terça-feira, 27 de junho de 2017

Os Aerosmith despediram-se de Portugal e houve Rock N' Roll

A banda de Massachussetts tocou ontem no Meo Arena e sentiu-se o perigo de que tudo podia acontecer


Antes do advento da comercialização dos concertos, propalado pela publicidade e pelas redes sociais, o 'Concerto Rock' era um espectáculo tudo menos glamoroso: salas escuras e mal ventiladas, cheiro a cerveja e transpiração, banhos de cerveja a rodos (às vezes cerveja 'quentinha'; se é que me faço entender) e no palco, a sensação que tudo podia acontecer a qualquer momento. O caos. Perguntem a qualquer habitué dos concertos em Portugal nos anos 80 e ouvirão histórias de horror contadas com um estranho brilho nos olhos, de quem tem saudades de um perigo que só se podia sentir num concerto Rock. Foram "os bons velhos tempos", dirão eles.

Esses tempos já lá vão. As organizações melhoraram muito e felizmente (ou infelizmente?) o perigo é algo que já não se sente num concerto Rock. O problema é que essa sensação de segurança não raras vezes se estende ao palco, ao ponto que já levamos a página da setlist.fm aberta no smartphone com o alinhamento do último concerto (eu próprio sou culpado deste crime) e tudo segue conforme o planeado. Não é lá muito Rock N' Roll.

Importa este prólogo para enquadrar o que se viu e viveu ontem no concerto dos Aerosmith. Porque ontem houve mesmo Rock N' Roll no Meo Arena. Como nos bons velhos tempos.

Comecemos pelos factos. O espectáculo de ontem fez parte da digressão de despedida dos Aerosmith, intitulada de "Aero-Vederci Baby!" e foi muito provavelmente o último concerto da banda em Portugal. A despedida vem na altura certa já que, olvidando algumas entradas e saídas temporárias, esta ainda é a formação original dos Aerosmith: Steven Tyler, Joe Perry (os Toxic Twins), Brad Whitford, Tom Hamilton e Joey Kramer. Quem esteve ontem no Meo Arena pode gabar-se de ter visto os mesmos Aerosmith que em 1973 lançaram o álbum de estreia homónimo que trouxe bombas como "Mama Kin" (o grande ausente da noite de ontem) e "Dream On"; que em 1975-1976 gravaram os cocainados "Toys In The Attic" e "Rocks"; e que em 1993 rebentaram a MTV com os singles "Cryin'" e "Crazy". Ainda são os mesmos cinco gajos de Massachussets. Só que agora com 70 anos.

Os Aerosmith apresentaram um set carregado de hits para cantar de braços no ar como "Livin' On The Edge", "Cryin'" e "Dude (Looks Like A Lady)" (que ao vivo ganha outra vida), alguns clássicos dos anos 70 como "Walk This Way", "Sweet Emotion" e "Dream On" (com Joe Perry a dar uma de Slash e a subir ao piano para o solo) e algumas surpresas como os meus preferidos "Seasons Of Wither" e "Eat The Rich" (seguido de um belo arroto ao microfone, respeitando a gravação original no disco). Também não faltou a balada para levantar o telemóvel — "I Don't Want To Miss A Thing" — que é a chamada 'canção que paga as contas'. Eu preferia fechar os olhos e deixar-me dormir, mas isso sou eu.

Fora a balada da ordem, os Aerosmith trouxeram um cheirinho do que era o rock selvagem e imprevisível dos anos 70 (e não, não foi só o cheiro a transpiração provocado pela sauna no pavilhão). Talvez pela idade avançada e aspecto frágil da banda (embora pareçam mais cool que nunca), talvez pela setlist diferente de noite para noite, talvez porque nem sempre correu tudo bem, houve um irresistível aroma de imprevisibilidade durante todo o concerto. Porque só quando a banda se atreve a sujeitar-se ao erro é que o Rock N' Roll acontece. Como quando o auricular de Steven Tyler morreu e obrigou a banda a estender uma jam session no palco — a única rede que eles tinham era continuar a tocar; ou quando Steven Tyler puxava pela voz e ela não dava para mais, mas ele respirava fundo e continuava. Podia até ser tudo parte do espectáculo, mas sentiu-se que tudo podia acontecer ali. Sentiu-se perigo. E isto, meu amigos, é um concerto Rock.

Os Aerosmith tocaram:

quarta-feira, 21 de junho de 2017

O novo álbum dos Fleetwood Mac que não é dos Fleetwood Mac

Chegou o álbum que junta Lindsey Buckingham e Christine McVie. Vale a pena?


Se não forem fãs atentos dos Fleetwood Mac, é provável que não saibam que a banda mais dramática e emocionalmente instável dos anos 70 lançou um álbum novo este mês. Bem, mais ou menos. "Lindsey Buckingham Christine McVie" é, na prática, o novo álbum dos Fleetwood Mac em tudo menos no nome. Senão vejamos: todos os temas são escritos por Lindsey Buckingham e Christine McVie, dois terços do núcleo de compositores da formação clássica dos Fleetwood Mac; a secção rítmica que toca no álbum é composta por Mick Fleetwood na bateria e John McVie no baixo, nomes que acho que são auto-elucidativos; e por último, mas não menos importante, o álbum soa brutalmente a Fleewood Mac.

E como não soar a Fleetwood Mac? Afinal de contas, a equipa é a mesma. Só falta mesmo a Stevie Nicks. Mas quem precisa da Stevie Nicks, anyway? Nada contra a senhora, ela seria aqui muito bem-vinda com dois ou três temas da sua autoria e uns "Aaaahs" e uns "Oooohs" nas backing vocals, mas se a sonoridade está lá, será que ela é mesmo precisa? Só se for mesmo para dar direito a usar o nome. Mas se ela não queria ter trabalho, podia ter aparecido para tocar umas maracas num dos temas e resolvia-se a questão.

Não houve Stevie Nicks, não pôde haver Fleetwood Mac e foi aqui que começou um rol de equívocos. Começando logo pelo nome do álbum. Quem conhece as bases da história dos Fleetwood Mac, mais especificamente da sua formação clássica, saberá que Lindsey Buckingham e Stevie Nicks foram recrutados anos depois do vazio deixado pela saída do icónico compositor e guitarrista Peter Green (por este ter, digamos, "fritado" com as drogas) e o que lhes valeu a entrada na banda foi um álbum colaborativo que gravaram em 1973, nos tempos em que eram um casal, baptizado de "Buckingham Nicks". Faria portanto todo o sentido que este álbum, sendo uma colaboração entre Buckingham e McVie se chamasse... "Buckingham McVie". Foi esse o "working title" do álbum até à última hora e eu adorava que me explicassem a decisão de mudar.



Agora atentem na capa em cima. Será que era possível o Lindsey e a Christine estarem mais separados na foto da capa?! É que eu acho que nem as sombras se tocam. Para um álbum onde o afecto e a intimidade são temáticas recorrentes, não poderia haver capa mais fria. E tantas imagens melhores havia. Como esta foto de promoção, por exemplo:


Ou esta, com ambos sentados no sofá e Lindsey a mostrar todo o seu desconforto por estar ali (OK, esta talvez não):


E por que não a recuperação de uma imagem clássica, dos velhos tempos dos Fleetwood Mac?


A capa do álbum é uma aberração entre o esquisito e o inexplicável. Não acredito que ninguém foi capaz de avisar o Lindsey e a Christine que aquilo na melhor das hipóteses era medíocre e na pior passava a mensagem errada ao público (de afastamento). E se eu não conhecesse as capas obscenamente más dos álbuns a solo do Lindsey, ainda era capaz de suspeitar que era auto-sabotagem. "Buckingham McVie" (deixem-me ficar com o título antigo) tem tanto de elusivo, que eu me pergunto se os seus criadores querem mesmo que tenha sucesso.

Ainda me resta mais uma queixa relativamente a "Buckingham McVie": o som (pelo menos da versão que eu ouvi no Spotify). Mas que raio de assassinato sonoro vem a ser este? Para quê tanta compressão? Para quê o volume tão alto? Os álbuns dos Fleetwood Mac soam maravilhosamente bem, por isso sei que o Lindsey e a Christine sabem melhor que isto. Qual é a ideia? Apelar à "Geração Spotify"? Malta, ninguém vai ouvir o vosso álbum porque o apanharam na barra de sugestões do Drake ou da Ariana Grande. Vão ouvir porque conhecem os Fleetwood Mac. Ponto.

Agora que já ventilei as minhas reclamações, eis o meu veredicto. Nestes dias do Indie Rock perdido, bipolar e esquizofrénico, é sempre bom ouvir um álbum firmemente ancorado na melodia. E na positividade também. Para variar.
"Carnival Begin" é um dos temas do ano. É lindo, lindo, lindo. Eu sei, certamente não o vão encontrar nas listas dos melhores do ano nas publicações mais trendy, mas não deixem que isso afecte o vosso sentido de melodia. Lindsey e Christine navegam num ambiente acolhedor bluesista ("I want it all / All the colours and swings / A new merry-go-round / Carnival begin"), numa canção que só peca por terminar demasiado cedo, interrompendo o coito de um solo de guitarra tão belo e tão raro nestes tempos em que toda a gente se pela de medo por arriscar um solo num disco. Louvo-te a coragem, Lindsey.

Se são fãs da era clássica dos Fleetwood Mac (entre o álbum homónimo "Fleetwood Mac" de 1975 e "Tango In The Night" de 1987), vão adorar "Buckingham McVie"; é um "return to form" da dupla mais improvável dos Fleetwood Mac e o melhor trabalho desde o longínquo (e a todos os títulos maravilhoso) "Tango In The Night". Se são fãs da era de Peter Green, talvez isto não seja para vocês. Se só conhecem alguns temas avulsos dos Fleetwood Mac (provavelmente "Little Lies", "Go Your Own Way" e "Gypsy"), devem dar uma chance a "Buckingham McVie", mas mais importante que isso, do que é que estão à espera para ouvir esfomeadamente o "Rumours" e o "Tango In The Night"? Ou esta playlist espectacular? Ainda aqui estão? Tudo para o Spotify! O "Buckingham McVie" pode esperar.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Slash é Deus e outras notas do concerto dos Guns N' Roses

Passadas duas semanas, ainda estou em lua de mel com aquela noite mágica no Passeio Marítimo de Algés


Sexta-feira, 3 de Junho. Fui ao Passeio Marítimo de Algés ver os Guns N' Roses pela terceira vez, mas a meio do primeiro tema percebi que afinal era a só primeira vez que eu estava a ver Guns N' Roses. As duas primeiras (2006 e 2010) foram outra coisa qualquer que depois disto, eu nem me quero lembrar. Foi uma revelação. Depois dos anos das trevas, a minha fé nos Guns N' Roses foi restaurada. E acho que os 60 mil ali presentes sentiram o mesmo.

Desde então, passaram-se duas semanas, mas ainda estou em recuperação do concerto. Literalmente, porque algures no meio da confusão, alguém me terá passado uma daquelas belas viroses e a minha garganta ainda não recuperou; e porque ainda estou abananado com o que vi e senti em frente àquele palco. Seguem-se algumas notas sobre o concerto, com o habitual aviso que podem esperar superlativos.

Vou começar por fazer uma revelação da forma mais heterossexual que conseguir. Aqui vai: o Slash a tocar guitarra é das coisas mais lindas, mais maravilhosas, que se pode ver em vida. Period. É uma visão deslumbrante, olhar para aquele desenho animado humano de cartola em cima de uma farta cabeleira, a expelir sons divinos de uma guitarra. A alma que Slash injecta à música (mesmo quando não é escrita por ele) é uma virtude tão superlativa que só pode ser classificada de uma forma: é um dom. Foi a primeira vez que ouvi o seu cover de "Wish You Were Here" (obra de outro Deus da guitarra) e para não vos dizer que foi do caralhão (não posso fazer uso de palavrões aqui), digo só que foi um dos pontos altos do concerto. Slash é Deus. Period.

O Duff é uma máquina de coolness clinicamente bem oleada. O baixo e o penteado estão sempre no ponto. Tudo bem feito.

Adoro o tio Axl. Fui um dos poucos que saiu em defesa da sua escolha para novo vocalista dos AC/DC antes do histórico concerto de Algés (depois foi fácil, até o Guardian lhe deu 5 estrelas). Mas se no ano passado ele esteve imperial, este ano mostrou zonas cegas no espectro vocal e entrou demasiadas vezes em modo Mickey Mouse. Também não me pareceu muito bem disposto, embora não tenha sido isso a afectar a sua performance. O pior foi a inexplicável insistência em assassinar a sua própria versão de "Knockin' On Hevaen's Door" de Bob Dylan, que todos aprendemos a amar com os seus "hey, hey, hey-hey-yeaah". Para onde foram?!

"Estranged" e "Coma" foram os musts da noite. Que delícia para os olhos e os ouvidos. Dois épicos imaculadamente interpretados, que mostram que os Guns N' Roses foram um dia a perfeita fusão entre a melodia de Elton John, a luxúria dos Aerosmith, a pompa dos Queen e a grandiosidade dos Pink Floyd e tudo isto em plena era do Grunge, que negava todos os anteriores.

"Better" nunca foi sequer um dos melhores temas dos "NuGuns" (Guns sem Slash e Duff) e não tem rigorosamente nada a ver com a sonoridade da banda original; chega a ser ofensivo ver isto ao lado dos clássicos. No pólo oposto está "This I Love", que parece talhada para as mãozinhas de Slash. Juntamente com "There Was A Time" (o melhor tema dos NuGuns, infelizmente ausente da setlist), "The Blues" ("Street Of Dreams", o tanas), "Catcher In The Rhye" (com Brian May!) e "Madagascar", merecia uma reimaginação com a banda original. Pensando nisso, até "Shackler's Revenge" poderia resultar; o que me leva a crer que no meio de algum verbo de encher e diluído em toda aquela super-produção, há um grande álbum escondido em "Chinese Democracy". Mas deixemos essa análise para outro dia.

Para já, o mais importante é que alguém agarre no Izzy – nem que seja com sacos de notas – e o meta dentro de um estúdio a escrever "canções dos Guns N' Roses". Porque só ele sabe exactamente como se faz. Mas lá estou eu a divagar; voltemos a Algés.

Não foi barato, mas fui para o Golden Circle. O veredicto? Foram os 130€ mais bem empregues do último ano. Ainda há pouco tempo houve quem desse 500€ por um saco-cama para ir ver o Papa, mas esse não tocava o "Paradise City" de costas. Eu dei 130€ e vi Deus. O que me leva ao próximo ponto.
Slash é Deus. Não sei se já tinha dito.

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Abram alas à maior Rock 'n' Roll Star – Liam Gallagher está de volta

O Gallagher mais novo deu ontem o seu primeiro concerto a solo e apresentou uma série de novíssimos 'Liam standards'

"I am he, as you are he, as you are me and we are all together!". Nem podia ser de outra maneira – as primeiras palavras que Liam Gallagher proferiu como artista a solo foram a citar o seu maior ídolo. John Lennon não trazia nenhuma mensagem em "I Am The Walrus" (originalmente até foi escrito como um desafio aos professores que analisavam as letras dos Beatles), mas aqui Liam podia querer muita coisa: saudar os fãs que nunca o deixaram e marcaram presença no seu primeiro concerto a solo; homenagear as vítimas dos atentados de Manchester (no palco estavam 22 velas, uma por vítima), cujas famílias receberam a totalidade dos lucros do espectáculo (enorme Liam); simplesmente fazer de John Lennon, ou não se achasse ele a reencarnação do Beatle mais temperamental.
'I just feel the fucking bollocks man. Every time I sing I just feel really fucking good.'
Liam Gallagher
Estava tudo preparado. Nos stands de merchandising já se vendiam t-shirts que perguntavam "Who the fuck is Liam Gallagher?" (quero!) e a audiência já aquecera com temas dos Stone Roses no sistema de som. Sem mais demoras, Liam acendeu o rastilho da audiência com o tema que o próprio personifica: "Rock 'n' Roll Star". Imagens arrepiantes:



A setlist do primeiro concerto a solo reuniu a maioria dos temas mais Liam dos Oasis (todos escritos pelo mano mais velho) e ainda bem. É tão bom voltar a ouvir "slide in baby, together we'll flaaaaa-y"e "let me be the one who shi-a-ines with yooooou-a" por quem sabe cantar estes versos. Que saudades. E claro, só podia vir de Liam a coragem de tocar temas do tão odiado "Be Here Now", sendo que um deles até contou com a participação especial de Bonehead, guitarrista original dos Oasis. Pena que faltassem alguns números essenciais dos Beady Eye, nomeadamente os explosivos "Flick Of The Finger" e "Four Letter Word". No total, o espectáculo durou 13 canções, alinhadas da seguinte forma (com links e tudo, que maravilha):
"Fuckin' in the Bushes" (Oasis)
"Rock 'n' Roll Star" (Oasis)
"Morning Glory" (Oasis)
"Greedy Soul" (estreia)
"Wall of Glass" (estreia)
"Bold" (estreia)
"Paper Crown" (estreia)
"D'You Know What I Mean?" (Oasis)
"Slide Away" (Oasis)
"It Doesn't Have to Be What Way" (estreia)
"You'd Better Run, You'd Better Hide" (estreia)
"Universal Gleam" (Live debut)
"Be Here Now" (com Bonehead) (Oasis)
Encore:
"Live Forever" (a capella) (Oasis)

As músicas novas? Ainda é demasiado cedo para avaliar e a fonte está longe de ser a mais adequada. Como dizia Curt Smith há uns dias, quando questionado sobre a razão de os Tears For Fears não tocarem nada do álbum novo na sua digressão: "Não queremos que a primeira versão que as pessoas ouçam das novas canções seja uma má gravação de telemóvel". Liam não quer saber destas minudências e abriu logo o baú. Assim, com as devidas ressalvas, vou arriscar uma análise ultra-prematura aos novos temas de Liam Gallagher.

"Greedy Soul" foi a primeira do set de ontem e não engana – é malha. É um tema à medida de Liam ("and it's a long way dooooown!!"), na linhagem de canções como "Ain't Got Nothing" e "The Meaning Of Soul". Depois veio "Wall Of Glass", o primeiro single. Também aqui estamos em terrenos classic Liam – uma espécie de Rolling Stones revisited com aquele cheirinho psicadélico ao nível do que fez com os Beady Eye. O que, diga-se, ao contrário do que podem ter lido não é necessariamente insultuoso. Desmantelada a banda, podemos dividir o reportório dos Beady Eye num banco bom e num banco mau: o bom, cheio de canções a rasgar, normalmente atafulhadas na primeira metade do disco; o mau, com slows penosos que não são de forma alguma a praia de Liam (para isso precisa do mano mais velho). É tão exasperante ouvir estes temas como é ver o irmão Noel a tentar puxar os temas de maior andamento, que só Liam consegue agarrar. Mas para isso é que os irmãos se têm um ao outro, não é? Quando é que os manos percebem que são o perfeito complemento um do outro? Enfim, divago. Avancemos na setlist.

Como seria de temer, as coisas começaram a descer quando Liam começou neste registo slow de banco mau em "Bold"; valeu que a meio, o tema salta para um mid-tempo mais interessante. O pior viria a seguir com "Paper Crown", que não passou daquela mediocridade da balada standard Liamizada. Vá lá, miúdo. deixa-te disso, cinge-te ao que és melhor que ninguém. "D'You Know What I Mean?" levantou os ânimos e o inevitável, maior-que-a-vida, "Slide Away" foi o ponto alto do espectáculo.

"It Doesn't Have to Be What Way" recuperou tracção nos temas novos e "You'd Better Run, You'd Better Hide" e "Universal Gleam" (título que Liam queria dar ao último álbum dos Beady Eye) seguiram a trajectória ascendente nesta categoria a que podemos chamar de 'Liam standards'. Em nenhum deles Liam inventa a roda, mas convenhamos ninguém com o mínimo de sanidade estará à espera disso. Esperemos agora pelas versões de estúdio incluídas no novo álbum para formar um juízo mais bem fundamentado.

Mal posso esperar pelo novo álbum. Da minha parte, Liam pode contar sempre com mais uma chance. Foi ele quem me deu a mão quando tinha 14 anos, não conto largá-la jamais. Toda a sorte do mundo, Rkid. Nunca te esqueças do que me ensinaste: "in my mind my dreams are real".

quarta-feira, 24 de maio de 2017

E ao sexto dia, Deus criou Manchester

 Como a cultura de Manchester salvou a minha vida e como a querem matar

Amo Manchester. Amo-a profundamente, não pela sua beleza, mas pela sua alma. Para quem vive e adora viver em Lisboa, não é fácil apreciar Manchester. Ali não há praia nem sunsets, até porque não há sun; quem lá vai à espera de encontrar arco-íris e unicórnios, vai embater de frente com a realidade cinzenta da cidade. À primeira vista feia, triste e austera, a cidade esconde porém uma cultura de afirmação positiva sem paralelo – um oásis de rosas de pedra onde as ruas são frias e solitárias, mas os beijos dados por baixo das pontes metálicas são mágicos e à noite nos podemos sentir como uma estrela de Rock N' Roll. Se acharam a frase anterior desconexa, mas sentem que já ouviram isto antes (parem-me!), então devem ter percebido que comecei aqui algo que não sei se consigo terminar. Passemos, pois, ao assunto: esta é a história de como a música de Manchester salvou a minha vida (não literalmente, Mãe; está descansada).

Eu tinha 14 anos e não me identificava com nada em meu redor. Vivia num quotidiano casa-escola-casa solitário, sem rumo nem guia, de uma desorientação típica adolescente. Até que um dia ouço uma música (e como todas as revoluções na minha vida, esta também começou com uma música). A música chamava-se "Rock 'n' Roll Star" e respondia a todos os meus anseios. Era tudo tão simples – "Tonight I'm a Rock 'n' Roll star". Porque sim. Porque "na minha cabeça, os meus sonhos eram realidade" e se eu quisesse, podia ser tudo. E assim abri a porta à cidade que salvou várias vezes a minha vida e à cultura com que eu, finalmente, me pude identificar – a música de Manchester.

Muitas vidas mais tarde, fui finalmente a Manchester. Visitar o lugar de onde saíram os nossos heróis é uma jogada de risco; a expectativa é alta e a cidade pode não corresponder à imagem que criámos ao ouvir a música. E eu não escondo que o meu primeiro pensamento foi "como raio uma cidade tão fria pode fazer música tão quente?". O que vale é que nos pubs está sempre calor.

"E ao sexto dia, Deus criou Manchester" – pode ler-se à porta do Afflecks, um dos mais icónicos lugares da cidade, em pleno coração do Northern Quarter. Aqui acredita-se piamente que Manchester é um lugar mágico e sagrado. E não é para menos. Afinal este é o lugar que deu berço às bandas mais cool da história do Rock: Oasis, The Stone Roses, The Smiths, Joy Division, New Order, James; outras menos cool mas com igual sucesso como Simply Red, Take That, The Hollies e The 1975 e outras menos conhecidas mas de igual pujança como os Buzzcocks, The Fall, Happy Mondays, A Certain Ratio, The Durutti Column (e restante legado da Factory Records e de Madchester). Só neste bocadinho enumerei 15 bandas saídas da capital mundial do estilo.

Gostei tanto de Manchester, que voltei logo a seguir para ver The Stone Roses – heróis da cidade e símbolos maiores da sua cultura (reparem na t-shirt que usei para a minha foto na NiT) – e ali deixei parte do meu coração. A que trouxe comigo, partiu-se esta semana a ver aquelas imagens horripilantes de um lugar onde eu já fui tão feliz.

É a mesma história do Bataclan. Estão outra vez a querer atacar o meu, o nosso, modo de vida. Agora doeu ainda mais, porque atacaram o lugar onde tenho parte do meu coração, porque atacaram a geração mais nova, porque atacaram o oásis da cultura da positividade. Mas estão com azar. Em Manchester, por pior que as coisas pareçam, há sempre alguém que se levanta e diz que "I am the resurrection and I am the life". Manchester é vida. Não é assim que a vão matar.


quinta-feira, 18 de maio de 2017

Chris Cornell, a estrela que era um de nós

A memória dos Soundgarden no Hyde Park

"Devem estar todos aqui para ver os Black Sabbath. Mas não faz mal, nós estamos aqui para o mesmo". Foi com esta nobreza e humildade que Chris Cornell saudou a audiência no Hyde Park em 2014, quando tive o privilégio de ver os Soundgarden abrir para os Sabbath. Já era fã de Chris, o vocalista – dono de um vozeirão de potência hercúlea; fiquei imediatamente fã de Chris, o homem.

Chris Cornell era um de nós. Um rocker como eu e milhões mais, que gostava de Beatles, David Bowie, Black Sabbath, Led Zeppelin, Bruce Springsteen, Pink Floyd, Metallica, U2... Se tivéssemos andado juntos na escola, seríamos amigos. Fazemos parte do mesmo grupo, sentimos a música da mesma forma; idolatramos os nossos artistas preferidos da mesma maneira, porque são "eles" que nos acompanham no nosso quotidiano, nos altos e baixos, na saúde e na doença e naquela lenga-lenga toda que o padre canta no casamento. Aliás, não deixa de ser curioso que seja com "eles" o mais sólido e eterno dos matrimónios que alguma vez contraímos.

Chris também queria ser um "deles". No início de carreira, Chris despedia-se do público com um bazofe – "Boa noite, nós somos os Black Sabbath" –; era a expressão de um sonho. Os Soundgarden acabariam por ganhar fama mundial, primeiro quando correram o mundo a abrir para os Guns N' Roses, depois com o êxito global de "Black Hole Sun"; mas nunca tiveram o reconhecimento que mereciam.

De todas as bandas de Seattle (que adoramos chamar de Grunge), os Soundgarden eram a mais completa. Apresentavam uma fusão de Hard Rock britânico, Metal californiano e Psicadelismo Floydiano, que resultava numa amálgama de música quente do deserto asfixiada dentro de uma cave fria de Seattle. Há uma ansiedade na música dos Soundgarden, uma vontade de sair, um desejo em explodir que não pode ser mais reprimido. O desejo é reforçado pela voz mastodôntica de Chris Cornell, que parece estar sempre à beira de rebentar. Como a minha, sempre que (tento) cantar o "Beyond The Wheel" no carro.

Apesar de se ter tornado num "deles", Chris Cornell nunca deixou de ser um nós. Foi esse sentimento que transmitiu quando entrou em palco a abrir para os seus ídolos Black Sabbath. Foi a única vez que vi as duas bandas ao vivo. Não haverá uma próxima.
No início de uma noite mágica que acabou benzida em chuva londrina, os Soundgarden entraram em palco com uma surpresa: "Acabámos de decidir há 15 minutos que vamos fazer pela última vez algo que só fizemos duas vezes no passado. Vamos tocar o álbum "Superunknown" na íntegra". Loucura.

O concerto foi como uma reunião do Liceu, com o regresso de Matt Cameron à bateria (Matt era o baterista original dos Soundgarden, mas quando a banda se separou no final dos anos 90, juntou-se aos Pearl Jam) e a aparição de Mike McCredy. também dos Pearl Jam, para o tema-título de "Superunknown". Foi uma festa de Seattle, todos juntos como nos tempos dos Temple Of The Dog, só que em vez de uma cave em Seattle, estávamos num parque em Londres. Foi esta a última vez que os Soundgarden tocaram na Europa (Chris regressaria no ano passado, mas a solo) e é a memória que levo de Chris Cornell. Um de nós.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

As três vitórias de Salvador Sobral, ou como maçar a malta da massa

O que espera a Salvador Sobral no panorama musical português? 


O meu Pai já mal abria os olhos e as minhas capacidades de focagem também não eram as melhores. Sentados à mesa de um restaurante, em pleno auge dos inebriados festejos do Tetra, tive que pedir à minha Mãe para ir junto à televisão verificar se eu estava a ver bem, ou se os 3 litros de cerveja já estavam a bater. Era verdade, o Salvador estava mesmo 100 pontos à frente do segundo lugar e preparava-se para trazer para Portugal o aparentemente inatingível caneco da Eurovisão. Primeira vitória.

A apoteótica chegada ao aeroporto no dia seguinte completou a mais épica jornada da História de Portugal desde que Vasco da Gama chegou a Belém com as caravelas carregadas de especiarias de Calecute. Aquela recepção é algo que, no plano musical, só tem paralelo com a aterragem dos Beatles na América. Era o dado que faltava para perfilar Salvador como o novo herói nacional; um palco que, tenho a certeza, o Ronaldo não se importará de dividir. Mas findos os festejos, fica a pergunta: e agora, que futuro está reservado para Salvador no panorama musical português?

Em primeiro lugar, faço votos para que o Salvador goze esse futuro com saúde. Também sou fã dos Queen (gostei de o ver com o "Crazy Little Thing Called Love" nos Ídolos), mas não quero que ele siga os passos do Freddie e nos deixe antes do tempo. Cuida-te, rapaz. Mas voltemos ao panorama musical português.

Olhemos para exemplos como Dulce Pontes, Anabela, Lúcia Moniz, ou José Cid – alguns dos seus mais bem sucedidos antecessores no euro-festival –, para ter uma ideia melhor do que espera a Salvador. Dulce Pontes esteve consistentemente no topo das tabelas nacionais ao longo dos anos 90 (e chegou a mercados tão longínquos como o Japão), mas foi perdendo fulgor comercial e é hoje praticamente uma figura de culto. A Anabela (por quem eu me apaixonei quando tinha 7 aninhos) não teve muito sucesso nos discos, mas tornou-se na "menina do La Féria" e estrela maior do teatro musical português. A Lúcia Moniz teve um grande êxito em inglês com o Nuno Bettencourt ("Try Again"), mas é mais conhecida pela sua carreira na representação. O José Cid é talvez o exemplo de carreira comercial mais longa e consistente, ainda assim não se livrando de períodos de ocaso e de um ou outro backlash causado pela sua língua afiada. Nenhum deles é um artista que possa ir ao palco principal de um grande festival em Portugal, muito menos ser headliner.

Da mesma forma, não é líquido que seja dado ao novo herói nacional o espaço no mainstream que a sua voz merece, dado o baixo teor em kizomba da sua música. Salvador sabe disto e o seu discurso de vitória levanta a questão de forma não muito subtil: "que esta seja uma vitória da música com conteúdo; música não é fogo-de-artifício, música é sentimento". Um "discurso polémico", dizem. Polémico, porque é verdade e dizer a verdade nestes dias do politicamente correcto é uma grande maçada, porque maça a malta da massa. Segunda vitória.

Ouvimos sempre que "as pessoas gostam do que gostam" e que se deve "dar ao público o que ele quer". O tanas. É tudo uma grande treta que inventaram para justificar o esgoto que nos querem escoar pela garganta a fundo. Normalmente a equação funciona ao contrário: o público gosta daquilo que lhes é dado e quanto mais lhes dão disso, mais eles querem. É como no livro do Astérix em que os romanos queriam vender menires e com a devida publicidade conseguiram convencer todas as famílias da Gália que ter um menir em casa é que era. As pessoas gostam de kizomba porque lhes é atirada kizomba aos baldes. Ponto.

Como em todas as áreas, é preciso educar para colher frutos. É preciso educar o hábito de procurar música (e arte no geral) e não se limitar a comer o que é posto no prato. Nem todos gostamos do mesmo e ainda bem, mas deve ser incutida a vontade da pesquisa e da descoberta. Se educarem os miúdos com caca, eles vão ouvir caca. E caca sai muito mais barato à malta da massa. Já aqui o escrevi antes: há demasiadas coisas medíocres na nossa vida, a música não pode ser uma delas. Não espero que Salvador revolucione o panorama musical português, mas pelo menos abriu o debate para que possamos começar a pensar nele. Terceira vitória.