segunda-feira, 20 de março de 2017

O equívoco de Taylor Swift

O mundo adora a Taylor Swift, mas não precisa do Swifties.
Gosto da Taylor Swift. Não só pela evidência de que ela é, digamos, extremamente boa; mas porque para além disso, é também capaz de compor música Pop açucarada que cai extremamente bem no goto. Não tenho medo das palavras: "Shake It Off" é a melhor canção Pop desde os anos 90. A afirmação é discutível, admito, mas não andará longe da percepção global sobre um tema que materializa tudo aquilo que uma canção Pop deve ser. Mais: o álbum "1989" é um baú de pérolas Pop — embora nem sempre com arranjos de bom gosto, mas suponho que esse seja o preço a pagar pelo largo espectro de público que pretendia atingir — que a reinterpretação de Ryan Adams expôs a tão belo nu.



Mas a relevância de Taylor Swift não esbarra na música. Taylor é uma trendsetter. Normalmente quando a menina fala, o mundo escuta. Passando ao lado da polémica mal amanhada (e aparentemente forjada) com Kanye, onde ninguém ficou bem na fotografia, Taylor já mostrou várias vezes ser dona de uma personalidade forte, sem medo de arriscar, seguir sozinha e fazer frente aos dogmas da indústria musical. Ainda que nem sempre da melhor maneira. Caso em questão: a interminável batalha com o Spotify, que esta semana conheceu novos desenvolvimentos segundo o TMZ (se não conhecem, pensem num Correio da Manhã americano e rico).

Diz o TMZ que Taylor Swift está a planear uma plataforma própria com conteúdos audio exclusivos e non-downloadable (em streaming, portanto) — alegadamente baptizada com o nome de Swifties — para colmatar a sua ausência desde 2014 do nosso tão bem conhecido e amado Spotify (bem amado, menos quando metem anúncios de David Guetta no meio de um álbum dos Joy Division; os patifes sabem mesmo como convencer um gajo a assinar o Premium — pela tortura).

Taylor Swift tem a sua quota de razão nesta batalha. O Spotify é hoje uma ferramenta tão generalizada como o Facebook (quase, vá) e tem que rever a forma como valoriza o seu produto (o Lossless nunca mais vem?) e como compensa os artistas que lhes disponibilizam o seu catálogo — que é como quem diz, o seu trabalho — de mão beijada. Se bandas como os The Beatles (ou a própria Taylor Swift) podem alavancar o acordo que quiserem, já as bandas em ascensão são obrigadas a aceitar as migalhas que lhes atiram para os pés, cada vez mais fracos incentivos ao sonho do Rock N' Roll.

Percebo a intenção de Taylor Swift. Na prática, o Swifties pode ser um cruzamento entre a banca de merchandising da cantora, o Spotify e o Jornal do Benfica. O utilizador descarrega a aplicação e por uma determinada mensalidade tem acesso exclusivo à música de Taylor, enquanto ao mesmo tempo pode comprar as T-Shirts da nova colecção de merch e receber as últimas novidades da cantora (devidamente saneadas pela própria). Com isto, Taylor acha que será devidamente paga pela sua música, enquanto ao mesmo tempo isola as suas massas e as controla à sua maneira.

Poderá ser o Swifties um olhar para o futuro? Em vez de ter termos no telemóvel uma aplicação do Spotify, uma da Apple Music e outra do Tidal (e eu já acho que são demais), poderemos no futuro ter aplicações "The Beatles", "Taylor Swift" e "Tame Impala" e só nessa plataforma nos ser permitido ouvir a música desse artista? Não me parece. A tendência tem que ser para simplificar e não complicar mais. Para além de que não acredito no isolacionismo inerente a este tipo de acção, que impede a convivência da sua música em playlists com os seus pares.

Taylor Swift tem o dom de saber o que o público quer ouvir e mais importante que isso, o que o mundo quer dela. Por isso se mantém naquela fina linha entre a menina inocente e vulnerável que pinta nas suas músicas e a mulher firme e sabida que faz frente aos gigantes. Mas aqui não está a ver a pintura toda. O mundo não precisa do Swifties, nem de outra estratégia isolacionista que possa inventar a seguir. Taylor é a última rainha de uma linhagem que vem de Britney Spears e Madonna e deve preservar esse estatuto com aquilo que realmente interessa ao mundo: música e vídeos com pouca roupa.

domingo, 5 de março de 2017

Quando os U2 encontraram aquilo que procuravam — 30 anos de "The Joshua Tree"

"The Joshua Tree" faz 30 anos. Tempo de relembrar o álbum quintessencial dos U2.

Vivem-se tempos estranhos no mundo dos U2. Longe parecem ir os anos da aclamação global e das multidões a dormir ao relento numa BP para agarrar um bilhete. Da última vez que deram à costa, os U2 pareceram aquela tia que leva à festa de natal um vestido inusitadamente arrojado para a sua idade — quiseram ser punks ao colocarem o álbum "Songs Of Innocence" no iTunes de todos os utilizadores do mundo, mas acabaram queimados com a jogada. E para piorar tudo, ainda caíram no ridículo de pedir desculpa. Menos punk que isto era impossível. Mais noção precisava-se, Bono.

Talvez em resposta ao (despropositado) backlash global do caso iTunes, os U2 começaram finalmente a agir como uma banda da sua idade. Decidiram arrumar o álbum "Songs Of Experience" na gaveta (tal como tinham feito com "Songs Of Ascent", o "Zooropa" de "No Line On The Horizon") em detrimento de uma digressão nostálgica para comemorar os 30 anos de "The Joshua Tree". O aniversário do álbum é precisamente hoje, um dia em que, mais que nunca, é uncool falar nos U2. Mas como ignorar um álbum que mudou a vida de tanta gente? A minha mudou. Por isso fuck the uncool, vamos falar em "The Joshua Tree".

Há vários prismas por onde olhar para "The Joshua Tree", sendo o mais óbvio o seu sucesso: vendeu 25 milhões de cópias; é o álbum mais vendido dos U2 e um dos mais vendidos de sempre; ganhou o Grammy de Álbum do Ano e é presença habitual nas listas dos melhores álbuns para as principais publicações. Não admira por isso que este tenha sido o álbum que consagrou os U2 como 'a maior banda do planeta', um título que os próprios inventaram para si e que mantiveram durante mais alguns anos, mesmo quando (e principalmente quando) decidiram desmanchar tudo para refazer de novo (mas já estou a andar rápido de mais).

"The Joshua Tree" é o produto de maturação de uma década, foi a cristalização de um caminho que os U2 percorreram durante 10 anos e onde em breve se veriam encurralados (lá estou eu a andar depressa demais). É o quinto álbum da banda e contém todos os elementos com que foi polvilhando a sua discografia ao longo dos anos 80. Mal deixamos cair a agulha, somos submergidos pela solene introdução ambiente de "Where The Streets Have No Name", uma marca-de-água de Brian Eno, que estende a passadeira para a entrada da marca-de-água de The Edge (e dos U2) — "o riff" que ecoa ao infinito. Já tínhamos ouvido variações d'"o riff" em temas tão longínquos como "The Electric Co.", ou mais proximamente em "Pride (In The Name Of Love)"; mas é aqui que a imagem de marca da sonoridade dos U2 se cristaliza.

A introdução solene dá o mote para o traje polido e grandioso que os U2 pretendem dar ao álbum. Tudo em "The Joshua Tree" soa grande, grandioso, grandiloquente; é o gospel de "I Still Haven't Found What I'm Looking For", são os prantos de "With Or Without You", o sermão de "Mothers Of The Disappeared", a fúria de "Exit", a pregação (e a fúria) de "Bullet The Blue Sky". Aliás, os U2 construíram um séquito ao longo de toda a década de 80 (lembrem-se dos cartazes que enchiam o Wembley no Live Aid, dois anos antes) e passam "The Joshua Tree" a pregar às suas hostes. Bono aparece aqui como o pregador, completando assim a transformação do punk adolescente que apareceu em "Boy" 10 anos antes. A esponteinade de "Boy" foi aniquilada em favor de uma abordagem mais metódica e formulaica mas, e este é um grande "mas", com melhores canções. 30 anos volvidos, estas canções continuam um deleite para os ouvidos.

É a força das canções, o grande suporte de "The Joshua Tree". Elas constroem aquela que é, acima de tudo, uma carta de amor ao imaginário americano. É sobre isso que Bono prega. Note-se que tal não significa necessariamente uma carta de amor à América de então e muito menos à política de Reagan, como é bem notório em "Bullet The Blue Sky". É mais uma carta de amor aos desertos ("I'll show you a place high on a desert plain"), às cidades ("I have scaled these city walls, only to be with you") e ao sonho americano ("She is liberty and she comes to rescue me, hope, faith, her vanity"). E eis que chegámos à palavra-chave que melhor define o álbum: esperança. Esperança é o sentimento que conduz todo um álbum intenso em imagens (vide as chamas de "Bullet The Blue Sky") e intenso em sentimentos de quem vive nessas imagens. Numa altura que o mundo vive uma relação de amor-ódio com a América, o álbum ganha "The Joshua Tree" uma renovada relevância actual. 

Mas mais que a política, que pouco ou nada interessa para quem ouve música, é a forma como as canções de "The Joshua Tree" ainda ressoam no público o que mantém o álbum relevante. Não importa se Bono apoia o Pence ou critica o Trump, porque no fim do dia o que interessa é aquela noite em que dançámos agarradinhos ao som de "With Or Without You"; ou quando gritámos com um amigo a plenos pulmões, abraçados e já com os copos, que "as ruas não têm nome" enquanto fazíamos juras de amizade eterna; ou quando sozinhos ouvimos o Lado 2, de canções desconhecidas e "só nossas" e de repente deixámos de estar sozinhos. Momentos que marcam, memórias que ficam e que eternizam "The Joshua Tree".

O grande paradoxo de "The Joshua Tree" encerra no título de um dos seus três hits: "I Still Haven't Found What I'm Looking For". Porquê? Porque como diria o José Hermano Saraiva, foi aqui, foi exactamente aqui que os U2 encontraram aquilo que procuraram toda a sua carreira. E foi daqui que passaram os 10 anos seguintes a tentar fugir com "Achtung Baby", "Zooropa", "Pop" e "Passengers", depois de esgotarem a fórmula em "Rattle And Hum"; e foi aqui que tentaram desesperadamente voltar depois disso, com os mais melódicos "All That You Can't Leave Behind" e "How To Dismantle An Atomic Bomb". Por fim, este ano os U2 voltam sem medos às suas origens e voltam a levar o álbum quintessencial da sua discografia à estrada numa digressão que, para mal de nós, não passará por Portugal. Quem não tem com saudades de uma noite ao relento na BP?


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Os melhores de sempre... do mês de Fevereiro (de 2017)

Declaro Fevereiro como o mês da segunda vinda do Shoegaze
Um dia George Michael disse ao manager de Prince (na altura também o seu) que "o problema do Prince é que ele não se sabe editar". Tendo em conta que a minha lista do mês de Janeiro teve 15 temas e em Fevereiro, com 3 dias a menos, já levo 20 canções, temo padecer do mesmo problema que Prince. Mais música para vocês ouvirem.

Arrancamos a playlist de Fevereiro com um veterano que nos traz a grande malha do mês. Falo de Mark Lanegan (Queens Of The Stone Age, Mad Season e uma porradona de bandas e colaborações de nomeada) e "Nocturne", que marca o regresso do rocker de Seattle aos discos a solo. Curiosidade: a minha primeira review na NiT foi do álbum anterior de Lanegan — "Phantom Radio" —, em 2014. O tempo não pára e aqui estamos à espera do volume seguinte.

Seguimos com mais um comeback — este mais longínquo — dos Echobelly, que se preparam para lançar "Anarchy And Alchemy", o primeiro álbum desde 2004. Será interessante perceber se o resto do novo material da banda que conheceu sucesso nos mid-90s faz jus à primeira amostra. "Alchemy is your gift to me". Malha.

Por falar em regressos, 2017 tem sido o ano da "second coming" do Shoegaze. Depois da desintegração dos Oasis e respectiva réplica Beady Eye, Andy Bell ficou livre para se juntar à sua banda de sempre e maior pioneira do Shoegaze: os Ride. Eles estão de volta aos estúdios e os primeiros resultados já chegaram, sendo que a avaliar por "Home Is A Feeling", não há que enganar: temos assunto. Melhor ainda é o regresso dos Slowdive com este astronómico "Star Roving", uma das grande malhas do ano. E sim, eu sei que é de Janeiro, mas não apareceu na playlist do mês passado e não os podia deixar passar em claro.
Fechamos a sequência Shoegazista com os bem mais recentes Takashi Miyaki, um trio misterioso de Los Angeles que em tempos foi chamado de "Jesus And Mary Chain femininos" e tem um novo tema — "Girls On TV" — cujo vídeo foi realizado por James Franco (esse mesmo). A ter em atenção.
E por falar em The Jesus And Mary Chain, eles também têm tema novo — "Always Sad" — do novo álbum "Damage And Joy" que chega em Março, o primeiro desde 1998. Parece mentira, mas já lá vão quase 20 anos desde o último álbum do grupos escocês.

A próxima secção da playlist de Fevereiro leva-nos a terrenos menos sombrios. Primeiro com os Spoon, que continuam a mostrar o novo álbum aos poucos e aqui nos trazem uma pitada de Funk marroquino. Soa estranho? Pois soa. Mas em bom.
Por terrenos mais familiares viajam os Future Islands. "Ran" é o primeiro aperitivo do sucessor do superlativo "Singles" e é uma continuação directa, que é o mesmo que dizer que soa exactamente ao mesmo que ouvimos no álbum anterior.
Também a mostrar o seu novo álbum aos poucos está Father John Misty, que deixou mais uma do seu novo "Pure Comedy". Desta vez é a balada ao piano "Ballad Of The Dying Man", a melhor que já ouvi do novo álbum.

O álbum do mês é "Prisoner" de Ryan Adams, de onde foi retirado este superlativo "Breakdown". Este têm mesmo que ouvir.
Também damos um salto sanjuniperiano aos anos 80, com novas dos The Pretenders (com voz de Neil Tennant dos Pet Shop Boys!) e dos Depeche Mode (a darem na política).
Como de costume, fechamos a playlist com um som ambiente, desta feita a cargo dos Minor Victories. Ouçam tudo aqui:



quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Ryan Adams - "Prisoner" (Review)

Mesmo a tempo da ressaca do Dia dos Namorados, o músico norte-americano lança um álbum sobre corações partidos, o primeiro desde "1989" - disco de covers de Taylor Swift - lançado em 2015. E é de audição obrigatória.

Quando fiz uma roadtrip costa-a-costa pelos EUA em 2011, planeei passagens por todos os locais-chave: NY, Chicago, Las Vegas, LA... Todos os clássicos. De todo o trajecto, do que é que eu gostei mais? Dos desvios. A minha viagem não vos interessa para nada, mas serve para explicar a discografia recente de Ryan Adams.

Ryan Adams deixou-nos a coçar a cabeça quando decidiu, também ele, fazer um desvio à sua carreira em 2015 e lançar um álbum de covers de Taylor Swift. O que quereria ele com aquilo? Ridicularizar Swift? Provar que consegue transformar água em vinho? Não e não. A versão de "1989" foi um triunfo tanto para ele como para Taylor Swift e quanto muito, foi o maior elogio que Taylor poderia receber ao seu talento como compositora. Mas e Ryan, o que sobrou para ele no meio disto tudo? Um desvio tão fora da estrada como "1989" teria que obrigar o seu GPS a recalcular o trajecto da sua discografia.

De certa forma, "Prisoner" é apenas uma continuação do caminho trilhado por Ryan Adams na sua versão de "1989". Faz todo o sentido, ou não tivesse o primeiro sido escrito enquanto o segundo era gravado. Confusos? Passo a explicar. As canções de "Prisoner" foram escritas na ressaca do divórcio de Ryan Adams com a actriz Mandy Moore. Na altura, em vez de se enclausurar para escrever e gravar esses temas, Ryan preferiu lidar com a separação através da desconstrução de "1989" que, tal como toda a música que Ryan escrevia na época, também é sobre amor perdido e corações partidos. Temas como "Breakdown" e "Haunted House" poderiam perfeitamente figurar no álbum de covers. Mas nem só de Taylor Swift vive "Prisoner", ou não fosse Ryan Adams o homem que tão depressa faz covers de "Wonderwall" como de "Shake It Off".

Nas faixas que conhecíamos de "Prisoner", Ryan Adams já havia canalizado influências de Hair Metal e AOR em "Do You Still Love Me?", da vertente mais Folk da Pop americana em "To Be Without You" e até de early Eagles em "Doomsday". No que faltava ouvir do álbum, Ryan alastra as suas influências a todo o espectro do Rock radiofónico americano dos anos 80. Os casos são inúmeros e as semelhanças são demasiado óbvias para passarem despercebidas.

"Shiver and Shake", por exemplo, decalca de tal forma a atmosfera de "I'm On Fire" de Bruce Springsteen, que o meu ouvido (tão treinado a Bruce) passa os 3 minutos à espera da entrada do Boss. Não entra Bruce, mas chega mais à frente, em "Tightrope", um solo de saxofone tenor tirado a papel químico do "seu" Clarence Clemons. É esta uma das valências de Ryan Adams: em vez de ostensivamente plagiar os seus heróis, Ryan emula o ambiente das suas músicas preferidas e cria um original que soa exactamente igual à sua referência.

O caso mais curioso aparece em "Anything I Say To You Now", mais especificamente naqueles acordes em eco no início do tema, que são uma imagem de marca de um artista com o nome muito parecido com Ryan Adams. Avinhem de quem estou a falar. Exactamente, Bryan Adams. A parte curiosa disto é que Ryan é perseguido pelo fantasma de Bryan nos seus concertos, desde que em 2002 um heckler o fez perder a paciência em Nashville quando gritou por "Summer Of '69". Foram anos de terapia em psicólogos, como o próprio Ryan contou ao New York Times, até que voltou à mesma venue em 2015 e tocou... "Summer Of '69". Este episódio resume muito bem o propósito de "Prisoner" - um álbum onde Ryan lida com os seus fantasmas.

"Prisoner" é um álbum pejado de canções de amor (e falta dele), obrigatório para quem vive as canções Pop como o Tom do "500 Days Of Summer"; é um dos melhores discos que (até ver) 2017 nos trouxe. Comparando com o output anterior de Ryan Adams, "Prisoner" é mais variado que "1989" e por isso também uma audição mais completa e satisfatória. Pena que as canções de Taylor Swift sejam, na globalidade, superiores. Mas a vida é assim mesmo, às vezes é nos desvios que encontramos o melhor da viagem.

81%

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

As 20 melhores baladas de sempre

Queria escolher as 10 melhores baladas de sempre para o Valentines, mas não me consegui conter e as 10 passaram a 20. No final, acabaram por ficar 21.
Canções de amor, quem as não tem? Desde a primeira namoradinha na escola, até às complicadas relações dos crescidos, são estas as canções que servem de banda sonora aos nossos amores e desamores. Para celebrar o Dia dos Namorados, comecei por tentar reunir as minhas 10 baladas preferidas numa playlist, mas o lote avolumou-se e à dificuldade de edição, o Top 10 passou a Top 20 (ou 21). Leiam, amem e ouçam a playlist no fim.



20. Blur – "Tender" (1999)
Começamos com a canção de amor que diz o mais importante que precisamos saber: "Love is the greatest thing that we have". E é isto, o amor é mesmo o melhor que temos.









19. Queen – "Too Much Love Will Kill You" (1994)
A canção de amor que conta o resto da história: o amor é o melhor que temos, mas como todas as drogas, servido em demasia, mata.
Somos as vítimas dos nossos próprios crimes.









18. Ornatos Violeta – "Ouvi Dizer" (1999)
"Ouvi dizer" que amor é uma doença, quando nele julgamos ver a nossa cura...










17. Elvis Presley – "Can't Help Falling In Love" (1961)
... e mesmo assim, não conseguimos parar de ficar caidinhos de amor.










16. Julio Iglesias  "Hey!" (1980)
Impossível deixar de fora de uma lista de baladas o maior baladeiro latino (tanto na Europa, como na América Latina). Talvez os leitores abaixo dos 30 não tenham noção da magnitude do antigo guarda-redes do Real Madrid na música, mas só este álbum - "Hey!" - vendeu mais de 20 milhões de cópias e estima-se que as vendas totais do Julito só em álbuns rondem as 300 milhões de unidades. Acima disto, só Beatles, Michael Jackson e pouco mais.
Julio Iglesias, o homem que promete devolver o dinheiro dos bilhetes do seu espectáculo se os casais não fizerem amor de pé nessa noite. O maior.


15. Laura Pausini –  "La Solitudine" (1993)
Por falar em grandes baladas latinas (e eu tenho a perfeita noção que estou aqui a arriscar a vossa atenção), não posso olvidar a história da menina Laura que fica sem o seu namoradinho Marco que "se n'è andato e non ritorna più" e assim deixou a Laurinha sozinha entre os TPC de Inglês e Matemática. E eu não posso olvidar porque esta canção de amor para os mais pequenos foi também a banda sonora do meu primeiro amor, tinha eu 8 aninhos. Ai, a inocência.




14. Rui Veloso – "A Ilha" (1984)
Passando para amores mais adultos, Rui Veloso leva-nos ao mar com lua cheia, "a esse mar de ruas e cafés". N' "A Ilha", a inocência já foi atirada ao convés há muito e Rui prefere aludir a metáforas dos Descobrimentos para descrever essa navegação no desconhecido que é a relação com a mulher. Um tema sombrio e criminosamente negligenciado no reportório de Rui Veloso.







13. 10CC – "I'm Not In Love" (1975)

"Etéreo" e "celestial" são adjectivos demasiadas vezes atirados na música, nem sempre de forma legítima. Quando a Siri começar a responder com exemplos às nossas dúvidas de semântica, à pergunta "o que significa 'etéreo'", ela deverá responder com a faixa instrumental de "I'm Not In Love" dos 10CC.
A balada do amor em negação, para todos os que vão espiar o Facebook dos exs de hora em hora, mas que garantem que já não sentem nada.







12. Phil Collins – "How Can You Just Sit There? (Against All Odds)" (1981)
Nem sempre são precisas palavras para ficar tudo dito. Há um niilismo em "How Can You Just Sit There?" que se auto-completa e auto-explica, porque é do vazio que o tema trata. Não é preciso ouvir Phil Collins dizer que "there's just an empty space" porque é exactamente isso que se sente nesta gravação.
"How Can You Just Sit There?" é a versão arcaica de "Against All Odds" e foi firmada nas sessões de gravação de "Face Value" – o primeiro álbum a solo de Phil Collins. Como todas as suas composições da altura, foi escrita sobre o seu divórcio, quando Phil foi abandonado pela mulher e se viu sozinho, na fria e distante Vancouver, para lá dos bosques de Twin Peaks.

11. Duran Duran – "Save A Prayer" (1982)
Isto do amor também não é só miséria. "Save A Prayer" é uma balada para o amor combustível, despegado e fugaz, aquele que se vive numa noite de Verão em Saint-Tropez e ali fica para sempre, numa praia isolada da Riviera Francesa. Mas acho que já estou a ser demasiado específico.
"Save A Prayer" é uma das melhores baladas dos anos 80 e ascende a níveis estratosféricos quando a guitarra suja e angulosa de Andy Taylor rasga as texturas de Nick Rhodes e John Taylor, enquanto Simon Le Bon sustenta o "save it to the morning afteeeeeeeeeer", por volta dos 2:20.
"Some people call it a one-night-stand but we can call it paradise". Quem disse que o chavascal não pode ser romântico?


10. Pavement – "Spit On A Stranger" (1999)
Porque nem sempre os amores se podem resumir a um one-night-stand. Não foi ao acaso que "Spit On A Stranger" foi a canção escolhida para juntar Ted e Victoria no fim do empolgante episódio de "How I Met Your Mother" em que Ted tenta descobrir quem era a miúda perfeita que conhecera num casamento.
Uma canção de amor para os desencontrados tempos modernos: "Honey I'm a prize and you're a catch and we're a perfect match". Como dois estranhos amargurados.




9. Eagles – "I Can't Tell You Why" (1979)
Foi a banda sonora da primeira paixão que eu tive por uma miúda que não era da minha turma. Amores proibidos, quem nunca?










8. Jacques Brel – "Ne Me Quittes Pas" (1954)
Não me deixes, não me deixes, não me deixes... Se à quarta vez que Jacques Brel suspira "ne me quittes pas" lavado em lágrimas nesta performance (https://www.youtube.com/watch?v=q_bq5mStroM), a música não vos partir o coração, deviam ir ver isso a um cardiologista. Só espero que a miúda não tenha deixado o pobre Jacques.





7. The Beatles – "Here, There And Everywhere" (1966)
Uma lista de baladas não pode existir sem o maior baladeiro que o mundo já viu – Sir Paul McCartney. Se fosse eu a escolher, tinha-vos deixado com um tema do Paul a solo: "Monkberry Moon Delight" (que não parece uma canção de amor, mas é a amálgama metafórica perfeita da frivolidade de tudo na vida para além do amor), "Junk" (a melhor canção de amor sobre objectos) ou até o mais óbvio "Silly Love Songs"; mas como é Valentines, escolho esta porque é a preferida da minha namorada. E da Phoebe dos Friends, também.




6. The Beach Boys – "God Only Knows" (1966)
Não será preciso dissertar sobre a magnificência de "Pet Sounds". A literatura é extensa e se tiverem dúvidas, vejam o filme "Love And Mercy". Para lá do arsenal de instrumentos e harmonias que ouvimos no álbum, aquilo que mais me atrai em "God Only Knows" é a sua pureza feliz, ingénua e despreocupada, que nos faz acreditar que o amor da vida real pode ser tão fácil como o final de "Love Actually" (https://www.youtube.com/watch?v=_Dqnbi_IhXc). Se tudo fosse sempre assim tão simples.




5. David Bowie – ""Heroes"" (1976)
"The greatest love song of all time", diz a minha namorada. Ela é portuguesa, mas o nosso amor é global e por isso comunicamos em inglês from time to time.
(Nota: devem ter reparado nas duplas aspas, que indicam que o título original já leva um par de aspas e por isso a sua citação leva outro par. Não é romântico?)


4. Guns N' Roses – "November Rain" (1991)
Porque é verdade que é difícil manter as velas acesas debaixo da chuva de Novembro. "Novemeber Rain" é uma canção de amor sobre as tormentas das relações dos crescidos e a constante luta para as salvar.
Porque a melhor maneira de contar uma história de amor é com o Slash a fazer um solo de guitarra em cima de um piano. 






3. Derek & The Dominos – "Layla" (1970)


Falando em grandes histórias de amor. A lenda conta que Eric Clapton estava tão desesperadamente apaixonado por Pattie Boyd que, num dos encontros secretos que mantinha com a mulher de George Harrison, levou numa mão um leitor de cassetes e na outra um pacotinho de plástico. O leitor tinha uma cassete com a sua última composição: uma balada sobre um homem perdido de amores por uma miúda que não podia ter - "Layla". Eric tocou a fita e no fim, Pattie estava mortificada: "Todos vão saber que isto é sobre mim", agonizou.
Eric suplicou-lhe que deixasse o seu amigo (ou nem por isso) George e avisou que se não o fizesse, se iria afogar naquilo que tinha na outra mão. Mostrou-lhe o pacote de plástico: era heroína. "Não sejas parvo", disse Pattie; e foi-se embora para os braços de George. Mas Eric Clapton cumpriu com o que prometera e durante 3 anos desapareceu do mapa - não saiu de casa, não atendeu porta nem telefone, nem sequer os amigos lhe puseram a vista em cima. Por amor, apagou-se.
Uma balada para os amores impossíveis.

2. George Michael – "Careless Whisper" (1984)

A balada Pop perfeita. Desde aquela introdução de saxofone inconfundível, a estrutura, a lírica, até ao vídeo. Tudo no sítio certo. George Michael escreveu "Careless Whisper" (alegadamente) com Andrew Ridgeley em 1981, quando tinha apenas 17 anos. Nos anos que se seguiram, George assumiu um distanciamento relativamente ao tema, por considerar que na altura "não sabia nada sobre a vida". Não deixa de ser curioso que esta posição de George seja um gato de Schroedinger que consegue estar ao mesmo tempo totalmente certa e totalmente errada. De facto, aos 17 anos nem George nem ninguém sabe nada sobre a vida, mas é precisamente essa visão ingénua e pura do amor, a mais valiosa na esfera da música Pop e a mais certeira no coração do ouvinte de uma canção. O problema nem é nunca mais dançar; é nunca mais conseguirmos dançar da mesma forma que dançámos com ela. São estas nuances capazes de cristalizar um sentimento universal que definem a Pop genial. Tão simples, mas tão acurado.

1. Queen – "You Take My Breath Away" (1976)

Nesta fase avançada de evolução civilizacional, já deve ser unânime e axiomaticamente aceite que a melhor canção de amor alguma vez escrita é "You Take My Breath Away" dos Queen.
"You Take My Breath Away" é Freddie Mercury em todo o seu esplendor. Com excepção de um (majestoso) solo de guitarra de Brian May lá para o fim, aqui só há Freddie: ao piano e na voz; aliás, Freddie em todas as vozes: agudos, médios e graves, layers e layers de Freddie, é tudo dele. E há o silêncio, elemento fulcral neste tema. Sozinho, Freddie vê-se obrigado a um dueto com o silêncio, amiúde interrompido pela rede de harmonias que mostram um Freddie perdido, atormentado pelas vozes do seu subconsciente. "You Take My Breath Away" é sombrio; é a declaração de amor mais visceral e incondicional, quase ameaçadora; um amor como uma força bruta que lavra tudo à sua passagem e nem o próprio Freddie consegue deter.
Muito se fala em "Bohemian Rhapsody" como a grande obra-prima de Freddie Mercury e em termos de grandeza, é um ponto de vista difícil de refutar. Mas se olharmos atentamente, qual obra-prima de menor porte mas mais polida e refinada, é "You Take My Breath Away" o momento de maior beleza da carreira de Freddie. E por que não, de toda a História da música Pop.



0. The Stone Roses – "Waterfall" (1989)
A música da minha miúda. É especial e por isso não entra no Top 20. Eu sei que ela prefere o "She Bangs The Drums", mas para mim será sempre a minha waterfall.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Os melhores de sempre... do mês de Janeiro (de 2017)

Em Janeiro "está um frio de rachar", dizia o Rui Veloso. Para uns é o mês em que apetece menos sair à rua, para outros (para mim) é o mês em que não é preciso inventar desculpas para não sair à rua e assim ficar trancado em casa a ouvir música. E tanta foi a música que Janeiro de 2017 trouxe. Esta é alguma da melhor.

Comecemos por Ryan Adams. O artista que em 2015 surpreendeu o mundo com o melhor álbum com o nome "1989" de sempre tem um novo trabalho na manga. No fim do ano passado já nos tinha brindado com duas faixas prometedoras : "Do You Still Love Me?" com cheiro a Whitesnake e "To Be Without You" com aroma a Blind Melon. Agora mostrou-nos "Doomsday", que é mais early Eagles. O que têm umas coisas a ver com as outras? Muito pouco. Mas Ryan Adams tão depressa faz covers de "Wonderwall" como de "Shake It Off", por isso sabe-se lá o que vem a seguir.


Logo no dia 1 houve novo álbum de Brian Eno; o que normalmente é o mesmo que dizer que Brian Eno lançou um álbum de música ambiente com duas faixas de 25 minutos, divididas apenas pela comodidade de caberem em dois lados de um vinil. Desta vez, Brian abandonou os facilitismos e lançou um álbum com uma faixa de uma hora. Música de elevador à bruta.


The XX têm um novo álbum, mas se vocês têm um computador com acesso à internet, de certeza que já sabem disso. O álbum é mais variado que os anteriores e mostra a vontade de Jamie XX em fazer coisas novas (que já tinha mostrado no seu bem sucedido álbum a solo). "Replica" é a malha do novo "I See You".


Os Arcade Fire ainda mexem. Depois do exercício de masturbação épico-hipster em "Reflektor", os canadianos entram na política e canalizam o seu melhor Lennon-Yoko com "I Give You Power", uma faixa de matriz inusitadamente simples para os AF. Mudança de direcção ou um one off?



Também tivemos nova dos Spoon. "Hot Thoughts" é a primeira amostra do novo álbum com o mesmo nome e primeiro sinal de vida desde "They Want My Soul" de 2014. Esperemos que este álbum seja menos como "They Want My Soul" e mais como "Transference" de 2010.


Houve também a estreia a solo do baixista dos Tame Impala e antigo baterista dos Pond – Cameron Avery. Curiosamente com uma faixa estranhamente despida para quem é membro das duas bandas de proa do neo-psicadelismo. Violinos em vez de guitarras com distorção.


Por falar em Pond, a banda australiana tem novo álbum para este ano (sem Cameron) e a primeira faixa já aí está. O sintetizador reminiscente da banda sonora de um jogo da NES que abre "30000 Megatons" sinaliza de imediato que já estamos em terreno Dreamy Pop.



Tudo isto e mais a ouvir na playlist de Janeiro.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Os melhores concertos de 2016 em Portugal — Top 10

Porque os balanços só se fazem no fim, eis o meu Top 10 dos melhores concertos que vi em solo nacional durante 2016.

10. Pop Dell'Arte - 22 de Abril - Titanic Sur Mer, Lisboa


No meio da miríade de ocorrências do quotidiano, a memória humana tem tendência a guardar três tipos de eventos: os bons, os maus e os WTF?!. A noite em que vi os Pop Dell'Arte versão 1995 reunidos (excepção ao baixista Pedro Alvim, que morreu em 2015) para tocar na íntegra o álbum "Sex Symbol" — por ocasião da sua reedição em vinil — encaixa porventura na terceira categoria. Obrigando os sentidos a constantes readaptações, os Pop Dell'Arte começaram na electrónica jazzista de "All You Need Is Money", passaram pelo viciante "My Funny Anna Lana" (que não sai da cabeça durante dias a fio), mostraram o crooner João Peste em "Planet Lakroon" e abriram alas à guitarra facínora de JP Simões em "Zip Zap Woman". Noite para nunca esquecer.

9. Destroyer - 10 de Junho - Parque da Cidade, Porto (Primavera Sound)


10 de Junho foi um dia cheio. A segunda jornada do Primavera Sound teve Brian Wilson, PJ Harvey, Savages, Destroyer, Dinosaur Jr., Beach House... Não deu para ver tudo, mas deu para apanhar uma das bandas que tenho seguido mais de perto nos últimos anos: os Destroyer. A (enorme) banda de Dan Bejar encheu o Parque da Cidade do Porto com a sua cortina sonora, tão depressa num registo agressivo-depressivo a fazer lembrar New Order, como num registo eufórico-festivo a parecer a E Street Band. Bejar esteve igual a si próprio e, tal como fez no Music Box em 2012, despejou sucessivas latas de cerveja alternadas com copos de whiskey durante todo o concerto, ao mesmo tempo que despejava a alma em palco. Nunca falha, o Dan.

8. The Parkinsons - 28 de Novembro - Sabotage, Lisboa

Vou deixar as imagens falarem por si.






7. The Cure - 21 de Novembro - Meo Arena, Lisboa



Os concertos da Tour 2016 dos The Cure dividiram-se em dois tipos: os espectáculos com severo enfoque no álbum "Disintegration", que contaram com 7 a 8 temas do álbum (e que correspondem por si só 70 a 80 minutos de música) e os outros. Como fã agressivo do álbum de 1989, foi com muita pena que vi o concerto de Lisboa inserir-se no pacote dos "outros". O concerto foi muito bom e mereceu lugar nesta lista mas — mesmo admitindo que tenha havido um problema de gestão expectativas — it didn't live up to the hype.

6. Bryan Adams - 25 de Janeiro - Meo Arena, Lisboa


Já tinha visto Bryan Adams no Rock In Rio a abrir para Stevie Wonder e a deixar o cabeça de cartaz muito para trás. Foi por isso sem surpresa que vi Bryan dar mais um concerto imaculado no Meo Arena, onde desfilaram hits em barda e, para ser perfeito, só faltou mesmo o "Tonight". Ah e desta vez não tivemos um dueto "aleatório" com a Vanessa Silva.

5. Elton John - 11 de Dezembro - Meo Arena, Lisboa


O tio Elton nunca desilude. Com 69 anos e ainda mais de 100 concertos por ano, Elton John é o Mestre absoluto do espectáculo ao vivo. Foi uma maratona de quase três horas de concerto, onde Sir Elton discorreu êxitos, fan favourites, deep cuts, singalongs e ainda teve tempo para umas canções de Natal. De encher o coração.

4. AC/DC & Axl Rose - 7 de Maio - Passeio Marítimo de Algés


O evento de maior relevância internacional de 2016 em espaço português, a fazer corar o Websummit e a inauguração do hotel do Cristiano Ronaldo. Era o primeiro concerto dos AC/DC com Axl Rose e meio mundo adivinhava um cataclismo de proporções épicas. Eu não, que já previa que ia ser do caralho. E assim foi. Qual Rocky a treinar para o Ivan Drago, Axl passou uma semana a ensaiar na tundra de Xabregas (lembram-se como choveu naquela semana?) e quando chegou domingo, estava preparado. À espera dele em Algés, estava um batalhão de jornalistas estrangeiros maior que o destacado para o Tratado de Lisboa, a final do Euro 2004 e a chegada do Caniggia ao Benfica, todos a acotovelarem-se slimaniscamente para um lugar na primeira fila do desastre do século. Mas o universo tem destas coisas: quando o concerto começou, a chuva furiosa parou e Axl desabrochou para uma performance histórica que quem ali esteve jamais esquecerá. Quem queria sangue, foi para casa com a viola no sangue. A esta hora ainda deve ecoar no Passeio Marítimo de Algés o pull the triggaaaaaaaaaaaaaaa.

3. Brian Wilson - 10 de Junho - Parque da Cidade, Porto (Primavera Sound)


Por falar em performances históricas, Portugal teve em 2016 a honra de receber Brian Wilson a tocar “Pet Sounds”, o lendário álbum dos The Beach Boys. Trazer Brian Wilson a um festival estava longe de ser uma contratação óbvia. Basta olhar para o cartaz, onde não se vislumbra nenhum artista passível de aparecer nas sugestões do Spotify de quem ouve The Beach Boys; ou para resto da digressão cheia de "coliseus", salas sentadas onde "Pet Sounds" se podia ouvir com a merecida atenção. A organização foi corajosa e acertou.
Foi um concerto especial. Para ser cruelmente honesto, Brian apresentou-se com a voz audivelmente cansada, incapaz de atingir as alturas agudas de outros tempos. A vida não foi meiga com ele (vejam o "Love And Mercy" para terem uma ideia das tormentas que o homem passou) e depois de um ano de digressão exaustiva, Brian chegou ao Porto debilitado. Mas nem por isso fez uso de redes, playbacks, ou outros truques. Foi tudo "as is", nu, cru e ao vivo. O público respeitou-lhe a pureza e preferiu concentrar-se no que Brian trouxe de bom, que foi tudo o resto. Começando na música, claro está. Não será preciso dissertar sobre a magnificência de "Pet Sounds", bem representada na banda de doze elementos que Brian trouxe e no arsenal de instrumentos insano que mal cabia no palco principal do Primavera. Até porque o que me atrai em "Pet Sounds" é a sua ingenuidade feliz e despreocupada. Por trás da cortina sonora, temas como "Wouldn't It Be Nice" e "God Only Knows" primam pela sua universalidade, capaz de unir uma plateia heterogénea que terminou com surf — crowdsurf — numa tarde fria no Porto.

2. Iggy Pop - 15 de Julho - Meo Arena, Lisboa (Super Bock Super Rock)

Todos temos a nossa lista dos artistas que gostaríamos de ver. Uma "bucket list", como lhe chamam agora. Iggy fazia parte da minha lista — embora longe da posição de proa —como um dos poucos astros do Rock ainda vivos, numa lista onde hoje só cabem apenas nomes como Mick e Ozzy. Já não há muitos para ver, uns já nos deixaram, outros ficaram e murcharam e poucos valem o valor do bilhete que cobram. O SBSR agarrou um dos poucos que sobraram e se já esperava que fosse um dos pratos fortes do festival, mas acho que ninguém estava preparado para o que aconteceu naquela noite escaldante de Julho.
Iggy apresentou-se na sua indumentária habitual, isto é, sem indumentária (devido àquela condição clínica que não lhe permite vestir uma t-shirt). Ostentando as gloriosas pregas que apresenta no torso — cicatrizes de muitas batalhas travadas no passado —, deu um concerto com o pedal a fundo do princípio ao fim. Cerveja a voar, Iggy a cuspir, público a saltar, mosh, crowdsurfing, este é o meu povo e é disto que o meu povo gosta. É só Rock N’ Roll, mas nós gostamos.
P.S.: e eu dei um high-five ao Iggy!

1. Bruce Springsteen & The E Street Band - 19 de Maio - Parque da Bela Vista, Lisboa (Rock In Rio)



Vamos pôr as coisas desta forma: não é justo sequer por Bruce Springsteen ao lado dos anteriores desta lista. Não é justo para os restantes, que saem inevitavelmente a perder contra o Boss. Já começam a faltar palavras para descrever esta experiência quase metafísica que é viver um concerto do Bruce. E é impossível fugir aos superlativos. Melhor concerto de sempre em solo português? Bem, o melhor desde o último de Bruce, certamente que foi. Concerto do ano também.

0. David Gilmour - 7 de Julho - Anfiteatro Romano, Pompeia


Esqueçam o aparente pretensiosismo que acarreta a escolha de um espectáculo em Itália para fechar um Top 10 de concertos em solo nacional. Atentem na data do concerto. Devem ter reparado que  nesta lista não figura qualquer concerto do Alive. Provavelmente já me estavam a rogar pragas e a perguntar onde estão Radiohead, Tame Impala, Pixies, Robert Plant, Band Of Horses, ou Father John Misty. Acreditem, nada me move contra o festival e muito menos contra o cartaz deste ano (um dos melhores de sempre). Eu tinha bilhete e simplesmente não pude ir porque não podia perder a oportunidade de uma vida de ver o David Gilmour ao vivo nas ruínas de Pompeia. E quanto a este concerto só digo uma coisa: depois disto, sinto que já não há mais nada para ver.