quarta-feira, 17 de maio de 2017

As três vitórias de Salvador Sobral, ou como maçar a malta da massa

O que espera a Salvador Sobral no panorama musical português? 


O meu Pai já mal abria os olhos e as minhas capacidades de focagem também não eram as melhores. Sentados à mesa de um restaurante, em pleno auge dos inebriados festejos do Tetra, tive que pedir à minha Mãe para ir junto à televisão verificar se eu estava a ver bem, ou se os 3 litros de cerveja já estavam a bater. Era verdade, o Salvador estava mesmo 100 pontos à frente do segundo lugar e preparava-se para trazer para Portugal o aparentemente inatingível caneco da Eurovisão. Primeira vitória.

A apoteótica chegada ao aeroporto no dia seguinte completou a mais épica jornada da História de Portugal desde que Vasco da Gama chegou a Belém com as caravelas carregadas de especiarias de Calecute. Aquela recepção é algo que, no plano musical, só tem paralelo com a aterragem dos Beatles na América. Era o dado que faltava para perfilar Salvador como o novo herói nacional; um palco que, tenho a certeza, o Ronaldo não se importará de dividir. Mas findos os festejos, fica a pergunta: e agora, que futuro está reservado para Salvador no panorama musical português?

Em primeiro lugar, faço votos para que o Salvador goze esse futuro com saúde. Também sou fã dos Queen (gostei de o ver com o "Crazy Little Thing Called Love" nos Ídolos), mas não quero que ele siga os passos do Freddie e nos deixe antes do tempo. Cuida-te, rapaz. Mas voltemos ao panorama musical português.

Olhemos para exemplos como Dulce Pontes, Anabela, Lúcia Moniz, ou José Cid – alguns dos seus mais bem sucedidos antecessores no euro-festival –, para ter uma ideia melhor do que espera a Salvador. Dulce Pontes esteve consistentemente no topo das tabelas nacionais ao longo dos anos 90 (e chegou a mercados tão longínquos como o Japão), mas foi perdendo fulgor comercial e é hoje praticamente uma figura de culto. A Anabela (por quem eu me apaixonei quando tinha 7 aninhos) não teve muito sucesso nos discos, mas tornou-se na "menina do La Féria" e estrela maior do teatro musical português. A Lúcia Moniz teve um grande êxito em inglês com o Nuno Bettencourt ("Try Again"), mas é mais conhecida pela sua carreira na representação. O José Cid é talvez o exemplo de carreira comercial mais longa e consistente, ainda assim não se livrando de períodos de ocaso e de um ou outro backlash causado pela sua língua afiada. Nenhum deles é um artista que possa ir ao palco principal de um grande festival em Portugal, muito menos ser headliner.

Da mesma forma, não é líquido que seja dado ao novo herói nacional o espaço no mainstream que a sua voz merece, dado o baixo teor em kizomba da sua música. Salvador sabe disto e o seu discurso de vitória levanta a questão de forma não muito subtil: "que esta seja uma vitória da música com conteúdo; música não é fogo-de-artifício, música é sentimento". Um "discurso polémico", dizem. Polémico, porque é verdade e dizer a verdade nestes dias do politicamente correcto é uma grande maçada, porque maça a malta da massa. Segunda vitória.

Ouvimos sempre que "as pessoas gostam do que gostam" e que se deve "dar ao público o que ele quer". O tanas. É tudo uma grande treta que inventaram para justificar o esgoto que nos querem escoar pela garganta a fundo. Normalmente a equação funciona ao contrário: o público gosta daquilo que lhes é dado e quanto mais lhes dão disso, mais eles querem. É como no livro do Astérix em que os romanos queriam vender menires e com a devida publicidade conseguiram convencer todas as famílias da Gália que ter um menir em casa é que era. As pessoas gostam de kizomba porque lhes é atirada kizomba aos baldes. Ponto.

Como em todas as áreas, é preciso educar para colher frutos. É preciso educar o hábito de procurar música (e arte no geral) e não se limitar a comer o que é posto no prato. Nem todos gostamos do mesmo e ainda bem, mas deve ser incutida a vontade da pesquisa e da descoberta. Se educarem os miúdos com caca, eles vão ouvir caca. E caca sai muito mais barato à malta da massa. Já aqui o escrevi antes: há demasiadas coisas medíocres na nossa vida, a música não pode ser uma delas. Não espero que Salvador revolucione o panorama musical português, mas pelo menos abriu o debate para que possamos começar a pensar nele. Terceira vitória.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Força, Salvador!

A história de um convertido ao Salvador Sobral

Cedo nos habituámos a falar da música portuguesa como uma velhinha que precisamos de ajudar a atravessar a estrada. "Temos que apoiar a música portuguesa", ouvimos amiúde. Pois temos, mas a verdade implacável é que ninguém vai apoiar coisa nenhuma a contragosto. A vontade, felizmente, não pode ser legislada e não é com os Homens da Luta que vamos unir o país à volta de uma canção. Por isso é que nisto, o Salvador Sobral (que, apesar das dificuldades motoras, não é nenhuma velhinha) já ganhou, ao conseguir aquilo que poucos se podem orgulhar em Portugal: unir um país no seu apoio, parte dele inicialmente céptico. Eu incluído.

Permitam-me a defesa. Nada tenho contra o Salvador. Ele tem uma voz cristalina e um estilo singular de rapaz dos Salesianos submetido a um Extreme Makeover numa Convenção do Bloco de Esquerda; apela a todos os quadrantes. Contra a canção da Luísa, muito menos. "Amar Pelos Dois" é inatacável, um clássico tema de festival que joga noutro campeonato relativamente à maioria da concorrência na Eurovisão. E depois há a forma frágil, ébria de emoção e plena de nuance com que Salvador interpreta o tema, que o põe vários furos acima dos interpretes "by the book" do festival. Adoro também o atrevimento de não cantar em inglês, ontem reforçado pelo decidido "muito obrigado" no fim do tema.

O meu senão com o Salvador era a forma negligente como, no meio do seu expressionismo físico, se afastava do microfone e nos impedia de ouvirmos o som da sua voz. Mas se há uma lição que podermos tirar do tema que levou Salvador à Eurovisão é que ele pode "Amar Pelos Dois" sem fazer planos do que virá depois. Nisto do amor temos que aceitar o outro pelo que ele/ela é e eu, devagarinho, aprendi a gostar do Salvador.

Por isso deixem-me, também eu, saltar para a carruagem de apoio ao Salvador. Temos todos os dados para ganhar, desde que os nossos emigrantes não estejam na rua a festejar o Tetra do Benfica e se esqueçam de votar. Só falta mesmo alguém amarrar o rapaz ao microfone e a taça é nossa (estou a brincar, Salvador; mas vê lá, não te afastes muito do micro, senão não podemos ouvir essa voz que dá arrepios). Força miúdo, traz para casa o caneco.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Os Simple Minds em formato acústico estão Alive, mas pouco Kicking

Os Simple Minds tocaram ontem em formato acústico para um Coliseu a 2/3 do gás. Valeu a pena?

A primeira vez que vi os Simple Minds no Coliseu de Lisboa, em Fevereiro de 2012, foi uma das experiências mais bizarras da minha vida. A banda escocesa tocou num Coliseu a rebentar pelas costuras perante um "Público M80" estupefacto, sem saber o que raio se passava à sua frente. Tudo porque ninguém se deu ao trabalho de olhar para o cartaz do concerto, onde os Simple Minds se comprometiam a tocar apenas temas dos seus 5 primeiros álbuns (na verdade são 6, se considerarmos "Sons And Fascination" e "Sister Feelings Call" entidades separadas, mas isto sou eu a ser obsessivo-compulsivo), discos lançados antes do sucesso comercial por que a banda é reconhecida até hoje. Ou seja, êxitos da M80? Temas do tempo em que Jim Kerr usava casacos compridos? Nem vê-los. "Que raio de música é esta? "Não conheço nada disto!" — dizia com ar enojado a senhora sentada ao meu lado, enquanto ajeitava a sua écharpe bordô cuidadosamente enrolada no pescoço. Com esta experiência traumática, a senhora da écharpe bordô aprendeu a olhar para os cartazes e ontem já não apareceu no Coliseu.

Desta vez o cartaz anunciava um concerto em formato acústico, um conceito popularizado há 20 anos por programas de televisão como o "MTV Unplugged", mas entretanto caído em desuso. Talvez por isso, o Público M80 não aderiu em massa (até porque desta vez o concerto foi promovido pela Renascença) e a sala apresentou-se apenas a 2/3 da capacidade. E eu até os compreendo. Eu próprio — fã de quase todas as iterações da banda — entrei no Coliseu apreensivo com a ideia de um concerto inteiramente acústico. Mas depois entrou Jim Kerr e em poucos minutos, o vocalista dos SM fez-me recordar por que ainda é um dos "chosen few" (para citar uma banda do seu tempo) em cima de um palco.

Ao entrar ao com do clássico "New Gold Dream (81/82/83/84)", Jim viu a sala meio vazia (1/3 vazia, vá) e sem mais, saltou para o público e deu a volta à sala, onde distribuiu bacalhaus, abraços e selfies. O vocalista mostrou-se muito bem disposto ao longo da noite, encaixando uma piada entre temas sempre que possível, seja a imitar o sotaque de Sean Connery, a reflectir sobre o "casamento" de 40 anos com o guitarrista Charlie Burchill, ou a recordar a primeira vez que a banda veio a Portugal, quando em 1980 abriram para "o seu herói" Peter Gabriel no Dramático de "Cascai".

Claro que a tepidez do formato acústico começaria a dar de si e logo no quarto tema da setlist, quando Jim tentou puxar pelo público em "Mandela Day", nada lhe foi devolvido. Foi uma luta que a banda travou durante toda a noite. A favor dos Simple Minds estiveram as canções, que de tão universais (a maioria), funcionam em qualquer roupagem. Porque não tenham dúvidas, os SM são uma banda muito maior que o "legado M80" resumido a dois temas. O arco discográfico da banda escocesa na década entre "Life In A Day" (1979) a "Street Fighting Years" (1989) é tão rico e diverso, que põe no chinelo muitas bandas que saíram dos anos 80 com maior reputação. Mas divago.

Desde então, os Simple Minds aperfeiçoaram ao longo dos anos uma fórmula infalível para os seus concertos: começar com o estrondo de um clássico como "Waterfront" ou "New Gold Dream" (que também abriu ontem na nova roupagem); depois elencar uma sequência do álbum novo; seguir com mais uma marretada de 3 ou 4 clássicos e só depois, com a audiência bem quente, dar espaço a um segmento com arranjos novos, ou um set acústico. Nesta digressão, os SM optaram por fazer um único e longo set acústico e eu não posso deixar de me interrogar porque é que se submeteram a um desafio deste calibre. Se um concerto dos Simple Minds, com os seus altos e baixos, é (ou pode ser) uma experiência tão catártica e explosiva, porquê limitá-lo a algo tão insosso?

A um determinado ponto no concerto, Jim Kerr sentiu-se na obrigação de explicar ao público que a ideia do acústico nasceu há 20 anos (quando era moda e todas as bandas o faziam), mas que nunca avançou porque a banda achava que ia ser "boring". Acabariam por reconsiderar no ano passado devido a uma oferta muito generosa "em dinheiro e chocolate" de um promotor suíço. Se calhar a banda estava certa.

Em suma, valeu a pena porque foram os Simple Minds e eles têm um lote de canções infalíveis (ainda deu para o Público M80 se levantar em massa lá para o fim com os inevitáveis "Don't You (Forget About Me)" e "Alive And Kicking"), mas poderia ter sido muito melhor. O meu único receio depois deste meio (ou 1/3) de fiasco, é que a banda de Jim Kerr não volte tão depressa a Lisboa.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Roger Waters está de volta e tem coisas para dizer

Roger Waters está de volta. Regozijemos.


Abram as garrafas de champanhe. Vinte e cinco anos depois do último álbum, o auto-proclamado "génio criativo dos Pink Floyd" está de volta com música nova. Porquê agora? Porque o tio Roger está furibundo com o mundo e como sempre que isso acontece, tem coisas para dizer. Muitas coisas. Como não lhe dão a devida atenção nas entrevistas, resolveu então dizer tudo da melhor forma que sabe: com música no meio do discurso (e não o contrário).

O caminho que levou Roger até aqui, ao qual eu gosto de chamar de "purificação de Waters" (deixem assentar esse trocadilho), começou no seu crescente domínio no espaço dos Pink Floyd, cristalizado nos auto-biográficos "The Wall" e "The Final Cut" e continuou na sua discografia a solo, onde a importância dada à música foi progressivamente substituída pela atenção à palavra. Sem o input de David Gilmour para ajustar uma melodia aos seus discursos, a música foi chutada para pano de fundo, cada vez mais elusiva, até ao seu aparente esgotamento em 1992. Desde aí, não se ouviu mais música de Roger (não estou a contar com o auto-indulgente "Ça Ira", uma ópera que só a ele interessava).

Mas Roger está mais velho e mais sábio e já percebeu que precisa de um input externo para musicar as suas intervenções. Por isso recorreu a Nigel Godrich - produtor dos Radiohead -, que o manteve focado a produzir um álbum que tivesse uma estrutura e sonoridade "à Waters". A primeira conquista de Nigel foi fazer Roger abandonar a ideia de uma radio-novela sobre um avô e a sua neta que investigavam por que tantas crianças morriam no Médio Oriente. Se acham este conceito insípido, lembrem-se que o primeiro álbum a solo de Roger ("The Pros And Cons Of Hitchicking") narra, em tempo real, um sonho de um homem entre as 04:30 e as 05:12; e que o segundo ("Radio K.A.O.S.") conta a história de um miúdo esquizofrénico que é possuído por ondas de rádio e ameaça provocar um holocausto nuclear. Louvado seja Nigel, portanto.

Eu disse música nova? Mais ou menos. A primeira amostra do novo álbum - "Is This The Life We Really Want?" - é o furioso "Smell The Roses", um tema que é basicamente um rip-off directo de "Have A Cigar", com algumas texturas de "Dogs" e de "Pigs (Three Different Ones)" lá pelo meio. É uma reciclagem do seu próprio material antigo com nova roupagem, mas e depois? É Roger Waters puro e duro. Nesta fase da sua vida, já não se preocupa em se reinventar, só quer expressar os seus pensamentos e ideais. De forma musicalmente derivativa, sim, mas os originais são dele e o conceito de "auto-plágio" não existe. Se eu tirar dinheiro da minha carteira, ninguém dirá que me estou a roubar.

"Is This The Life We Really Want?" foi gravado ao longo dos últimos 7 anos e será editado dia 2 de junho com o seguinte alinhamento:

1. "When We Were Young" (1:38)
2. "Déjà Vu" (4:27)
3. "The Last Refugee" (4:12)
4. "Picture That" (6:47)
5. "Broken Bones" (4:57)
6. "Is This The Life We Really Want?" (5:55)
7. "Bird In A Gale" (5:31)
8. "The Most Beautiful Girl" (6:09)
9. "Smell The Roses" (5:15)
10. "Wait For Her" (4:56)
11. "Oceans Apart" (1:07)
12. "Part Of Me Died" (3:12)

Algumas das faixas que já tinham sido confirmadas por Roger - "Crystal Clear Brooks", "Safe and Sound" e "Lay Down Jerusalem (If I Had Been God)" -, afinal não aparecem no álbum. Obra de Nigel, aposto. De facto, um tema que se chama "Lay Down Jerusalem (If I Had Been God)" não soa a nada que possa ser minimamente aprazível, para além de reforçar a fama egomaníaca de Roger. Esperemos que o novo álbum esteja (pelo menos) à altura deste agressivo "Smell The Roses". E não, não me importo com reciclagens.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

O lado negro do Record Store Day

O Record Store Day faz 10 anos e já está cheio de vícios


Vem aí mais um Record Store Day. Para quem não conhece, o RSD é um evento anual que começou em 2007 nos EUA, entretanto difundido por todo o mundo e que acontece num Sábado de Abril com o objectivo de celebrar a cultura das lojas de discos independentes. Para tal, as editoras, em comunhão com os artistas, lançam uma série de discos especificamente para esta iniciativa. Estas prensagens são produzidas em quantidades limitadas, muitas delas exclusivas a determinados países, para serem vendidos nas pequenas lojas de rua ou, como nós chamamos, no comércio tradicional.

Antes de voltar ao RSD e porque esta crónica já vai demasiado solenizada e tudo é que demasiado polido me faz comichão, tenho que assumir que sou o maior fã de lojas de discos. Uma das minhas actividades preferidas, logo a seguir ao sexo e a festejar um golo do Benfica, é ir a lojas de discos. Ficar lá horas, mergulhar a fundo nas caixas e prateleiras de discos. Ir à procura de um álbum dos Tears For Fears e sair de lá com cinco discos diferentes do que queria. Quando viajo para o estrangeiro, a minha primeira prioridade não é procurar museus, restaurantes, ou miradouros, é ir a lojas de discos. Um dos meus sonhos é abrir uma loja de discos e se me saísse o Euromilhões (se eu jogasse), abria uma. Acho que já perceberam a ideia.

No papel, o Record Store Day parece o paraíso de qualquer aficionado do vinil como eu. O problema é que, chegado ao seu décimo aniversário, o RSD já não é nada do que se propôs inicialmente. Na realidade, parece-se mais com um pesadelo de frustração. A lista de lançamentos exclusivos do RSD é apetitosa, não há dúvida. Mas como pôr a mão num destes discos extremamente limitados? Em Portugal, é virtualmente impossível agarrar uma cópia dos discos mais procurados. Mesmo nos EUA, para onde é escoada a maior fatia do stock, as queixas de como é impossível encontrar os discos desejados são mais frequentes que o feedback de quem realmente os encontra. No fim, fica a frustração para a maior parte dos fãs, de mãos a abanar com notas, numa indústria que se queixa de falta de clientes. Estranho, não é?

E quando por algum milagre se encontra mesmo o disco, o melhor é proceder com cuidado a olhar para o preço porque o número pode provocar náuseas. As editoras ainda não chegaram à conclusão que os preços proibitivos pouco promovem a música e mais promovem aquela noção de que as editoras exploram os fãs e que só se podem queixar de si próprias pelo advento do download e do streaming.

Para onde vão estes discos, então? Vão para as mãos dos revendedores, "compradores profissionais" de raridades, que não querem os discos para usufruto próprio da música, mas sim para cobrar balúrdios aos fãs no eBay e no Discogs. São eles quem mais beneficia da raridade das prensagens e quem mais lucra com o Record Store Day, subvertendo todo o espírito da iniciativa.

A melhor chance de se apanhar um destes discos é mesmo a Amazon ou a Fnac, a quem são atribuídos stocks significativos dos lançamentos exclusivos do Record Store Day. Mas espera aí. Amazon e Fnac, lojas de discos independentes? Também não me parece que isto seja a melhor forma de hastear a bandeira do comércio tradicional.

Na prática, as lojas independentes beneficiam dos clientes que a marca do Record Store Day - sempre a crescer - atrai durante este dia. E se esses clientes não encontrarem o novo e exclusivo álbum ao vivo do David Bowie, "Cracked Actor" (que devia ter sido incluído na última e muito cara caixa "Who Can I Be Now?", mas esse é só mais um exemplo de como as editoras sodomizam a carteira dos fãs), então compram outra coisa qualquer, só para justificarem a viagem à loja. Será este muito provavelmente o meu caso. A propósito, não há aí nenhum "Cracked Actor" numa loja independente para este cronista? Prometo que será para usufruto próprio.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Easter eggs: os originais escondidos das músicas que todos conhecemos

Toda a gente sabe (ou devia saber) que "Knockin' On Heaven's Door" é um original de Bob Dylan, celebrizado décadas mais tarde pelos Guns N' Roses; mas quantos sabem que o hino Punk "I Fought The Law" não é um original dos The Clash?
Já nos aconteceu a todos. Apanhamos uma música avulsa numa rádio mais obscura e soa-nos familiar, mas não é bem a versão que conhecemos. "Olha, os The Who têm uma versão do "Behind Blue Eyes" dos Limp Bizkit!", pensamos incautos (não gozem, o Nu Metal estava na berra quando andava no Liceu e não havia smartphones na altura). Mas espera aí, então os The Who estão fazer um cover dos Limp Bizkit?! Depois googlamos o título (na altura só dava para fazer isso no PC de casa) e percebemos que afinal a canção já tem barbas.

O mesmo já me tinha acontecido uns anos antes quando dei conta que o meu tema preferido "dos" Nirvana era, afinal, do David Bowie. E como este caso, há inúmeros. Por exemplo, só há poucos meses percebi que "Got My Mind Set On You" não era um original de George Harrison (a primeira versão data de 1962) e, podem crer, eu sou um freak dos Beatles; daqueles que não hesitam em apontar o dedo a quem se atreve a dizer que o "Twist And Shout" "é dos Beatles".

Hoje é fácil discernir alguns dos casos mais óbvios como o "Knockin' On Heaven's Door", ou até o "The Man Who Sold The World". Com os smartphones, é tudo imediato e até podemos fazer de conta que "Ah, já sabia!". Been there. Mas até nesta era é possível ser surpreendido com a origem de alguns dos temas que conhecemos desde sempre. Não acreditam? Atentem na playlist em baixo, apropriadamente intitulada de "Easter Eggs" (lamento, foi o melhor que me lembrei de um artigo alusivo à Páscoa), com 50 originais de temas que tiveram sucesso mais tarde e/ou com outros artistas.



Pará lá dos casos mais óbvios desta lista, há também aqueles que nos podem deixar em choque. Como o de "I Fought The Law", um hino Punk dos The Clash que, afinal, não é deles. O tema foi gravado originalmente em 1960 pelos The Crickets, 17 anos antes (!!!) da versão olímpica dos The Clash. Antes dos Beatles, dos Stooges, ou de qualquer pessoa ter ouvido falar em Punk.
Também há "I Will Always Love You", celebrizado em todo o mundo pela versão tão-overplayed-que-dói que Whitney Houston gravou para a banda sonora do "The Bodyguard" em 1992, mas que já tinha sido um êxito Country nos Estados Unidos para a Dolly Parton, em 1973.
E que dizer de "Hound Dog" e "Blue Suede Shoes", dois ex-líbris de Elvis Presley que foram gravados em primeiro lugar por outros artistas? A versão original de "Hound Dog", composta pela lendária dupla Jerry Leiber e Mike Stoller, foi interpretada por Big Mama Thornton e acreditem, a mulher tem um vozeirão que nada fica atrás de Elvis.

Depois há os casos em que sabemos que estamos a ouvir um cover, mas não acertamos com o original. Exemplos? Muitos. Quando a Britney Spears apareceu a cantar o "I Love Rock N' Roll", quantos se apressaram a apontar a versão "original" de Joan Jett? Espertalhões. O verdadeiro original é dos The Arrows e data de 1975.
Também "Without You", mega-hit de Mariah Carey no início dos anos 90, é recorrentemente apontado como um original de Harry Nilsson (1971), cuja versão aparecia com frequência no Oceano Pacífico da RFM, na altura que esta rádio era audível. Na verdade, o tema é um original dos Badfinger e é daqueles que desafiam a audição, treinada por anos de "I can't liiiiiiiiiiive", que aqui é cortado para um único assertivo segundo.

Há ainda os casos das versões que foram gravadas e anos mais tarde regravadas pelo próprio artista numa versão diferente que, essa sim, teve sucesso. Por exemplo, sabiam que "Born In The U.S.A." de Bruce Springsteen começou como um tema sombrio nas sessões de "Nebraska"?

A lista dos 50 temas tem muitas surpresas, umas muito boas, outras nem por isso. Mas se os originais fossem bons, eram eles os conhecidos, não é? Como eu gosto de vos fazer a papinha toda, se quiserem ouvir as versões mais conhecidas, têm também uma playlist à maneira para o fazer. Toda ordenada da mesma maneira. Que maravilha.



segunda-feira, 3 de abril de 2017

As melhores de sempre do mês de Março

Março foi estranho. Mês de altos e baixos, começou com o entusiasmo da antecipação da Primavera deste ano, logo interrompido pela depressão do Inverno antecipado do ano que vem. Not cool. "Où Est le Soleil?", como perguntava o Paul McCartney no B-Side de "Flowers In The Dirt", disco de 1989 gravado com Elvis Costello que foi este mês lançado em formato Deluxe (e aí está a minha referência mandatória aos Beatles, logo no subtítulo)
Nesta fina linha entre o entusiasmo e a depressão das últimas semanas, valeu a enxurrada de música que nos chegou, com álbuns novos dos Real Estate, Sleaford Mods, Father John Misty, The Jesus And Mary Chain, Jarvis Cocker (dos Pulp) e muito mais pelo meio. Senhoras e senhores, bem-vindos a uma viagem pela já clássica playlist mensal da NiT, com as melhores de sempre... do mês passado.

Como o sol está aí outra vez e eu quero música para ouvir de janelas abertas e vento na cara, começamos a playlist de Março com as guitarras estridentes de "Wake Up" dos Circa Waves, banda de Liverpool que vem ganhando visibilidade com o seu segundo álbum "Different Creatures". Não sei ao certo ao que vêm estes rapazes, mas que vêm com toda a força, lá isso vêm.

Seguimos de janela aberta com os Temples (aqui não há Queen, Rafa, desculpa!), também eles no segundo álbum "Volcano". Estes, aposto, já dispensam apresentação. Os Temples continuam, e bem, na crista da nova onda de Psychedelia onde os Tame Impala são McNamaras e os Pond (que também têm tema novo) são um gajo qualquer bom mas nem de perto tão bom como o McNamara, mas cujo nome eu não sei porque não percebo puto de surf e já levei esta metáfora longe demais para a minha bagagem no assunto.

The New Pornographers já nos tinham brindado com uma grande malha em Janeiro — "White Ticket Attractions" — e continuaram este mês a mostrar o seu "Whiteout Conditions" que está quase a chegar, desta vez com o tema-título. Não consigo decidir qual a melhor amostra do novo álbum, mas garanto-vos: podem continuar de janela aberta a beber esse sol. E por falar em beber sol, vamos dar um passeio à praia com os já veteranos The Shins e este caloroso "Name For You", retirado do primeiro álbum da banda em 5 anos — "Heartworms". E já chega de sol, avancemos para algo mais obscuro.

É possível que nunca tenham ouvido falar nos Mount Eerie. Eu também não, até recentemente. Um pouco de contexto então: os Mount Eerie são o projecto musical do músico e produtor Phil Elverum, que contou com diversos colaboradores ao longo dos anos. Entre eles, a sua mulher Geneviève Castrée, que participou em quatro álbuns da banda do marido. Em Julho do ano passado, Geneviève morreu com um cancro no pâncreas, um ano depois do diagnóstico. Menos de um ano volvido, chega-nos um novo álbum dos Mount Eerie com o relato cronológico do processo de luto de Phil Elverum. E é brutal. Mas não é aquele brutal de quando saímos do cinema depois de uma reposição do "Blade Runner" e dizemos "ei, foi brutal!". Não. Isto é brutal no sentido bruto da palavra. É heartbreaking: "I don't want to learn anything from this, I love you".

A surpresa do mês esteve a cargo da banda extraconjugal de Damon Albarn — os Gorillaz — que anunciaram inesperadamente um álbum novo a abarrotar de convidados e desde logo mostraram três faixas novas. Uma delas é "We Got The Power" com Jehnny Beth das Savages e um convidado muito especial: Noel Gallagher. Esse mesmo. Enquanto esperávamos por novidades do mano mais novo (que deve estar a rebentar com o seu primeiro single a solo), Noel decidiu ao cortar aos bocados o que restava da Britpop, fazendo as pazes com o seu ex-arqui-inimigo. Mas pior que o rol de negligências de Noel (primeira parte dos U2, Noel? A sério?), pior que o esdrúxulo álbum novo do Jarvis Cocker dos Pulp (deve ser o Brexit que anda a deixar tudo maluco na ilha), é saber que a Britpop já merece honras de artigos na Pitchfork. Agora sim, a Britpop morreu. Viva a Britpop! I guess.

E quem disse que o Noel Gallagher não é um artista influente? Veja-se Father John Misty, que continua a promover o seu novo álbum à imagem de Noel, isto é, a insultar o Ed Sheeran: "I’m not doing what Ed Sheeran does. It’s not this cynical approach: ‘I know what these idiots will like.’". Tão bom. Insultos à parte, "Pure Comedy" era o lançamento mais esperado do mês e Josh Tillman não desiludiu. Uma das malhas é "Total Entertainment Forever", faixa onde saxofones canalizam a irresistível Pop americana dos anos 80 e onde desejos sexuais por Taylor Swift voltam a ser notícia.

Igualmente esperado era o novo dos Real Estate. "In Mind" tem a matriz de um álbum standard da banda de New Jersey, o que significa que não inventa a roda, mas também não envergonha. Os Real Estate seguem como aquela camisola velhinha que não dá muito estilo, mas aquece sempre. E se os Real Estate não foram especialmente inovativos, que dizer dos Sleaford Mods? Mais um ano, mais um álbum, a fazer jus à média insana de um álbum por ano que mantêm desde 2011. "English Tapas" é novo, mas de novo tem muito pouco. O normal, portanto. Não esperamos propriamente ópera do duo britânico. É apenas o novo capítulo de uma carreira tão "samey" que se pode caracterizar como um único longo e particionado álbum.

Tudo isto e muito mais na clássica Playlist NiT de Março, só com música lançada no último mês.