente no "How Did We Get Do Dark?", que não foi tocado ontem). O problema não é não haver bandas Rock em 2017. É não haver bandas Rock que me compelem a criar uma religião sobre eles. Mas divago.

Dito tudo isto, meu amigos rockers que me lêem, o concerto de ontem no Heineken foi uma bomba. Puro Rock 'n' Roll. E não, não há aqui qualquer contradição. Ao vivo, a história é bem diferente. Não é por acaso que o concerto Rock ganhou fama de experiência transcendental.

Em primeiro lugar, tiro o chapéu à organização que teve olho em pôr o duo de Brighton na tenda Heineken, não caindo na tentação de pôr a banda a abrir para o The Weeknd no palco principal, misturando públicos diferentes e diluindo a sua pujança naquele espaço aberto. Na tenda, os Royal Blood puderam concentrar todo o seu músculo num espaço exíguo e, em comunhão com o público, criar um ambiente selvagem e ensurdecedor, daqueles que enchem o coração a qualquer roqueiro.

Enquanto os riffs rijos do baixo de Ben Thatcher ocupavam a tenda, Mike Kerr carregava na bateria com toda a força, castigando os pratos como se de uma terapia se tratasse. E quando chegou "Figure It Out" — esse mesmo que eu diminuí no início do texto —, foi o delírio. À frente do palco, o caos do mosh e cá atrás, o regresso do fenómeno das cavalitas, bonito espectáculo para ver nos ecrãs, menos para os desgraçados que estão directamente atrás.

No fim do concerto, Ben e Mike foram para o meio do público e despediram-se em crowd-surfing: "never in my life I've seen at the same place and at the same time so many beautiful people. Thank you so much!", até que a produção lhes cortou o som, porque por eles, já não saíam dali. Mesmo presumindo que Mike diz isso a todas (as audiências), eu fiquei a gostar mais dos Royal Blood. Vejam só a diferença que um concerto pode fazer. A vontade de formar a religião é que nem por isso.


Ryan Adams (Palco Heineken | 22:00)


Deixei o melhor para o fim. Eram 22:00 quando entrou na tenda Heineken o melhor músico que actuou ontem no Alive. É um cenário um pouco estranho, ver Ryan Adams aparentemente perdido no meio do cartaz, para quem traz na bagagem um dos melhores álbuns do ano (e não sou só eu que o digo). Mais estranho ainda é ver a organização impor a escolha perversa entre Ryan na Heineken e The xx no palco principal. Como se houvessem dúvidas.

Ryan Adams entrou logo a abrir com "Do You Still Love Me?", o primeiro single do seu novo álbum "Prisoner", que poderia também ser dos Whitesnake. "Do you still love me, babe?!" canta Ryan, num grito terapêutico que de imediato o liga emocionalmente com o público. É esse elo emocional que é trabalhado ao longo de quase hora e meia. Seguidamente avança para os clássicos "To Be Young (Is To Be Sad, Is To Be High)" do álbum "Heartbreaker" e "Gimme Something Good" do seu álbum homónimo de 2014, outro callback ao Hair Metal dos anos 80. Já estamos todos ligados.

O set de Ryan faz um resumo de toda a sua carreira, incluindo os álbuns com os The Cardinals, pecando só por mostrar muito pouco do seu superlativo novo álbum. Outro senão é a completa ausência de temas de "1989"; embora soubesse à partida que Ryan não costuma tocar esse álbum, não deixei de ficar um pouco desapontado. Faltaram também "Come Pick Me Up" e o seu famoso cover de "Wonderwall". Talvez Ryan tivesse ouvido acerca dos incêndios que castigaram Portugal no último mês e tivesse medo de pegar fogo à tenda Heineken com o tema dos Oasis.

Como artista multifacetado que é, Ryan quis dar um espectáculo a mostrar todos os seus registos. Assim, para além dos momentos de maior vapor, houve também espaço a temas de beleza tranquila como "When The Stars Go Blue" e refrões a capella (lamentavelmente interrompidos pelo ruído vindo do palco principal) e solos de guitarra de 5 minutos em "Peaceful Valley".

As canções que Ryan vai entregando sucessivamente em intensidade catártica são praticamente mono-temáticas. A sua música nasce à custa de um sem número de marteladas no coração e de um consequente abuso de substâncias proibidas (que também afectaram a sua fisionomia) que lhe trazem inspiração. Mas há algo de irresistivelmente masoquista e metaromântico nesta vontade Louis-CKiana que ouvimos na música de Ryan Adams, de se apaixonar sem medo da miséria do pós-heartbreak. Estou, aliás, cada vez mais perto de o proclamar o melhor escritor de canções de break-up desde Bruce Springsteen.

O espaço é perfeito para ouvir esta música acolhedora de Ryan Adams. Minha querida Heineken. Ryan não tem o baixo do Urban, mas não precisa de nada disso. Traz as melodias e os sentimentos nas suas canções. Porque "música não é fogo-de-artifício, música é sentimento", lembram-se? Ontem parecia até que havia uma Team Heineken, já que o baterista do Ryan Adams envergava uma t-shirt dos Royal Blood, que iriam actuar a seguir. Por falar em t-shirts, viram a do baixista, que dizia "THE SMITH" com o grafismo dos The Smiths e a cara do... Robert Smith? O elo emocional da banda com o público foi apertando e Ryan Adams (que vestia uma t-shirt da sua própria banda) despediu-se do público com um emocionado "This place fucking rules, you rule!". Não, Ryan. Tu é que reinas no nosso coração. 

terça-feira, 27 de junho de 2017

Os Aerosmith despediram-se de Portugal e houve Rock N' Roll

A banda de Massachussetts tocou ontem no Meo Arena e sentiu-se o perigo de que tudo podia acontecer


Antes do advento da comercialização dos concertos, propalado pela publicidade e pelas redes sociais, o 'Concerto Rock' era um espectáculo tudo menos glamoroso: salas escuras e mal ventiladas, cheiro a cerveja e transpiração, banhos de cerveja a rodos (às vezes cerveja 'quentinha'; se é que me faço entender) e no palco, a sensação que tudo podia acontecer a qualquer momento. O caos. Perguntem a qualquer habitué dos concertos em Portugal nos anos 80 e ouvirão histórias de horror contadas com um estranho brilho nos olhos, de quem tem saudades de um perigo que só se podia sentir num concerto Rock. Foram "os bons velhos tempos", dirão eles.

Esses tempos já lá vão. As organizações melhoraram muito e felizmente (ou infelizmente?) o perigo é algo que já não se sente num concerto Rock. O problema é que essa sensação de segurança não raras vezes se estende ao palco, ao ponto que já levamos a página da setlist.fm aberta no smartphone com o alinhamento do último concerto (eu próprio sou culpado deste crime) e tudo segue conforme o planeado. Não é lá muito Rock N' Roll.

Importa este prólogo para enquadrar o que se viu e viveu ontem no concerto dos Aerosmith. Porque ontem houve mesmo Rock N' Roll no Meo Arena. Como nos bons velhos tempos.

Comecemos pelos factos. O espectáculo de ontem fez parte da digressão de despedida dos Aerosmith, intitulada de "Aero-Vederci Baby!" e foi muito provavelmente o último concerto da banda em Portugal. A despedida vem na altura certa já que, olvidando algumas entradas e saídas temporárias, esta ainda é a formação original dos Aerosmith: Steven Tyler, Joe Perry (os Toxic Twins), Brad Whitford, Tom Hamilton e Joey Kramer. Quem esteve ontem no Meo Arena pode gabar-se de ter visto os mesmos Aerosmith que em 1973 lançaram o álbum de estreia homónimo que trouxe bombas como "Mama Kin" (o grande ausente da noite de ontem) e "Dream On"; que em 1975-1976 gravaram os cocainados "Toys In The Attic" e "Rocks"; e que em 1993 rebentaram a MTV com os singles "Cryin'" e "Crazy". Ainda são os mesmos cinco gajos de Massachussets. Só que agora com 70 anos.

Os Aerosmith apresentaram um set carregado de hits para cantar de braços no ar como "Livin' On The Edge", "Cryin'" e "Dude (Looks Like A Lady)" (que ao vivo ganha outra vida), alguns clássicos dos anos 70 como "Walk This Way", "Sweet Emotion" e "Dream On" (com Joe Perry a dar uma de Slash e a subir ao piano para o solo) e algumas surpresas como os meus preferidos "Seasons Of Wither" e "Eat The Rich" (seguido de um belo arroto ao microfone, respeitando a gravação original no disco). Também não faltou a balada para levantar o telemóvel — "I Don't Want To Miss A Thing" — que é a chamada 'canção que paga as contas'. Eu preferia fechar os olhos e deixar-me dormir, mas isso sou eu.

Fora a balada da ordem, os Aerosmith trouxeram um cheirinho do que era o rock selvagem e imprevisível dos anos 70 (e não, não foi só o cheiro a transpiração provocado pela sauna no pavilhão). Talvez pela idade avançada e aspecto frágil da banda (embora pareçam mais cool que nunca), talvez pela setlist diferente de noite para noite, talvez porque nem sempre correu tudo bem, houve um irresistível aroma de imprevisibilidade durante todo o concerto. Porque só quando a banda se atreve a sujeitar-se ao erro é que o Rock N' Roll acontece. Como quando o auricular de Steven Tyler morreu e obrigou a banda a estender uma jam session no palco — a única rede que eles tinham era continuar a tocar; ou quando Steven Tyler puxava pela voz e ela não dava para mais, mas ele respirava fundo e continuava. Podia até ser tudo parte do espectáculo, mas sentiu-se que tudo podia acontecer ali. Sentiu-se perigo. E isto, meu amigos, é um concerto Rock.

Os Aerosmith tocaram:

quarta-feira, 21 de junho de 2017

O novo álbum dos Fleetwood Mac que não é dos Fleetwood Mac

Chegou o álbum que junta Lindsey Buckingham e Christine McVie. Vale a pena?


Se não forem fãs atentos dos Fleetwood Mac, é provável que não saibam que a banda mais dramática e emocionalmente instável dos anos 70 lançou um álbum novo este mês. Bem, mais ou menos. "Lindsey Buckingham Christine McVie" é, na prática, o novo álbum dos Fleetwood Mac em tudo menos no nome. Senão vejamos: todos os temas são escritos por Lindsey Buckingham e Christine McVie, dois terços do núcleo de compositores da formação clássica dos Fleetwood Mac; a secção rítmica que toca no álbum é composta por Mick Fleetwood na bateria e John McVie no baixo, nomes que acho que são auto-elucidativos; e por último, mas não menos importante, o álbum soa brutalmente a Fleewood Mac.

E como não soar a Fleetwood Mac? Afinal de contas, a equipa é a mesma. Só falta mesmo a Stevie Nicks. Mas quem precisa da Stevie Nicks, anyway? Nada contra a senhora, ela seria aqui muito bem-vinda com dois ou três temas da sua autoria e uns "Aaaahs" e uns "Oooohs" nas backing vocals, mas se a sonoridade está lá, será que ela é mesmo precisa? Só se for mesmo para dar direito a usar o nome. Mas se ela não queria ter trabalho, podia ter aparecido para tocar umas maracas num dos temas e resolvia-se a questão.

Não houve Stevie Nicks, não pôde haver Fleetwood Mac e foi aqui que começou um rol de equívocos. Começando logo pelo nome do álbum. Quem conhece as bases da história dos Fleetwood Mac, mais especificamente da sua formação clássica, saberá que Lindsey Buckingham e Stevie Nicks foram recrutados anos depois do vazio deixado pela saída do icónico compositor e guitarrista Peter Green (por este ter, digamos, "fritado" com as drogas) e o que lhes valeu a entrada na banda foi um álbum colaborativo que gravaram em 1973, nos tempos em que eram um casal, baptizado de "Buckingham Nicks". Faria portanto todo o sentido que este álbum, sendo uma colaboração entre Buckingham e McVie se chamasse... "Buckingham McVie". Foi esse o "working title" do álbum até à última hora e eu adorava que me explicassem a decisão de mudar.



Agora atentem na capa em cima. Será que era possível o Lindsey e a Christine estarem mais separados na foto da capa?! É que eu acho que nem as sombras se tocam. Para um álbum onde o afecto e a intimidade são temáticas recorrentes, não poderia haver capa mais fria. E tantas imagens melhores havia. Como esta foto de promoção, por exemplo:


Ou esta, com ambos sentados no sofá e Lindsey a mostrar todo o seu desconforto por estar ali (OK, esta talvez não):


E por que não a recuperação de uma imagem clássica, dos velhos tempos dos Fleetwood Mac?


A capa do álbum é uma aberração entre o esquisito e o inexplicável. Não acredito que ninguém foi capaz de avisar o Lindsey e a Christine que aquilo na melhor das hipóteses era medíocre e na pior passava a mensagem errada ao público (de afastamento). E se eu não conhecesse as capas obscenamente más dos álbuns a solo do Lindsey, ainda era capaz de suspeitar que era auto-sabotagem. "Buckingham McVie" (deixem-me ficar com o título antigo) tem tanto de elusivo, que eu me pergunto se os seus criadores querem mesmo que tenha sucesso.

Ainda me resta mais uma queixa relativamente a "Buckingham McVie": o som (pelo menos da versão que eu ouvi no Spotify). Mas que raio de assassinato sonoro vem a ser este? Para quê tanta compressão? Para quê o volume tão alto? Os álbuns dos Fleetwood Mac soam maravilhosamente bem, por isso sei que o Lindsey e a Christine sabem melhor que isto. Qual é a ideia? Apelar à "Geração Spotify"? Malta, ninguém vai ouvir o vosso álbum porque o apanharam na barra de sugestões do Drake ou da Ariana Grande. Vão ouvir porque conhecem os Fleetwood Mac. Ponto.

Agora que já ventilei as minhas reclamações, eis o meu veredicto. Nestes dias do Indie Rock perdido, bipolar e esquizofrénico, é sempre bom ouvir um álbum firmemente ancorado na melodia. E na positividade também. Para variar.
"Carnival Begin" é um dos temas do ano. É lindo, lindo, lindo. Eu sei, certamente não o vão encontrar nas listas dos melhores do ano nas publicações mais trendy, mas não deixem que isso afecte o vosso sentido de melodia. Lindsey e Christine navegam num ambiente acolhedor bluesista ("I want it all / All the colours and swings / A new merry-go-round / Carnival begin"), numa canção que só peca por terminar demasiado cedo, interrompendo o coito de um solo de guitarra tão belo e tão raro nestes tempos em que toda a gente se pela de medo por arriscar um solo num disco. Louvo-te a coragem, Lindsey.

Se são fãs da era clássica dos Fleetwood Mac (entre o álbum homónimo "Fleetwood Mac" de 1975 e "Tango In The Night" de 1987), vão adorar "Buckingham McVie"; é um "return to form" da dupla mais improvável dos Fleetwood Mac e o melhor trabalho desde o longínquo (e a todos os títulos maravilhoso) "Tango In The Night". Se são fãs da era de Peter Green, talvez isto não seja para vocês. Se só conhecem alguns temas avulsos dos Fleetwood Mac (provavelmente "Little Lies", "Go Your Own Way" e "Gypsy"), devem dar uma chance a "Buckingham McVie", mas mais importante que isso, do que é que estão à espera para ouvir esfomeadamente o "Rumours" e o "Tango In The Night"? Ou esta playlist espectacular? Ainda aqui estão? Tudo para o Spotify! O "Buckingham McVie" pode esperar.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Slash é Deus e outras notas do concerto dos Guns N' Roses

Passadas duas semanas, ainda estou em lua de mel com aquela noite mágica no Passeio Marítimo de Algés


Sexta-feira, 3 de Junho. Fui ao Passeio Marítimo de Algés ver os Guns N' Roses pela terceira vez, mas a meio do primeiro tema percebi que afinal era a só primeira vez que eu estava a ver Guns N' Roses. As duas primeiras (2006 e 2010) foram outra coisa qualquer que depois disto, eu nem me quero lembrar. Foi uma revelação. Depois dos anos das trevas, a minha fé nos Guns N' Roses foi restaurada. E acho que os 60 mil ali presentes sentiram o mesmo.

Desde então, passaram-se duas semanas, mas ainda estou em recuperação do concerto. Literalmente, porque algures no meio da confusão, alguém me terá passado uma daquelas belas viroses e a minha garganta ainda não recuperou; e porque ainda estou abananado com o que vi e senti em frente àquele palco. Seguem-se algumas notas sobre o concerto, com o habitual aviso que podem esperar superlativos.

Vou começar por fazer uma revelação da forma mais heterossexual que conseguir. Aqui vai: o Slash a tocar guitarra é das coisas mais lindas, mais maravilhosas, que se pode ver em vida. Period. É uma visão deslumbrante, olhar para aquele desenho animado humano de cartola em cima de uma farta cabeleira, a expelir sons divinos de uma guitarra. A alma que Slash injecta à música (mesmo quando não é escrita por ele) é uma virtude tão superlativa que só pode ser classificada de uma forma: é um dom. Foi a primeira vez que ouvi o seu cover de "Wish You Were Here" (obra de outro Deus da guitarra) e para não vos dizer que foi do caralhão (não posso fazer uso de palavrões aqui), digo só que foi um dos pontos altos do concerto. Slash é Deus. Period.

O Duff é uma máquina de coolness clinicamente bem oleada. O baixo e o penteado estão sempre no ponto. Tudo bem feito.

Adoro o tio Axl. Fui um dos poucos que saiu em defesa da sua escolha para novo vocalista dos AC/DC antes do histórico concerto de Algés (depois foi fácil, até o Guardian lhe deu 5 estrelas). Mas se no ano passado ele esteve imperial, este ano mostrou zonas cegas no espectro vocal e entrou demasiadas vezes em modo Mickey Mouse. Também não me pareceu muito bem disposto, embora não tenha sido isso a afectar a sua performance. O pior foi a inexplicável insistência em assassinar a sua própria versão de "Knockin' On Hevaen's Door" de Bob Dylan, que todos aprendemos a amar com os seus "hey, hey, hey-hey-yeaah". Para onde foram?!

"Estranged" e "Coma" foram os musts da noite. Que delícia para os olhos e os ouvidos. Dois épicos imaculadamente interpretados, que mostram que os Guns N' Roses foram um dia a perfeita fusão entre a melodia de Elton John, a luxúria dos Aerosmith, a pompa dos Queen e a grandiosidade dos Pink Floyd e tudo isto em plena era do Grunge, que negava todos os anteriores.

"Better" nunca foi sequer um dos melhores temas dos "NuGuns" (Guns sem Slash e Duff) e não tem rigorosamente nada a ver com a sonoridade da banda original; chega a ser ofensivo ver isto ao lado dos clássicos. No pólo oposto está "This I Love", que parece talhada para as mãozinhas de Slash. Juntamente com "There Was A Time" (o melhor tema dos NuGuns, infelizmente ausente da setlist), "The Blues" ("Street Of Dreams", o tanas), "Catcher In The Rhye" (com Brian May!) e "Madagascar", merecia uma reimaginação com a banda original. Pensando nisso, até "Shackler's Revenge" poderia resultar; o que me leva a crer que no meio de algum verbo de encher e diluído em toda aquela super-produção, há um grande álbum escondido em "Chinese Democracy". Mas deixemos essa análise para outro dia.

Para já, o mais importante é que alguém agarre no Izzy – nem que seja com sacos de notas – e o meta dentro de um estúdio a escrever "canções dos Guns N' Roses". Porque só ele sabe exactamente como se faz. Mas lá estou eu a divagar; voltemos a Algés.

Não foi barato, mas fui para o Golden Circle. O veredicto? Foram os 130€ mais bem empregues do último ano. Ainda há pouco tempo houve quem desse 500€ por um saco-cama para ir ver o Papa, mas esse não tocava o "Paradise City" de costas. Eu dei 130€ e vi Deus. O que me leva ao próximo ponto.
Slash é Deus. Não sei se já tinha dito.