As últimas faixas gravadas nas sessões de "Blackstar" estão aqui. Será que valem a pena?
As últimas três faixas que faltavam ouvir das Blackstar Sessions chegaram. Dão pelo nome de "No Plan, "When I Met You" e"Killing A Little Time"e estão a partir de hoje disponíveis na banda sonora do musical off-Broadway de David Bowie."Killing A Little Time" é a mais fascinante e mind-bending das três canções e, como sempre acontece quando se fala de Bowie (principalmente na sua fase pós-milénio), é impossível de categorizar. Bowie atingiu um estado de tal aristocracia sónica desde a viragem do primeiro dígito do calendário, que parece controlar as ondas com uma batuta só dele. Para ser simplista, isto não se parece com nada que já ouvimos antes e no entanto, tem elementos de tudo um pouco.
Sabem quando abrimos várias janelas no Youtube e elas começam inadvertidamente a tocar ao mesmo tempo, criando um ruído indecifrável? Não raras vezes, "Killing A Little Time" parece-se exactamente com isso. Esqueçam os tempos do rock progressivo, em que se colavam sequencialmente vários temas com andamentos diferentes (Bowie fê-lo com mestria em "Station To Station") e assim se criava uma obra complexa. Tempos idos. Bowie inventou agora um novo método: a colagem simultânea. Há uma guitarra a tocar um riff metal à frente, temos um baterista lá atrás a fazer a cena dele, temos um Bowie a mandar versos fora dos lugares comuns, de vez em quando aparecem uns saxofones perdidos e ainda há um piano nervoso, a tocar ora à frente, ora atrás na mistura, como um balão que se esvazia caótico, enquanto embate nos quatro cantos da sala. Parecem três músicas diferentes a tocar ao mesmo tempo, às vezes de forma confusa, às vezes num casamento inesperadamente perfeito. Deixa-nos confusos, mas no fim, resulta. Como diz a inviolável sabedoria popular, primeiro estranha-se e depois entranha-se.
Ouvir "Killing A Little Time" recordou-me a sensação da primeira vez que ouvi "Blackstar", ainda antes da morte de Bowie. Estava no carro, a ouvir a Radar no regresso a casa e enquanto fazia a descida de Monsanto na A5, telefona-me o meu chefe, provavelmente estacionado poucos metros à frente ou atrás no mesmo engarrafamento: "Nuno, estás a ouvir isto?! O Bowie passou-se de vez!". Depois de largos minutos a processar o que acabara de ouvir, só pude concordar. É engraçado que "onde estava a primeira vez que ouvi Blackstar" pode ser o novo "onde estava quando os aviões embateram nas torres gémeas" dos melómanos (ou, para a geração mais velha, "onde estava no 25 de Abril"). Mas divago.
As outras duas faixas chamam-se "No Plan" e "When I Met You". "No Plan" é um óbvio out-take de "Blackstar", perfeitamente enquadrado na lírica, temática e sonoridade do álbum. "When I Met You" é bem mais interessante: perigoso e cortante, soa a algo saído de "Scary Monsters". Não é bem o mood de "Blackstar", mas é uma das melhores faixas das últimas sessões de gravação de Bowie e prova uma coisa: David Bowie desafiou os limites até ao fim. Só podemos imaginar até onde os poderia esticar ainda mais.
sexta-feira, 21 de outubro de 2016
terça-feira, 18 de outubro de 2016
Nenhuma mulher pode amar um homem que ouve Phil Collins
Mas pode Phil voltar a amar-se a si mesmo?
O título da crónica é uma citação de "Sing Street", um dos meus filmes preferidos deste ano. Como fã de Phil Collins e dos Genesis, desmanchei-me a rir com esta fala do filme e adoptei-a como uma possível explicação para a minha própria turbulenta vida amorosa. Talvez o facto de amar o Phil Collins justifique o meu fado com o sexo oposto, não sei; mas sei que Phil deixou de se amar a ele própio há muito tempo, por não aguentar ser sujeito a décadas deste tipo de enxovalho. E que isso quase acabou com ele.
No dia em que foi anunciado o seu regresso aos espectáculos, a crónica que escrevi aqui em Janeiro sobre a necessária reapreciação do seu valor faz mais sentido que nunca. Independentemente do passado, sobra-me dizer mais umas coisas sobre o Phil e a sua nova digressão.
Vi a conferência de imprensa do anúncio da digressão em directo. Deu-me pena. Adoro o Phil. Para mim, o Phil é família; é como um tio não muito afastado que esteve sempre "ali". É difícil vê-lo tão fisicamente e animicamente acabado, um farrapo cheio de ressentimentos (confessou que reatou com a última mulher, mas que esta "não lhe devolveu o dinheiro que lhe tirou") e uma sombra do poço de vida que já foi.
Phil sempre teve muita dificuldade em lidar com a visão que o mundo tinha dele. Primeiro, quando o elevaram a superestrela depois de ter feito um álbum intimista e silencioso sobre o seu próprio divórcio. Depois, quando o atiraram para objecto de anedotas por ter continuado a fazer o que sempre fizera. Phil não conseguiu lidar com a dinâmica da opinião pública e como primeira defesa, isolou-se. Sem perceber que os Genesis eram a entidade que em última instância o protegia, enxotou-os após uma passagem triunfal por Knebworth em 1992 (sempre Knebworth como cemitério) e quando a Britpop estoirou, a sua imprensa só piorou. A defesa de Phil foi isolar-se ainda mais e avançar para uma reforma prematura, retirando-se da música agastado, surdo e sociologicamente queimado.
Quando voltou para casa para ser um pai a tempo inteiro, Phil foi recebido com o embate de um camião TIR. A mulher pediu-lhe o divórcio e com ela levou os filhos e o dinheiro. Phil ficou sozinho, agora sim, completamente isolado. Seguiram-se anos de depressão, alcoolismo solitário no sofá a olhar para a televisão e conversas com a linha de suicídio. Até Peter Gabriel teve que intervir na situação, para salvar o seu amigo Phil.
Eventualmente, Phil Collins começou a trepar lentamente para fora do buraco em 2014. A sua ex-mulher aceitou-o de volta (ficando com o dinheiro, como ele próprio sublinhou), Phil voltou a poder estar com os filhos e chegámos ao dia de hoje, em que ele anuncia uma digressão. Phil volta para um punhado de espectáculos a solo no Royal Albert Hall, em Colónia (terra santa para os Genesis, deuses eternos das Alemanhas) e em Paris.
Mas pela enésima vez, desde que despachou os Genesis em Knebworth, Phil volta a tomar a decisão errada, ignorando aquilo que realmente o protege: o chapéu-de-chuva dos Genesis.
O que Phil deveria ter feito era simples: telefonava aos seus (verdadeiros) amigos Mike Rutherford e Tony Banks, deixava-os tratar de tudo e limitava-se a sentar-se num banco à frente do palco, a cantar as músicas dos Genesis para gáudio de milhares de pessoas que desesperam para o ver (eu! eu! eu!) interpretar aquelas canções. Acontecesse o que acontecesse, Phil teria sempre o apoio de Tony, Mike e da máquina dos Genesis. Assim, volta à estrada por sua conta e risco, vulnerável a tudo o que lhe possa cair em cima.
Dito isto, toda a sorte do mundo para o Phil. Espero mesmo que ele derrote os seus fantasmas e que aprenda a voltar a amar-se a si mesmo. Aconteça o que acontecer, Phil, I will always love you. E cá estarei para defender o teu legado.
O título da crónica é uma citação de "Sing Street", um dos meus filmes preferidos deste ano. Como fã de Phil Collins e dos Genesis, desmanchei-me a rir com esta fala do filme e adoptei-a como uma possível explicação para a minha própria turbulenta vida amorosa. Talvez o facto de amar o Phil Collins justifique o meu fado com o sexo oposto, não sei; mas sei que Phil deixou de se amar a ele própio há muito tempo, por não aguentar ser sujeito a décadas deste tipo de enxovalho. E que isso quase acabou com ele.
No dia em que foi anunciado o seu regresso aos espectáculos, a crónica que escrevi aqui em Janeiro sobre a necessária reapreciação do seu valor faz mais sentido que nunca. Independentemente do passado, sobra-me dizer mais umas coisas sobre o Phil e a sua nova digressão.
Vi a conferência de imprensa do anúncio da digressão em directo. Deu-me pena. Adoro o Phil. Para mim, o Phil é família; é como um tio não muito afastado que esteve sempre "ali". É difícil vê-lo tão fisicamente e animicamente acabado, um farrapo cheio de ressentimentos (confessou que reatou com a última mulher, mas que esta "não lhe devolveu o dinheiro que lhe tirou") e uma sombra do poço de vida que já foi.
Phil sempre teve muita dificuldade em lidar com a visão que o mundo tinha dele. Primeiro, quando o elevaram a superestrela depois de ter feito um álbum intimista e silencioso sobre o seu próprio divórcio. Depois, quando o atiraram para objecto de anedotas por ter continuado a fazer o que sempre fizera. Phil não conseguiu lidar com a dinâmica da opinião pública e como primeira defesa, isolou-se. Sem perceber que os Genesis eram a entidade que em última instância o protegia, enxotou-os após uma passagem triunfal por Knebworth em 1992 (sempre Knebworth como cemitério) e quando a Britpop estoirou, a sua imprensa só piorou. A defesa de Phil foi isolar-se ainda mais e avançar para uma reforma prematura, retirando-se da música agastado, surdo e sociologicamente queimado.
Quando voltou para casa para ser um pai a tempo inteiro, Phil foi recebido com o embate de um camião TIR. A mulher pediu-lhe o divórcio e com ela levou os filhos e o dinheiro. Phil ficou sozinho, agora sim, completamente isolado. Seguiram-se anos de depressão, alcoolismo solitário no sofá a olhar para a televisão e conversas com a linha de suicídio. Até Peter Gabriel teve que intervir na situação, para salvar o seu amigo Phil.
Eventualmente, Phil Collins começou a trepar lentamente para fora do buraco em 2014. A sua ex-mulher aceitou-o de volta (ficando com o dinheiro, como ele próprio sublinhou), Phil voltou a poder estar com os filhos e chegámos ao dia de hoje, em que ele anuncia uma digressão. Phil volta para um punhado de espectáculos a solo no Royal Albert Hall, em Colónia (terra santa para os Genesis, deuses eternos das Alemanhas) e em Paris.
Mas pela enésima vez, desde que despachou os Genesis em Knebworth, Phil volta a tomar a decisão errada, ignorando aquilo que realmente o protege: o chapéu-de-chuva dos Genesis.
O que Phil deveria ter feito era simples: telefonava aos seus (verdadeiros) amigos Mike Rutherford e Tony Banks, deixava-os tratar de tudo e limitava-se a sentar-se num banco à frente do palco, a cantar as músicas dos Genesis para gáudio de milhares de pessoas que desesperam para o ver (eu! eu! eu!) interpretar aquelas canções. Acontecesse o que acontecesse, Phil teria sempre o apoio de Tony, Mike e da máquina dos Genesis. Assim, volta à estrada por sua conta e risco, vulnerável a tudo o que lhe possa cair em cima.
Dito isto, toda a sorte do mundo para o Phil. Espero mesmo que ele derrote os seus fantasmas e que aprenda a voltar a amar-se a si mesmo. Aconteça o que acontecer, Phil, I will always love you. E cá estarei para defender o teu legado.
quinta-feira, 13 de outubro de 2016
Os tempos, eles estão a-mudar
E às vezes para melhor: rejubilemos, Bob Dylan é o Nobel da Literatura.
Não vou fingir o contrário: o Nobel da Literatura deste ano foi uma enorme surpresa. E das boas.
É a primeira vez que um poeta da música é reconhecido com este galardão e, que júbilo, já não era sem tempo. Apesar do impacto social dos escritores de canções ser indiscutivelmente maior que a esmagadora maioria dos receptores habituais deste prémio (e com uma longevidade de mais de meio século), os músicos sempre foram olhados de soslaio pela crítica literária. A verdade é que houve mais gente a ler e a ouvir os poemas de Bob Dylan, do que todos os outros prémios Nobel juntos. Há casos e casos, é certo, mas o caso de Dylan é inatacável.
A literatura é apenas uma das dimensões do espaço vectorial onde Bob Dylan opera. Dylan foi um homem que revolucionou a música popular, ora como diário confessional, ora como instrumento de intervenção. Nada foi igual depois da sua afirmação com "The Freewheelin' Bob Dylan" em 1963. Ao contrário da natureza estritamente lúdica da música popular que aparecia nas tabelas de então, as canções de Dylan incorporavam um peso intelectual que atraía uma audiência mais sofisticada, gente que ouvia música sentada em sofás enquanto fumava substâncias nem-sempre-legais e dissertava sobre o sentido da vida e o peso da existência. Dylan não valia só pela música, valia também pela poesia e pela mensagem.
Bob Dylan mudou tudo e é a ele que devemos uma quantidade astronómica da nossa música preferida, mesmo a que não foi composta por ele. Nem os Beatles seriam quem nós conhecemos hoje se não fosse Dylan. Foi ele quem convenceu John Lennon a deixar os "I love you"s e a dar outra profundidade e realidade à sua música, isto depois de lhe apresentar o charro.
Como melómano, alguém cuja vida foi conduzida pela música que ouvia, sinto que este Nobel é também um bocadinho meu. Em 2016, já escrevi uma série de textos de homenagem porque a morte dos respectivos artistas assim me obrigou (Bowie, Prince, Frey, já estava farto). Felizmente, posso fazer o louvor a Dylan enquanto ele ainda cá está. Ainda bem que a Academia também teve essa coragem.
Dylan anunciava em 1964 que os tempos, eles estavam a-mudar. Em 2016, eles estão a-mudar mais ferozmente que nunca e é por isso que importa que se reconheçam os génios e se separe o trigo do joio no meio de todo este ruído da tecnologia e das redes sociais. Este Nobel é totalmente merecido e vem no momento certo. Muito bem, Academia.
Agora falta o Lobo Antunes. E já agora, o Bruce Springsteen.
Não vou fingir o contrário: o Nobel da Literatura deste ano foi uma enorme surpresa. E das boas.
É a primeira vez que um poeta da música é reconhecido com este galardão e, que júbilo, já não era sem tempo. Apesar do impacto social dos escritores de canções ser indiscutivelmente maior que a esmagadora maioria dos receptores habituais deste prémio (e com uma longevidade de mais de meio século), os músicos sempre foram olhados de soslaio pela crítica literária. A verdade é que houve mais gente a ler e a ouvir os poemas de Bob Dylan, do que todos os outros prémios Nobel juntos. Há casos e casos, é certo, mas o caso de Dylan é inatacável.
A literatura é apenas uma das dimensões do espaço vectorial onde Bob Dylan opera. Dylan foi um homem que revolucionou a música popular, ora como diário confessional, ora como instrumento de intervenção. Nada foi igual depois da sua afirmação com "The Freewheelin' Bob Dylan" em 1963. Ao contrário da natureza estritamente lúdica da música popular que aparecia nas tabelas de então, as canções de Dylan incorporavam um peso intelectual que atraía uma audiência mais sofisticada, gente que ouvia música sentada em sofás enquanto fumava substâncias nem-sempre-legais e dissertava sobre o sentido da vida e o peso da existência. Dylan não valia só pela música, valia também pela poesia e pela mensagem.
Bob Dylan mudou tudo e é a ele que devemos uma quantidade astronómica da nossa música preferida, mesmo a que não foi composta por ele. Nem os Beatles seriam quem nós conhecemos hoje se não fosse Dylan. Foi ele quem convenceu John Lennon a deixar os "I love you"s e a dar outra profundidade e realidade à sua música, isto depois de lhe apresentar o charro.
Dylan anunciava em 1964 que os tempos, eles estavam a-mudar. Em 2016, eles estão a-mudar mais ferozmente que nunca e é por isso que importa que se reconheçam os génios e se separe o trigo do joio no meio de todo este ruído da tecnologia e das redes sociais. Este Nobel é totalmente merecido e vem no momento certo. Muito bem, Academia.
Agora falta o Lobo Antunes. E já agora, o Bruce Springsteen.
terça-feira, 11 de outubro de 2016
Vamos lá falar nos Bon Jovi
Os Bon Jovi têm um tema novo. E é mau que dói.
Não, esta não é mais uma crónica a desancar nos Bon Jovi como uma banda foleira, kitsch, ou outro chavão qualquer que se habituaram a ler na imprensa. Nem eu me atreveria a tal heresia, por dois motivos: em primeiro lugar, porque tenho amor à vida e não me quero meter com os fãs portugueses da banda, que são em tal número (58.5 mil no Facebook!) que em jogos de Champions mal cabiam no Estádio da Luz e tão poderosos que em 2011 obrigaram a Zon / Nos a retirar um anúncio do ar; em segundo, porque isso simplesmente não é verdade. Ao contrário do que vos fizeram crer, Bon Jovi rocks. Sim, é música despretensiosa, invariável e despida de múltiplas layers de interpretação. Mas e depois? It's a lot of fun. Cantar o refrão de "Livin' On A Prayer" a plenos pulmões não é só um cliché do Plateau: é terapêutico.
Não tenho problema nenhum com o Hair Metal. Da mesma forma que gosto de deprimir com uns Joy Division, também preciso do hedonismo stripper de um "Pour Some Sugar On Me", ou da simples pieguice de um "Love Bites". E por que não? Até os (sobreviventes) JD precisaram de sair da penumbra e formaram os New Order. Não andei no liceu na época, por isso sou imune aos preconceitos do status quo de então, olho para tudo com maior distância emocional. Aliás, toda a gente parece divertir-se tanto com as suas fartas permanentes nos videoclips dos anos 80, que não raramente eu fantasio em fazer uma, se tal fosse socialmente aceitável em 2016. Mas divago. Voltemos aos Bon Jovi.
De banda de proa de Hair Metal e ídolos Pop dos anos 80, os Bon Jovi metamorfosearam-se em standards clean dos 90s, munidos de Ray-Bans, cabelo liso (lá se foi a permanente) e vídeos em tons de sépia. Nesta transformação, os Bon Jovi mantiveram-se sempre os Bon Jovi, cool à sua maneira suburbana, sempre a tentar rescrever a mesma música, uma e outra vez, sem nunca venderem a sua sonoridade à moda vigente. E o mundo continuou a amá-los por isso. Eu pelo menos continuei.
Depois vieram os 00s e os Bon Jovi conseguiram a proeza de voltar aos liceus com "It's My Life" (desta vez quem lá andava era eu) - adivinhem como - ao continuarem a ser os Bon Jovi. "It's My Life" era uma cópia de "Livin' On A Prayer", mas era isso mesmo que o público queria. Havia diferenças: desta vez o vídeo começava com um jovem a escrever um e-mail (o advento da internet!) e, claro está, já não havia permanentes no cabelo (tirando o teclista David Bryan, que se manteve como o bastião Hair Metal da banda). De resto, a receita foi a mesma de sempre. O que me leva até ao dia de hoje, quando ouvi o novo single da banda de New Jersey, "Born Again Tomorrow". Parece que os Bon Jovi decidiram, finalmente, inovar. E o resultado é trágico.
O primeiro single do novo álbum "This House Is Not For Sale", com o mesmo nome, foi lançado em Agosto e era Bon Jovi em piloto automático. Tudo na mesma, parecia apenas um pretexto para voltar às digressões. "Born Again Tomorrow" mostra uns Bon Jovi diferentes; diferentes, na medida em que me pela primeira vez me apeteceu cravar uma lapiseira nos ouvidos ao ouvir Bon Jovi.
Em "Born Again Tomorrow", Jon Bon Jovi decidiu "modernizar" a sonoridade da banda, que é o mesmo que dizer que decidiu que a banda devia soar igual a tudo o resto que passa na rádio. Por outras palavras, decidiu Coldplayzar os Bon Jovi. Há ali a meio um solo de guitarra de 10 segundos que soa mais ou menos a Bon Jovi, mas de resto, aquilo soa tanto a Coldplay que parece que a qualquer momento vai sair um "'cos you're a skaaaay, 'cos you're a skaaaay". Até dói.
Jon Bon Jovi parece perdido desde que o guitarrista da banda Richie Sambora se foi embora em 2013. Pelos vistos, Richie era a alma da banda e tinha um papel muito mais importante do que poderíamos pensar (e sempre teve bom gosto). O que se passa com Jon? O desespero para voltar aos liceus é assim tão grande? Será que o convenceram que para tocar na RFM, é preciso soar como a toda a trampa que lá passa? Um dia Jon disse que a diferença entre tocar em arenas e em estádios era um "hit single". Mas isso foi há duas décadas. Os anos provaram que os Bon Jovi não precisam disto para encher as grandes salas, até porque nos estádios ninguém quer ouvir as músicas novas. Querem os clássicos de peito cheio, querem o Richie de volta (por favor) e querem os Bon Jovi iguais ao de sempre. Até porque, se a inovação é isto, mais vale estarem quietos.
Não, esta não é mais uma crónica a desancar nos Bon Jovi como uma banda foleira, kitsch, ou outro chavão qualquer que se habituaram a ler na imprensa. Nem eu me atreveria a tal heresia, por dois motivos: em primeiro lugar, porque tenho amor à vida e não me quero meter com os fãs portugueses da banda, que são em tal número (58.5 mil no Facebook!) que em jogos de Champions mal cabiam no Estádio da Luz e tão poderosos que em 2011 obrigaram a Zon / Nos a retirar um anúncio do ar; em segundo, porque isso simplesmente não é verdade. Ao contrário do que vos fizeram crer, Bon Jovi rocks. Sim, é música despretensiosa, invariável e despida de múltiplas layers de interpretação. Mas e depois? It's a lot of fun. Cantar o refrão de "Livin' On A Prayer" a plenos pulmões não é só um cliché do Plateau: é terapêutico.
Não tenho problema nenhum com o Hair Metal. Da mesma forma que gosto de deprimir com uns Joy Division, também preciso do hedonismo stripper de um "Pour Some Sugar On Me", ou da simples pieguice de um "Love Bites". E por que não? Até os (sobreviventes) JD precisaram de sair da penumbra e formaram os New Order. Não andei no liceu na época, por isso sou imune aos preconceitos do status quo de então, olho para tudo com maior distância emocional. Aliás, toda a gente parece divertir-se tanto com as suas fartas permanentes nos videoclips dos anos 80, que não raramente eu fantasio em fazer uma, se tal fosse socialmente aceitável em 2016. Mas divago. Voltemos aos Bon Jovi.
De banda de proa de Hair Metal e ídolos Pop dos anos 80, os Bon Jovi metamorfosearam-se em standards clean dos 90s, munidos de Ray-Bans, cabelo liso (lá se foi a permanente) e vídeos em tons de sépia. Nesta transformação, os Bon Jovi mantiveram-se sempre os Bon Jovi, cool à sua maneira suburbana, sempre a tentar rescrever a mesma música, uma e outra vez, sem nunca venderem a sua sonoridade à moda vigente. E o mundo continuou a amá-los por isso. Eu pelo menos continuei.
Depois vieram os 00s e os Bon Jovi conseguiram a proeza de voltar aos liceus com "It's My Life" (desta vez quem lá andava era eu) - adivinhem como - ao continuarem a ser os Bon Jovi. "It's My Life" era uma cópia de "Livin' On A Prayer", mas era isso mesmo que o público queria. Havia diferenças: desta vez o vídeo começava com um jovem a escrever um e-mail (o advento da internet!) e, claro está, já não havia permanentes no cabelo (tirando o teclista David Bryan, que se manteve como o bastião Hair Metal da banda). De resto, a receita foi a mesma de sempre. O que me leva até ao dia de hoje, quando ouvi o novo single da banda de New Jersey, "Born Again Tomorrow". Parece que os Bon Jovi decidiram, finalmente, inovar. E o resultado é trágico.
O primeiro single do novo álbum "This House Is Not For Sale", com o mesmo nome, foi lançado em Agosto e era Bon Jovi em piloto automático. Tudo na mesma, parecia apenas um pretexto para voltar às digressões. "Born Again Tomorrow" mostra uns Bon Jovi diferentes; diferentes, na medida em que me pela primeira vez me apeteceu cravar uma lapiseira nos ouvidos ao ouvir Bon Jovi.
Em "Born Again Tomorrow", Jon Bon Jovi decidiu "modernizar" a sonoridade da banda, que é o mesmo que dizer que decidiu que a banda devia soar igual a tudo o resto que passa na rádio. Por outras palavras, decidiu Coldplayzar os Bon Jovi. Há ali a meio um solo de guitarra de 10 segundos que soa mais ou menos a Bon Jovi, mas de resto, aquilo soa tanto a Coldplay que parece que a qualquer momento vai sair um "'cos you're a skaaaay, 'cos you're a skaaaay". Até dói.
Jon Bon Jovi parece perdido desde que o guitarrista da banda Richie Sambora se foi embora em 2013. Pelos vistos, Richie era a alma da banda e tinha um papel muito mais importante do que poderíamos pensar (e sempre teve bom gosto). O que se passa com Jon? O desespero para voltar aos liceus é assim tão grande? Será que o convenceram que para tocar na RFM, é preciso soar como a toda a trampa que lá passa? Um dia Jon disse que a diferença entre tocar em arenas e em estádios era um "hit single". Mas isso foi há duas décadas. Os anos provaram que os Bon Jovi não precisam disto para encher as grandes salas, até porque nos estádios ninguém quer ouvir as músicas novas. Querem os clássicos de peito cheio, querem o Richie de volta (por favor) e querem os Bon Jovi iguais ao de sempre. Até porque, se a inovação é isto, mais vale estarem quietos.
quinta-feira, 29 de setembro de 2016
Apocalipse, Soul e Cocaína - Bowie vai para a América
Na sequência da fabulosa caixa "Five Years (1969 – 1973)" (que eu tenho lá em casa em formato vinil), que compreendia os primeiros anos da carreira de David Bowie e o seu período Ziggy, chega agora o volume seguinte: "Who Can I Be Now? (1974 – 1976)". Antes de mais, louvo a intenção do campo de Bowie, que assim pode organizar a caótica e difusa discografia de David Bowie e com isso, pode também encher os bolsos uma vez mais com a obra que o alien mais terráqueo nos deixou.
Incluídos nesta nova caixa, estão os álbuns do período de charneira de David Bowie, que fazem a ponte entre a fase Glam Rock de Ziggy ao período de fusão electrónica de Berlim: "Diamond Dogs", "Young Americans" e "Station To Station". E é aqui reside o grande senão deste set. Em virtude de consistência temática, isto é, para não cortar a meio nenhuma das diferentes fases da carreira de Bowie, "Who Can I Be Now" contém apenas três álbuns originais, contra os seis de "Five Years". É muito pouco "value for money". "Mas não têm ambas o mesmo número de discos?", perguntar-me-ão. Ter, têm, mas estes estão espalhados por "David Live" (duas misturas: 3LP + 2LP), "Live At Nassau Colisseum" (2LP), uma versão alternativa de "Station To Station" e, como já devem saber se chegaram até aqui, "The Gouster".
"The Gouster" foi promovido como um álbum "novo", não editado, uma jóia perdia de David Bowie e como o grande atractivo de "Who Can I Be Now". Calma. "The Gouster" tem o seu interesse, já lá vamos, mas não é mais que uma versão arcaica do que viria a ser "Young Americans".
Poderão estar a pensar que este período de Bowie entre Londres e Berlim, retratado nesta caixa, é de somenos. Nada disso. Na verdade, o "período americano" deu origem a uma das suas obras-primas, o superlativo e em doses iguais perigoso e maravilhoso "Station To Station". Não tenho aqui espaço para falar muito de STS (ide aqui), a não ser que é um dos álbuns da minha vida e se não é da vossa, é porque ainda não o ouviram muito bem.
Estes foram os anos que viram David Bowie a fascinar-se pela América e a injectá-la alarvemente na sua música. No apocalíptico "Diamond Dogs", inicialmente pensado para uma produção teatral de "1984" de Orwell (a utilização dos direitos foi recusada), ainda cheiramos Ziggy em "Rebel Rebel", mas o aroma ao Soul de Filadélfia já começa a dominar lá mais para o Lado B. Pessoalmente, não é o meu álbum preferido de Bowie (há tanto por onde escolher), mas atentem na intensidade da sequência "Sweet Thing" / "Candidate" / "Sweet Thing (Reprise)". É um dos pontos altos da sua discografia.
Fascinado pela América e cego na sua obsessão pela música Soul desta altura, David resolve fazer um golpe de harakiri à sua carreira: lançar um álbum de Soul. "Classic Bowie", dizemos hoje entre sorrisos. Na altura, o público deve ter ficado baralhado. David agregou uma banda que pudesse tocar a música que queria ouvir (entre eles, um tal de Carlos Alomar), alugou um estúdio em Filadélfia em Agosto de 1974 e mergulhou a fundo na sua nova sonoridade. As primeiras tentativas das sessões Soul deram origem a "The Gouster" - "40 minutos de funk glorioso", como lhe chamou Tony Visconti, o produtor de sempre de David. O "álbum Soul" conheceu diversas iterações, com diferentes baptismos - "Dancin'", "One Damn Song", "Fascination", ou "Somebody Up There Likes Me" - mas ainda não era "isto" que Bowie queria. Até que em Janeiro de 1975 apareceu em estúdio um tal de John Lennon e gravou com David dois temas: "Fame" e uma nova versão de "Across The Universe". Nascia assim "Young Americans".
No fim do ano, Bowie mudou de Costa e foi para Los Angeles, onde se afundou na coca. Do buraco, saiu "Station To Station". Daí, foi curar-se para Berlim. O resto saberemos na próxima caixa.
domingo, 11 de setembro de 2016
Nick Cave — Em nome do Pai
Nick Cave conversa com a morte, com Deus e com o filho que perdeu no ano passado
Não estou qualificado para falar sobre o que é para um Pai, a dor de perder um filho. Não sei, nem tenho intenção de saber o que é, só imagino que seja o pior dos pesadelos. Materializar essa dor num disco foi a tarefa a que Nick Cave se propôs, depois da morte do seu filho de 15 anos, que caiu de uma falésia em Brighton após ter experimentado LSD pela primeira vez. Era uma tarefa mastodôntica com tanto de coragem, como de insanidade. Insanidade, pelo que acarreta fazer um álbum sobre a morte de um filho; coragem, por expor desta maneira despida a sua própria desgraça.
Quando ouvi a primeira amostra do álbum — "Jesus Alone" — na semana passada, fiquei esmagado. Debaixo de uma cortina negra de sintentizadores a puxar os limites dos graves, intercalados por gemidos de quem roga por salvação, Nick leva-nos directamente para o penhasco onde a tragédia aconteceu. Num niilismo agressivo e assustador, Nick lamenta-se que a sua fé em Deus de nada lhe valeu, como quem se apercebe da sua condição solitária no Universo. A tristeza, escuridão e aridez de "Jesus Alone" pinta uma tundra desoladora. Mas se a motivação daquela canção era óbvia, esperava que Nick desse tréguas ao ouvinte no resto do álbum. Enganei-me.
"Skeleton Tree" agarra-nos pelo pescoço e ao longo dos 40 minutos da duração do álbum, não nos dá descanso. Nesta árvore de esqueletos, somos arrastados numa viagem até ao último ramo do luto de Nick Cave, onde o ouvimos conversar com a morte, com Deus e com o filho. Aqui, a dor é tão real ("nothing really matters when the one you love is gone"— "I Need You"), tão gráfica ("in the bathroom mirror I see me vomit in the sink" — "Magneto"), tão visceral ("all the things we love, we lose" — "Anthrocene"), que chega a ser palpável nos sulcos do disco. É um álbum pesado, sombrio e agressivamente pessoal, de escuta difícil. Mas é tão bonito.
Nick Cave é um dos grandes compositores do nosso tempo (recordem o brilhante "Push The Sky Away" de 2013) e parece aprimorar a sua arte com a idade e — para mal dele — com o seu próprio sofrimento. A desgraça de Nick Cave é a nossa sorte, por conseguir canalizar o seu luto de Pai em música e nos abençoar com um álbum destes — um confessionário onde pôde libertar os seus próprios traumas. Espero que, pelo menos, a música lhe tenha servido de terapia. Um abraço, Nick.
segunda-feira, 5 de setembro de 2016
O que veio primeiro? A música ou a miséria?
A banda sonora que engrandece as nossas vidas
A pergunta é feita por John Cusack no filme "High Fidelity" e tem muito que se lhe diga. Dono de uma loja de discos e de uma vasta colecção de vinil organizada autobiograficamente, John Cusack representa uma visão acabada do melómano-coleccionador, romântico-obsessivo, apaixonado pelo sexo oposto e pela música em partes iguais e complementares. Tão bem que o compreendo.
É pertinente, a sua reflexão melómano-existencialista. Será que ouvimos música porque nos sentimos miseráveis, ou sentimo-nos miseráveis porque ouvimos música? Preocupamo-nos tanto com a exposição das crianças ao sexo e à violência (pelo menos teoricamente; na prática, basta ligar a televisão para perceber que é uma treta, não é CMTV?), mas ninguém reflecte sobre a permanente exposição a música sobre rejeição, dor e miséria. Quando usamos a música para lidar com o que nos atormenta, será que nos cura da dor, ou prolonga o nosso sofrimento? Parece uma charada reminiscente do ovo e da galinha, mas — se quisermos aplicar a sabedoria popular — eu diria que é mais um caso de pescadinha de rabo na boca.
Se não fosse a música, os psicólogos e os psiquiatras teriam muito mais trabalho
Não há paciência para ouvir o "Happy" do Pharrel, depois de uma segunda-feira de trânsito caótico e chefe insuportável, à espera de uma mensagem dela que nunca chega. À saída do trabalho, toca o telemóvel — uma mensagem! "Hoje não dá", diz. "Happy"? Tenho lá paciência para alegrias. "It's laughter I disdain", dizia muito bem o Paul Simon. O que apetece mesmo é chegar a casa, chutar os sapatos à porta e pôr The Smiths, preferencialmente um tema ermo do "Hatful Of Hollow", só para calcar mais o estado de espírito e curtir a depressão. É um ciclo vicioso: quanto mais em baixo estou, mais down é a música que quero ouvir.
E se estiver mesmo na merda, então só lá vou com algo violentamente niilista dos Godspeed You! Black Emperor, a pintar um cenário apocalíptico onde as bandeiras estão todas mortas no cimo das hastes. Não me tira do buraco, mas é a terapia que tenho à mão. Se não fosse a música, os psicólogos e os psiquiatras teriam muito mais trabalho.
Então e se o dia correr bem? Sexta-feira soalheira, almoço com ela na praia e o trabalho todo feito. Nesse caso, sim, já apetece pôr uns Duran Duran e abrir a janela do carro para curtir um ventinho na cara. Ou puxar de uns Deep Purple e carregar no acelerador na auto-estrada. Ou o melhor talvez seja ir buscar aquela mixtape dos Radiohead e recordar como eram bons os tempos gloriosos da depressão.
Moral da história? Não interessa quem veio primeiro, se a música, se a miséria. A música, como a vida, é o que quisermos dela. Mas a soma de ambas resulta numa vivência intensa e cinemática que nos esconde e protege do marasmo da realidade. E é sempre melhor ter música, que não ter. Porque todos os filmes ficam engrandecidos com uma banda sonora, mesmo se esse filme for a nossa vida mundana.
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