quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Plágio, inspiração ou ganância? - O Rock N' Roll em julgamento

Quando Led Zeppelin, Pharrell Williams e The Verve vão ao palco do tribunal

Muito pouco se tem passado no mundo da música. Com a queda dos bad boys que entretinham o nosso quotidiano mundano (temos que ser politicamente correctos, não é?) e com a míngua de novas "bandas-marca" que vendem t-shirts e enchem estádios, a indústria sofre e isso reflecte-se tanto na tão falada queda de vendas, como na falta de assunto nas publicações musicais. Têm seguido o feed da NME e da Rolling Stone? Pois. Notícias requentadas e histórias sobre cinema e séries para encher o mural. Se até o Cid foi obrigado a pedir desculpas - e a chorar - por causa de uma brincadeira, numa das cenas mais indecorosas por que já vi passar uma estrela Rock, vai ficar muito difícil a sobrevivência destas publicações.

Não alheio ao assunto da falta de assunto está a nova moda dos processos por plágio. Uma das (poucas) notícias deste Verão foi o processo movido aos Led Zeppelin pelos Spirit, por alegadamente terem copiado a introdução acústica de "Stairway To Heaven" (de 1970), a partir do instrumental "Taurus" de 1968. Os Led Zeppelin abriram para os Spirit na sua primeira digressão americana e isso deixou sempre Randy California (vocalista e guitarrista dos Spirit e autor de "Taurus") com a convicção que Stairway era dele e melindrado por não lhe ter sido dado o crédito, "nem sequer um telefonema de agradecimento". Randy morreu em 1997 e agora foi a família, em posse dos direitos de autor do falecido guitarrista, quem processou à banda britânica.

O julgamento já terminou e absolveu os Led Zeppelin das acusações de plágio. E ainda bem. Ainda bem, porque os Led Zeppelin não copiaram os Spirit? Claro que copiaram! Mas o gamanço faz parte do Rock N' Roll. Que seria do Rock N' Roll sem o "empréstimo" (para lhe dar um nome mais leve) de melodias? Quantas progressões de acordes são possíveis? É um número finito. Quantas vezes as mesmas progressões harmónicas foram repetidas e copiadas? É um número infinito. Porque é que de todos os "empréstimos", foi o "Stairway To Heaven" que foi a tribunal? Porque é aqui que está o dinheiro.  Que maneira mais fácil de fazer dinheiro do que mover um processo contra uma mega-banda por causa de uma mega-canção? E é isto.

"Stairway To Heaven" é muito mais que "só" uma canção, é uma marca em si mesma. Na verdade, o historial de "empréstimos" dos Zeppelin é muitíssimo mais vasto e com casos bem mais evidentes que Stairway. Mesmo relativamente a "Stairway To Heaven", outros se poderiam queixar. Dêem uma passagem pelos links para ouvirem alguns casos pelos vossos ouvidos e tirarem as vossa conclusões.
A questão que importa colocar não é se os Zeppelin roubaram ou não esta ou aquela parte de músicas deste ou daquele artista para criarem a sua própria obra. A verdadeira questão é: e depois? Vamos agora limitar a música num sistema finito e fechado, sem lugar à inspiração por parte de terceiros? Já nem vou falar na subjectividade que acarreta tal apreciação. Se toda a gente for processar toda a gente, para além de se abrir um novelo sem fim, acaba-se com a música Rock de vez.

A sentença no caso Led Zeppelin é por isso justa e esperada. Inesperada, foi a sentença no caso de plágio movido a Pharrell Williams pela família de Marvin Gaye por causa de "Blurred Lines", onde Pharrell foi considerado culpado e obrigado a pagar milhões aos filhos de Marvin. Integridade artística? O tanas. Tal como no caso dos Zeppelin, foi a família - e não o próprio artista - a mover o processo. E porquê? Dinheiro, claro está. Muito. É que "Blurred Lines" foi "só" a canção mais tocada de 2013, tornando-se um dos singles mais vendidos de sempre, com quase 15 milhões de cópias. O problema é que este caso abriu um precedente gravíssimo, que felizmente não foi respeitado no julgamento "Stairway To Heaven".

Outro precedente já aberto foi o vergonhoso processo dos Rolling Stones contra os The Verve nos anos 90, devido a "Bitter Sweet Symphony". Tudo por causa de um sample de uma versão de "The Last Time" cuja utilização, imagine-se, eles próprios tinham autorizado, pese embora o arranjo tenha sido escrito por outro músico. Quando Symphony se tornou um fenómeno de popularidade em todo o mundo durante 1997 e 1998, a editora dos Stones mudou de ideias e achou que Richard Ashcroft havia, afinal, "abusado" no uso do sample que, ironicamente, nem sequer faz parte da versão original de "The Last Time". A editora processou-o pelos créditos do tema e ganhou. Todo o dinheiro ganho com "Bitter Sweet Symphony", retroactivos incluídos, vai agora para as contas dos Stones. Como se todo o dinheiro do mundo não fosse já suficiente para Mick e Keith. Pura ganância.

Quem não se lembra do "Anzol" dos Rádio Macau e da sua inusitada semelhança com "Just Like Heaven" dos The Cure, lançada uns meses antes? (offtopic: o quão badass é a Xana neste vídeo e 1988?) Estão a ver o Robert Smith a processar o Flak pelos direitos do "Anzol" e respectivos lucros das vendas dos Rádio Macau? Pois.

terça-feira, 26 de julho de 2016

David Gilmour em Pompeia: depois disto, não há mais nada para ver

Qualquer superlativo encontrado neste texto é pura realidade


Foi como um sonho. Um sonho bom. Um daqueles sonhos de onde não queremos acordar e quando o maldito despertador toca, metemos o snooze para tentar voltar ao ponto onde ficámos, nem que seja só por mais 5 minutos.

Podia dizer que "não há palavras para descrever" este sonho, mas como essa expressão é normalmente seguida de um longo discurso descritivo, vou poupar-vos a contradições retóricas. Há muito para dizer. Começo por vos confessar uma heresia: não costumo falar com Deus. Isso deve-se a vários factos que se sucederam ao longo da minha vida, entre os quais aquele penálti assinalado a um mergulho do Jardel, que me levou a concluir que Deus - a existir - estava a fazer um péssimo trabalho ao pactuar com injustiças daquele calibre. Hoje reconheço que talvez tenha sido injusto, uma vez que Deus naquela altura estaria mais preocupado a preparar os concertos no Royal Festival Hall.

O cenário em Pompeia exigia que eu voltasse a fazer contacto com Ele: eu estava à espera em pé há mais de 7 horas, debaixo de uma sauna de 35 graus e já tinha transpirado uma garrafa de água de litro e meio; no delírio do momento da abertura de portas, com o meu coração a mil e os carabinieri a ameaçarem quem corresse para o Anfiteatro das ruínas de Pompeia, eu falei com Ele e pedi-Lhe (falando a Sua língua) "please, please, please, let me get what I want this time" (presumo que Deus goste dos The Smiths). Queria ficar na fila da frente; queria ser, por uma vez na vida, um dos maluquinhos das grades.

O sonho tornou-se realidade.

David Gilmour ao vivo em Pompeia, visto da fila da frente. Como é que foi? Vou ser directo: foi o melhor dos melhores de todos os tempos, a milhas de distância do segundo classificado. Se me leram mais que uma vez, saberão da minha tendência para o superlativo, principalmente quando se trata de música. Mas acreditem, isto é diferente. Lembram-se das estórias de Paris e de Pula? Das melhores noites da minha vida e o camandro? Esqueçam. Foi tudo pulverizado por esta noite.

Foi tudo perfeito: a música, o espaço, o espectáculo de luz, lasers e fogo de artifício e claro, o spot frontal. Mas o toque de génio só chegou quando aconteceu o impensável: o David irritou-se. Tudo porque um grupo à frente gritava insistentemente por "Echoes", mesmo sabendo à partida que o épico de "Meddle" não iria ser tocado. David perdeu as estribeiras e deu um raspanete à audiência: "O Rick [teclista dos Pink Floyd] está morto, não vou tocar mais o "Echoes"". E por momentos ficou um ambiente esquisito.
Depois, aconteceu magia. Como mostra a História, é quando se zanga que Gilmour está no seu melhor. Outrora instigado pelas tensões com Roger Waters, ali pelo seu próprio público, David vingou-se na sua guitarra, golpeando-a a cada acorde em performances épicas de "Sorrow" e "Comfortably Numb".

Faltava o melhor da noite.

Depois do habitual ritual de despedida de David (chama a banda, fazem uma vénia conjunta e saem), este regressou sozinho para a frente do palco e, talvez apercebendo-se da importância do momento (foi o primeiro espectáculo com público desde que as ruínas foram desenterradas), David fez o que nunca o vira fazer: bateu palmas a um público que só pecou pelo entusiasmo a roçar no fanatismo.
Foi aqui que também eu tive o "meu" momento. Aos meus gritos histéricos de "I LOVE YOU, DAVID! I LOVE YOU, DAVID! I LOVE YOU, DAVID!", enquanto vestia um sorriso a tocar nas orelhas e gesticulava o lançamento do meu coração na sua direcção, ele deixou-se rir e fez uma vénia dizendo "thank you". Obrigado eu, David. Obrigado eu. Que tempo glorioso para se estar vivo.

Vamos pôr as coisas nestes termos: depois disto, sinto que já não há mais nada para ver.

(OK, entretanto já fui ao SBSR mas um que é um gajo há de fazer? Passar fome porque comeu o melhor bife do mundo?)

segunda-feira, 18 de julho de 2016

A noite escaldante de Iggy Pop

Ao segundo dia, o Super Bock Super Rock 2016 ferveu


Se a primeira jornada do Super Bock Super Rock 2016 tinha sido um pouco morna, a segunda noite do festival alinhou o diapasão com a temperatura que se fazia sentir junto ao Tejo — foi escaldante.
O Palco Super Bock começou com os Bloc Party, num concerto ainda a meio gás. Foi um início tépido com as bancadas despidas e uma plateia que não passava da mesa de som, onde só as filas da frente pareciam aderir. A reviravolta no marcador deu-se em "Banquet", o hit balsâmico de que todos estavam à espera para soltar voz e braços no ar. O entusiasmo manteve-se na recta final do concerto com "Helicopter" e "Ratchet" e, como na tropa, fica a sensação que só no fim é que o púbico ficou preparado para receber a banda de Kele Okereke.

Para o que ninguém estava preparado, era para o que viria a seguir. Em 2016, já não há muitas lendas do Rock para ver. Uns já nos deixaram, outros ficaram e murcharam, poucos valem o valor do bilhete que cobram. A organização do SBSR agarrou um dos poucos que sobram e esperava que fosse um dos pratos fortes do festival. Mas com certeza que não estava à espera do que se passou ontem.
Apresentando-se na sua indumentária habitual, ou seja, sem indumentária (devido àquela condição clínica que não lhe permite vestir uma t-shirt), Iggy Pop chegou e logo carregou a fundo no pedal com dois clássicos dos Stooges — "No Fun" e "I Wanna Be Your Dog". Cerveja a voar, Iggy a cuspir, público a saltar, mosh, crowdsurfing, este é o meu povo e é disto que o meu povo gosta. É só Rock N' Roll, mas nós gostamos.
Por esta altura, já o Meo Arena estava muito e bem composto. E quem disse que o Rock é coisa de homens? A plateia estava cheia de roqueiras giras e roqueiras giras são como as crianças: são o melhor do mundo.
Visivelmente injectado pela vibração que o público lhe retribuía, Iggy continuou prego a fundo numa auto-estrada insana de setlist, a passar por "The Passenger", "Lust for Life", "Sixteen" (todos do álbum "Lust For Life"), "1969" dos Stooges, ou "Sister Midnight" do (maravilhoso) "The Idiot", prólogo da trilogia de Berlim de David Bowie. Mas o ponto alto da noite estava guardado para o tema seguinte.  Iggy deixou o aviso: "I can't slow down, I'm not like you, I'm a real wild one". Quem olha para ele, um homem de 69 anos que levou uma vida a alta velocidade e que ainda aparenta ter mais gás que qualquer um de nós, percebe que ele não está a mentir. Está nos olhos dele e acima de tudo, está nas gloriosas pregas que apresenta no torso, cicatrizes de muitas batalhas travadas no passado. Depois do aviso, rebentou "Real Wild Child" e rebentou o motim no público. Pés no ar, mosh intenso — o meu primeiro desde que parti o pé em The Prodigy no Alive do ano passado (desta vez só rebentei os ténis) — e muita transpiração. A loucura total. O próprio Iggy mostrou-se surpreendido com a reacção e antes de acalmar os ânimos com o drum loop de "Nightclubbing" (mais uma malha de "The Idiot") disse e passo a citar: "fuck, fuck, fuck, fuck, fuck, fuck, fuck, fuck, fuckin' motherfuckers!". Tudo dito.
Iggy fechou o concerto com "Search And Destroy" dos Stooges e a casa voltou a ir abaixo (e eu dei um high-five ao Iggy!). Que Rei. Depois da saída da banda, Iggy ainda ficou no palco uns bons minutos a adorar o seu reino, em poses triunfais de quem percebeu ter feito uma coisa maravilhosa ali, naquele momento, em comunhão com o seu povo. Olhando à minha volta, todos pareciam contagiados por um sorriso idiota de quem também tinha percebido a importância daquele momento. Que concerto. Que noite. É para viver estes momentos que um gajo vive. Ao segundo dia, o Super Bock Super Rock 2016 a escaldar.

O Palco Super Bock fechou o segundo dia com os Massive Attack, acompanhados pelos Young Fathers. A banda de Bristol trouxe a Lisboa um espectáculo irrepreensível, hipnotizante, de longe o melhor a nível visual no SBSR e ainda conseguiu a proeza de pôr o Meo Arena a soar bem. Foi um espectáculo de 2016 para 2016: à mesma hora que acontecia um golpe militar na Turquia, já as projecções davam conta do sucedido no palco.
Foi um concerto dado para as bancadas (cheias), com os êxitos (poucos) guardados para o fim: "Safe From Harm" e "Unfinished Sympathy", docinhos para alegrar as hostes que só entraram em apoteose quando apareceu nos ecrãs que Portugal é Campeão Europeu. Foi bom, mas um anti-clímax para o que se viveu umas horas antes. Mas depois da descarga de adrenalina em Iggy Pop, o que se podia esperar?

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Concertos mornos em noite abrasadora junto ao Tejo

Os destaques do primeiro dia do Super Bock Super Rock 2016 foram The National e... Éder

O Super Bock Super Rock apresentou-se em 2016 com algumas novidades e na maioria dos casos, para melhor. O local é o mesmo, mas a organização preocupou-se – e bem – em limar várias arestas do ano passado. Em primeiro lugar, desapareceu aquela obscena zona VIP que ocupava uma faixa gigantesca do lado esquerdo do palco (e que só era ocupada quando o artista tirava um hit da mala). Depois, trouxeram aqueles copos cool que não só diminuem exponencialmente o lixo, como são também boas recordações para levar para casa (quem é que não prefere beber cerveja de um copo com o nome do Iggy Pop?). Sim, é um hassle ter que andar com o copo na mão toda a noite, mas enfim, não se pode ter tudo. Agora, a música.

A contrastar com a brasa que se fazia sentir junto ao Tejo, a primeira noite do festival foi apenas morna. A minha começou com Kurt Vile no Palco EDP. Com dois álbuns superlativos na bagagem ("Wakin on a Pretty Daze" de 2013 e "b'lieve I'm goin down..." de 2015) e uma carreira que já conta com 10 anos e uma passagem pelos The War On Drugs (que fundou com Adam Granduciel), Kurt Vile chegava a Lisboa com a fasquia muito alta e a responsabilidade de abrir as hostes. Mas apesar das minhas expectativas, Kurt não correspondeu. Talvez por causa do espaço aberto, talvez por causa da luz natural que ainda raiava, talvez por causa do público que ainda estava enferrujado na madrugada do festival. Não sei. Mas Kurt só conseguiu conquistar a audiência quando sacou de "Pretty Pimpin", o primeiro momento de apoteose do SBSR 2016 (consta que a apoteose foi tal, que houve meninas em topless, mas como eu estava concentrado no palco, pics or it didn't happen). No resto, enquanto Vile vagueava entre o Neil Young caótico e o Bruce Springsteen poético (com direito a um cover personalizado de "Downbound Train"), o público não aderiu. Pena. Espero vê-lo cá mais vezes.

Seguiu-se The National no Meo Arena, outrora Pavilhão Atlântico e por estes dias, Palco Super Bock. À chegada, um cenário deprimente: meia casa. A plateia em pé não passava a mesa de som, apesar do Balcão 1 estar composto (com o avançar do concerto, a metade traseira da arena também se foi salpicando). Mas é como diz o povo: "poucos mas bons". Quem lá esteve, vibrou à grande; bateu palmas, cantou as músicas de trás para a frente e de tal forma, que em partes o público ouvia-se em maior volume que o próprio Matt Berninger. Impressionante. No fim, Matt retribuiu com um crowdsurfing, um carinho para a poderíssima fanbase portuguesa dos The National. É evidente que a banda joga em casa em Portugal e não admira por isso que eles voltem todos os anos.
Para mim, foram uma revelação. Confesso que durante anos não dei a devida atenção aos The National e nem consigo explicar porquê, tanto que tinha as orelhas as escaldar de ouvir amigos clamarem a sua excelência. Talvez tenha sido isso, achava exagerado o culto. Ontem converti-me.
Agora, a parte chata: na parte final, com os êxitos vieram os telemóveis para cima. Malta, já estamos em 2016 e o êxtase das câmaras nos telemóveis já devia ter amainado. Quantas vezes é preciso dizer e em quantas formas é preciso escrever para que baixem a porra dos telemóveis. Uma foto, ok. Um vídeo de 30 segundos para o insta, ninguém leva a mal. Musicas inteiras, pá, não.

Voltando ao EDP para Jamie XX, vê-se o palco muito bem composto. O público, digo. No palco só está mesmo Jamie, num DJ Set glorificado que, faça-se justiça, arrancou muito entusiasmo do público (então era aqui que eles estavam!). Não foi propriamente um Avicii, até porque a música que saía das colunas era incomparavelmente melhor (o álbum "In Colour" foi um dos melhores do ano passado), mas não sei se podemos classificar aquilo de música "ao vivo". A escolha musical de Jamie andou entre o piso de cima e o piso de baixo do Lux. Nos melhores momentos, esteve no piso de cima, como em "Loud Places", com a voz dos The XX, Romy Madley Croft.
À saída, cantou-se a plenos pulmões e com afinação apurada que "foi o Éder que os fodeu". Mais do que a música e à falta de concertos lendários, foi ainda a ressaca da vitória da Selecção no Europeu que trouxe a euforia ao Parque das Nações, numa noite gloriosamente abrasadora.

A fechar a noite, os Disclosure no Meo Arena, agora transformado em discoteca: casa cheia na plateia em pé e bancadas despidas. Estava lá eu que, mesmo com o House castigador que saía das colunas, ouvia cristalinamente um ruído de conversa vindo de toda a plateia a sobrepôr-se à música. Como quem estava lá em baixo, também eu só queria conversar e por isso fui para o bar terminar a minha noite.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Adeus, David Gilmour

As horas angustiantes que antecedem o regresso a Pompeia

No último ano ano vi o David Gilmour ao vivo por 5 vezes em 3 países diferentes: Pula, Verona, Florença e duas vezes em Hollywood. A sexta - e última - será hoje, daqui a poucas horas: no grande anfiteatro das ruínas de Pompeia, um local sagrado. Mas já lá vamos.Escrevo ainda em Roma, deitado no piso de cima de um beliche periclitante, num quarto que chora com o fedor de 10 pessoas amontoadas a padecer de hidrofobia. Mas como condenar os hidrófobos, quando a casa de banho parece ter mais vida selvagem que o Amazonas?
Tenho que me levantar daqui a um par de horas para levar um carro alugado até ao sopé do Vesúvio, mas não consigo dormir. Não é o cheiro a cavalo, é o cavalo do meu coração que bate a galope, com tanto de excitação, como de nervosismo.

Já ando nisto há semanas. Ver os Pink Floyd sempre foi o meu sonho (o outro é ver os Queen com o Freddie Mercury; eu sei, não sou meigo a pedir), mas como os Floyd já lá vão e sem o Rick já não voltam, ver o David Gilmour ao vivo é a next best thing. Fui um dos sortudos que em 2006 pôde vê-lo com Richard, numa mini-digressão por salas intimistas para promover o álbum "On An Island".
Numa altura em que era estudante, aproveitava o Verão para ganhar uns trocos, normalmente para torrar em música. Juntei as poupanças de um ano e fui a Paris, onde vi o David no Grand Rex - um pequeno teatro com menos de 500 pessoas - e ouvi "Echoes", "High Hopes" e "Wot's Uh The Deal". Foi a melhor noite da minha vida.


Como a vida não é mais que esta incessante perseguição de um momento mágico, quando David anunciou nova digressão no ano passado, tratei de marcar o maior número de concertos que pude: Pula foi mágico como Paris, só faltou Richard; Verona foi o caos e em Florença, terceiro concerto em 4 dias, ver David já era quase corriqueiro; este ano fui duas vezes ao Hollywood Bowl (sempre desejara ali ver um concerto) e foi fantástico, mas aquela magia de Paris e Pula nunca mais voltou.
Por isso decidi que esta será a última vez que vou ver o David Gilmour. E que melhor maneira de terminar, se não no sítio onde tudo começou?

Foi aos 16 anos, quando fui de Castelo Branco a Lisboa, para ver o Benfica. Não ia a Lisboa muitas vezes, era um acontecimento para mim. Já na altura, fazia uns biscates no Verão para juntar dinheiro e comprar os CDs que queria durante o ano, mas naquele dia vinha com os bolsos lisos. Tive que convencer o meu Pai a oferecer-me o DVD com o filme "Pink Floyd Live At Pompeii". Afinal, fora ele quem me tinha introduzido aos Pink Floyd, expondo-me sucessivamente à gravação ("em noite de trovoada", diria agora o meu Pai) do concerto no Canal Grande, em Veneza, tinha eu apenas 3 anos. O meu Pai anuiu ao meu discurso e eu lá trouxe o DVD. Mal eu sabia que o filme iria para sempre mudar a minha vida.
Durante meses, vivi obcecado com o filme. Perturbou-me. Deu-me pesadelos. Para a mente susceptível de um rapaz de 16 anos da Beira que não conhecia muito do mundo, aquilo era a coisa mais cool que já vira na vida.

Não se trata apenas de ter aberto a porta da minha vida aos Pink Floyd e de me ter tornado um fã tão fanático, capaz de despender um salário para ver um dos membros da banda (e faltar a um edição recheadíssima do Alive). É muito mais que isso.
O "Live At Pompeii" abriu a minha mente a diferentes tipos de música e de arte, no geral. Tornou-me menos empírico e mais criativo. Ensinou-me a aceitar o que é estranho, esquisito e inóspito. Ensinou-me a ver a beleza no que à primeira parece feio. Ensinou-me a gostar mais do áspero do que o polido. Ensinou-me a ver virtude na diferença. Em suma, mudou a minha forma de ver o mundo.
Acima de tudo, fez-me sentir que era aceitável ser diferente, pensar fora da caixa, não querer ser do rebanho. Se eu hoje sou quem sou, muito se deve à weirdness daquele filme.
Por tudo isto, faz todo o sentido terminar ali. É como se toda a minha vida confluísse neste dia, neste lugar sagrado onde tudo começou. É um ciclo que se fecha.

Isto é tudo muito poético, mas a verdade é que agora estou numa pilha de nervos. Como em todas as grandes aventuras, esta também envolve perigo. Chegarei a tempo? Chegarei à frente junto às grades? Fuck knows.
Compreendam a minha ansiedade. Nunca me casei, nunca tive filhos, nunca vi o Benfica na final da Champions. Este é possivelmente o dia mais importante da minha vida - o dia da minha despedida do David.

Bem, pensando melhor, tudo começou quando o meu Pai me submeteu ao visionamento do concerto de Veneza em 1989. Quem sabe se o David não volta ao Canal Grande? Tinha que voltar a despedir-me dele, parece-me.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

"Há quem lhe chame um one night stand, mas nós podemos chamar-lhe o paraíso" - O sucesso meteórico dos Duran Duran

Recordar a Pop deliciosa dos Duran Duran

No que à imagem diz respeito, podemos dividir a cena musical do Reino Unido na primeira metade dos anos 80 em três campos principais: os dinossauros, naturalmente ancorados às décadas anteriores e com tentativas embaraçosas de ligação ao estilo vigente (Queen, Pink Floyd, Genesis); as bandas de rock alternativo, filhos do punk e dos sintetizadores a emergir em caves de zonas urbanas deprimidas, mais preocupados em preservar um certo glamour intelectual do que em seguir o guarda-roupa dos 80s (The Smiths, Joy Division, Tears For Fears); e as bandas Pop perfeitamente enquadradas no fashion style da década, ostensivamente explorando a sua imagem na promoção da sua música (Wham!, Duran Duran, Frankie Goes To Hollywood). Esta divisão não remete necessariamente o último campo para um plano secundário, como provam os Wham! (link) e os seus maiores concorrentes, os não menos superlativos Duran Duran.

Juntamente com os Wham!, os Duran Duran foram a banda da moda da primeira metade dos anos 80 e tal como a banda de George Michael, gozaram de um sucesso meteórico. Revelando uma profunda percepção da época que viviam, Simon Le Bon, Nick Rhodes, John Taylor, Andy Taylor e Roger Taylor (curiosamente não há aqui familiares) perceberam que para atingir o patamar cimeiro da atenção mediática, não lhes bastava a música, tinham também que pensar a sua imagem. Inicialmente rotulados com o movimento New Romantic, os Duran Duran desenvolveram um estilo próprio, elegante e refinado, tanto na roupa como na música, sem nunca abdicar das cores garridas e da extravagância que os ancora a uma década que os próprios ajudaram a definir. Plenos de vaidade, ostensividade e pretensiosismo, os Duran Duran comportavam-se como realeza Pop e durante meia década, foram tratados como tal.

O quinteto de Birmingham fazia furor entre as meninas que hoje vivem os quarentas e enchia as capas das Bravos e revistas semelhantes, matéria prima para os milhares de recortes que povoavam os cadernos da escola. A loucura era tal, que chegaram a ser apelidados de "Fab Five", em alusão a um sucesso só comparável aos Beatles, vinte anos antes. Reconheça-se porém que "os novos Beatles" estão para o Reino Unido como "o novo Eusébio" no Benfica: é um epíteto fácil que diz mais sobre a vontade de replicar o passado, do que da realidade do presente.

Se a preocupação com a imagem juntava os Wham! e os Duran Duran no mesmo campo, musicalmente eram animais muito diferentes. Pegando na linha que os Roxy Music começaram a traçar 10 anos antes, os Duran Duran apanharam o comboio da New Wave, fundindo Punk e Electronica e incorporando os sintetizadores de Nick Rhodes e os riffs de Andy Taylor em estruturas rígidas de canções Pop.

As canções invadiram as tabelas, as rádios e as televisões, com o "novo" formato videoclip que então ganhava força. A MTV dava os seus primeiros passos e os vídeos cinemáticos dos Duran Duran eram como manteiga em pão quente para o canal televisivo.
Foi uma relação simbiótica que começou com o ousadíssimo vídeo de "Girls On Film", que mostrava imagens tão sugestivas como lutas na lama de meninas em topless. Os Duran Duran queriam publicidade e o resultado não podia ter sido melhor: apesar do conteúdo explícito do vídeo ditar que este não podia passar antes da meia-noite, a restrição só serviu para disparar o interesse do público. A MTV acabaria por criar uma versão severamente editada para exibição em horário normal e a "Girls On Film" seguiram-se maravilhas como "Rio" (com os cocktails dentro de água), "Save A Prayer" e "Hungry like The Wolf" (com a banda no Sri Lanka). Enquanto a estação ganhava audiências à custa dos Duran Duran, a banda vendia discos à custa da promoção na MTV. Dizia-se que nos anos 80 se a MTV gostasse de ti, o mundo gostava de ti; a MTV adorava os Duran Duran e o mundo seguiu-lhe os passos.

Tal como a imagem, também a música dos Duran Duran trazia uma mensagem perfeitamente ajustada à década que os projectou. Eram temas sobre a liberdade individual e sexual, a importância do momento presente e a celebração do amor efémero. "Não vamos pensar no que significa, não vamos pensar no que vai ser amanhã. Vamos pensar no que vai ser este momento, é a única coisa que importa.", diz Simon Le Bon acerca de "Save A Prayer", um dos ex-libris da banda e o meu personal favourite. "Há quem lhe chame um one night stand, mas nós podemos chamar-lhe o paraíso" foi também um dos ex-libris da minha vida durante alguns anos.

O álbum "Rio" - o segundo da banda -, ao mesmo tempo que é um dos LPs que melhor define a década de 80, consegue soar tão bem hoje como há 30 anos. Não há um único stinker no álbum. Em 2106, mantém-se um exemplo perfeito de Pop dançável polida e carregada de rasgo. Era este rasgo incutido pela guitarra incisiva de Andy Taylor que distinguia os Duran Duran de todas as outras bandas Pop. Rude e áspera, a guitarra de Andy dilacerava as texturas minuciosas saídas dos sintetizadores de Nick Rhodes e conferia aos Duran Duran um edge único no panorama Pop da época. Quando Andy quis fazer algo mais adequado às suas raízes Punk e saiu durante a gravação do álbum "Notorious", os Duran Duran deixaram de ser excelentes e passaram a ser apenas bons.

Entretanto, os fãs adolescentes cresceram, a música evoluiu com a experiência nos projectos paralelos dos Arcadia (Simon, Nick e Roger) e dos Power Station (John e Andy) e a banda entrou em processo de negação contra-cíclica, sempre à procura de adaptar a sua música ao que se ouvia na rádio. Se George Michael teve a inteligência de dissolver os Wham! e continuar a solo com uma sonoridade mais adulta, os Duran Duran continuaram, sempre com sucesso muito tépido. Houve um comeback importante em 1993 com "Ordinary World" e "Come Undone" (retirados do álbum epónimo desse ano), mas os hits terminaram aí. O último álbum tenta fazer-nos lembrar dos tempos áureos dos 80s, ao mesmo tempo que tenta soar actual. Falha nos dois objectivos. Felizmente, teremos sempre o "Rio" para recordar a Pop deliciosa dos Duran Duran.

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Em defesa dos Wham!, a melhor banda Pop de sempre

Uma ode à máquina de música dançável de George Michael

É um dos maiores e mais injustos preconceitos da nossa sociedade: em Portugal, gostar de Wham! ainda é tabu. Com os anos, chegámos à conclusão que era aceitável gostar de Prince, Madonna e Michael Jackson (e ainda bem), mas por alguma razão, ainda temos que murmurar que gostamos de George Michael e dos Wham!. Raramente se vê uma menção ao duo Pop britânico na imprensa portuguesa; na rádio, só passa o "Last Christmas" por altura no Natal e à noite, até o Plateau se recusa a passar outro tema que não o "Wake Me Up Before You Go-Go". Um ultraje.

Qual não é o meu espanto, pois, quando vejo esta semana duas peças diferentes sobre os Wham!, primeiro pelo Nuno Galopim (Máquina de Escrever), a propósito dos 30 anos do último concerto da banda e depois pelo Tiago Castro no"Álbum de família" da Radar, homenageando "Make It Big" de 1984. Fica aqui a minha ovação ao Nuno e ao Tiago. Já era tempo de fazer justiça aos Wham!, a melhor banda Pop de sempre.

Melhor banda Pop de sempre? "Que heresia!", já vos estou a ouvir, enquanto preparam o arremesso da esferográfica ao monitor. Calma, eu explico. Comecemos pelo princípio: os Wham! foram um duo de vida meteórica formado por George Michael e Andrew Ridgeley, que brilhou de forma incandescente na sua curta passagem pelo panorama musical. O registo da banda no Reino Unido é verdadeiramente avassalador: de 1982 a 1986, lançaram 9 singles e todos (sublinho: TODOS) entraram para o Top 10 das tabelas britânicas, sendo que 4 deles chegaram ao 1º lugar. Os álbuns "Fantastic" e "Make It Big" também foram #1. São números impressionantes que dão uma ideia ideia do impacto que os Wham! tiveram na altura.

Bem sei que toquei num assunto delicado: será que a popularidade e a qualidade da música são duas variáveis directamente relacionáveis? Não necessariamente, mas também não têm que ser inversamente proporcionais. O "Bohemian Rhapsody" foi #1 durante nove semanas e ninguém discute a valia da canção.
Os Wham! foram muito mais que apenas um fenómeno de popularidade. Se olharmos para a Pop de hoje, percebemos que há demasiados intérpretes que não escrevem as suas próprias canções, puros produtos de venda ao público que vêem as suas carreiras projectadas ao milímetro, desde a imagem, à produção da música e à respectiva promoção. É como uma linha de montagem, onde todas as decisões resultam de uma análise puramente técnica e comercial. Fecha-se o espaço à arte e ao rasgo e traçam-se fronteiras de forma e conteúdo. Tudo soa ao mesmo. No fim de contas, "arte" é coisa que ali não mora e o "artista" pouco tem a ver com o processo, a não ser dar a cara para o público.

Os Wham!, por outro lado, eram um produto saído somente da cabeça de George Michael. George era o mentor, cantor, compositor e o produtor da banda e ainda tocava múltiplos instrumentos nos discos (tudo isto quando tinha pouco mais que 20 anos).  Andrew Ridgeley, o outro membro do duo, estava lá apenas para atrair uma faixa etária mais velha e tirando o apoio moral, ainda hoje se está para saber o que fazia Andrew exactamente nos Wham! (a sua guitarra nem sequer era ligada nos concertos).

É certo que os Wham! tinham uma forte componente de imagem, mas também os Beatles a tinham no início de carreira, durante o auge da Beatlemania. E os Wham! não soavam como nada do que havia em 1983 no Reino Unido. Num panorama Pop onde despontavam os Duran Duran na New Wave e os Culture Club no Reggae, os Wham! faziam música Disco com toques de Soul; quanto muito, soavam como a Motown. Era música negra americana dos 70, para um público branco britânico dos anos 80. George Michael foi, aliás, sozinho, a Motown britânica dos anos 80; numa altura em que a própria Motown estava moribunda, sobrevivendo à tona de água apenas com artistas como Lionel Ritchie e Stevie Wonder. Mas se a nossa sociedade aceita pacificamente que Stevie Wonder é um génio (é mesmo), então por que raio tanto desdém pelos Wham!?

"Isso é música de paneleiros" é a minha justificação preferida. Então e o Freddie Mercury, não é "paneleiro" também? E não é o melhor de sempre? Então não podemos ouvir a música do senhor porque ele gosta de dormir com cavalheiros? Não me faz muito sentido.
"Isso é piroso", dizem-me. Certo. Então e alguém sairia à rua com as roupas roxas que o Prince usava? E o David Bowie? Um foleiro. Não vamos gostar de nenhum deles? Também não me parece válido.
"Eu não gosto da música, nem sou obrigado a gostar". Claro que não, mas expliquem-me, como é que podem não ficar contagiados por temas como "Club Tropicana", "I'm Your Man" ou "Freedom" e ser arrebatados com uma urgência de saltar para a pista de dança? Não? Nada? Então o melhor é verem isso com o médico, porque o sangue que vos corre nas veias está prestes a gelar.

Não tenham medo de gostar dos Wham! e muito menos tenham medo de admitir que gostam. A sério, vão ver que é "Fantastic" e não dói nada.