sexta-feira, 20 de maio de 2016

Bruce Springsteen, o nosso amor é real




Vamos pôr as coisas nestes termos: desde que as caravelas chegaram da Índia, que Lisboa não vivia uma noite assim. Bruce Springsteen e a E Street Band chegaram à cidade com o objectivo de despejar um tanque de amor, prazer e redenção e quem esteve ontem no Parque da Bela Vista não saiu de lá o mesmo. Não pode ser só de mim, aqueles sorrisos contagiados de boca em boca não enganam. Hoje de manhã, até parecia que a cidade acordava mais bonita.

Bruce Springsteen deu um concerto infalível, pejado de êxitos, ainda mais que em 2012. Se já nos concertos em Espanha, Bruce tinha largado as performances completas de "The River", em Lisboa jogou ainda mais pelo seguro. Do álbum que dá nome à digressão, só tivemos o tema-título e os festeiros "Out In The Street" ("oh-oh oh-ó-oh") e "Hungry Heart". Faltaram (pelo menos) "The Ties That Bind" e "Two Hearts", mas não havia tempo para tudo. Este foi, aliás, um concerto curto para os standards de Bruce Springsteen, com "apenas" 3 horas de duração.
Bruce entrou em palco perto da meia-noite com os trovões de "Badlands" (ainda estou a ouvir na minha cabeça os "ooooooh-óóóóó-oooooohhh-ooooooh-ooooooh"s) e o delírio de "My Love Will Not Let You Down" — um dos meus dois requests para ontem (o outro era "Spirit In The Night", igualmente satisfeito) e depois foi desfilar de ases e manilhas a baterem na mesa ininterruptamente: "Born To Run", "Born In The U.S.A.", "Dancing In the Dark", "Glory Days", "Because The Night", não faltou nenhum. Quando chegou a "Twist And Shout", eram quase 3 da manhã, já o público estava rendido e a voz me tinha rebentado. Por fim, ainda tivemos direito a um bónus, com um "This Hard Land" acústico e a solo para fechar a noite.

O público, composto por uma mescla de fãs — facilmente identificáveis pelo evidente fanatismo característico dos fãs do Bruce (sei do que falo, pois sou um deles) — e de espectadores-transeuntes, que apareceram ali por acaso, por convite, ou por exclusão de partes, foi com certeza um caso atípico para Bruce. Ele está habituado a entrar em campo já a golear, mas esta audiência, ele teve que batalhar para ganhar.
Veio há pouco falar-me um colega que foi ao Rock In Rio "por acaso", sem ser fã de Bruce e sem conhecer o seu espólio para além dos êxitos. Disse-me nunca ter visto nada assim. Os olhos dele brilhavam, parecia o pastorinho acabado de ver Nossa Senhora em cima da árvore. É o costume, depois da desconfiança inicial, hoje é ver os cépticos rendidos, a digladiarem-se pelo melhor superlativo para Bruce. E como os compreendo, já começam a faltar palavras para descrever esta experiência quase metafísica que é viver um concerto do Bruce Springsteen. E é impossível fugir aos superlativos na ressaca física e anímica de uma noite destas. Melhor concerto de sempre em solo português? Bem, o melhor desde o último de Bruce, certamente que foi.

O legado constrói-se com presenças e só o facto de Bruce ter ignorado o nosso país durante décadas pode explicar que Portugal seja um caso à parte na Europa, o único lugar onde Bruce não esgota estádios num abrir e fechar de olhos (fenómeno que aqui parece estar reservado para os U2). Mas está a mudar. Ao fim de dois concertos em quatro anos e de muita imprensa convertida, basta passar os olhos pelas redes sociais para perceber que Bruce já começa a ter um séquito importante em Portugal. O nosso amor é real. Esperemos que seja suficiente para cá trazer o Boss mais vezes.

Antes de Bruce, vieram os inevitáveis Xutos e Pontapés. Desde a primeira vez que os "vi" em Lloret Del Mar (deitado num barril de cerveja) que já estive em 20 concertos e este foi um dos melhores. A audiência à minha volta parece ter achado o mesmo, uma vez que cantou a plenos pulmões êxitos como "Chuva Dissolvente", "Não Sou O Único" e "Contentores". Noto também que o meu Xuto preferido (bom trocadilho) — João Cabeleira — parece cada vez mais o Lemmy. Que Rei.

Os Stereophonics foram a desilusão da noite. Gosto muito da banda galesa, mas eles pareceram sempre desligados do público e nunca conseguiram derrubar aquela barreira de quem não foi ao festival para os ver propositadamente. É pena. A surpresa foram os Black Lips no Palco Vodafone, a mandarem o sol abaixo com uma descarga de decibéis. Também gostei do guitarrista, que levou o casaco do pai, 4 números acima.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Axl/DC: no inferno não se come quinoa

Axl Rose nos AC/DC. E por que não?


Não entendo a histeria provocada pela vinda de Axl Rose a Portugal com os AC/DC. Está tudo a comportar-se como se fossem ver a Violetta e a miúda argentina não aparecesse. Os AC/DC são mais que isso. Agora que já sabem que podem devolver o bilhete, digam-me uma coisa: por que raio haveriam de fazer uma coisa dessas? Queriam o quê?  Que não houvesse concerto? Ver o Brian Johnson desafinar à bruta, por mal se ouvir a ele mesmo? Ver o Brian ficar irremediavelmente surdo para vosso entretenimento? (ok, isto até podia ter um certo e macabro interesse histórico) Queriam ver os AC/DC no seu prime? Lamento, mas para isso têm que pedir o Delorean emprestado ao Doc e ir para os anos 70 ver o Bon Scott.

Percebo a desilusão, também eu queria o Brian, mas não percebo o ódio ao Axl Rose, como se fosse a pior escolha do mundo. O homem tem um vozeirão, é fã acérrimo dos AC/DC e faz covers da banda há mais tempo que canta o "Paradise City". É uma boa escolha.
Não querem o Axl porque ele é uma besta? E depois? Acho que não há nenhum fã dos Guns que não reconheça esse facto. E se houver, são aqueles tipos que acham que a banda do "Chinese Democracy" era melhor que a formação com o Slash e como é óbvio, não queremos ter nada a ver com essa gente.
O Axl é uma besta, sim, mas e depois? Não é suposto as estrelas rock cristalizarem as fantasias dos excessos que não podemos cometer nas nossas miseráveis vidas mundanas? Como é que querem agora as estrelas rock? Meninos bem comportados, vegetarianos, sem sal, sem glúten e servidos com soja e quinoa? Como os Grizzly Bear (de quem eu até gosto), que foram apoiar o Bernie Sanders e a única rock star naquela fotografia era o velhote de 74 anos?

Quem é que queriam que viesse a Lisboa cantar as músicas sobre trovõe, dinamite e trinitrotolueno dos AC/DC? O tipo porreiro da banda de covers? A gaja boa do YouTube? O pintas dos Ídolos (como fizeram os Queen)? Ou a besta e lenda em nome próprio do Axl Rose?

O que é o pior que pode acontecer? Um esgotamento nervoso do Axl em pleno palco, seguido de um dos seus clássicos rants furiosos, a desancar em tudo e em todos, culpando o mundo e o universo por ninguém o entender? Ui, maravilha. Isso é o que chamaria de um acontecimento histórico. Axl é Rock N 'Roll, é o perigo que tudo pode acontecer. Mas mesmo que nada de estranho se passe (como eu acredito), o que vamos presenciar será sempre História. Lisboa (ou Algés, se quiserem ser picuinhas) verá o primeiro concerto de sempre de Axl Rose como vocalista dos AC/DC. Daqui a 20 anos, quando o Angus e os restantes já estiverem a fazer companhia ao Bon Scott nas mesas de blackjack do Inferno, falar-se-á na Terra "daquela digressão dos AC/DC com o vocalista dos Guns N' Roses". Nesse dia, só os que estiveram em Algés poderão contar a história.

Com a impossibilidade médica de Brian, a escolha era entre cancelar a digressão, ou arranjar um substituto. O Angus decidiu como sempre fez até agora, quando se viu confrontado com as baixas de Bon, Phil e Malcolm: o comboio dos AC/DC continua a rolar, no matter what.
Eu sou o primeiro apologista que o original é sempre o melhor. Mas como não podemos ressuscitar o Bon Scott para cantar o "Hell Ain't A Bad Place To Be", acho que ficamos muito bem servidos com essa besta dos infernos que é o Axl Rose.
Por outro lado, posso também estar com este discurso todo para justificar ter que ir com a minha irmã ao concerto,já que ela me ofereceu o bilhete no Natal e se eu me cortar, eu sou baleado em chamas (ha!). Pois, também pode ser isso.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Quando as pombas choram — Adeus, Prince

Só te quero ver a rir na chuva púrpura

2016 continua a sua razia iconoclasta. Depois de David Bowie, Glenn Frey, Keith Emerson e George Martin, agora Prince. Reparem: todos os artistas que citei apresentavam-se com dois nomes. Prince era Prince. That's it. E durante algum tempo (devido a batalhas legais com a editora) nem nome tinha, era só um símbolo. Era um ícone em si mesmo. E mesmo quando não tinha nome, todos sabiam quem ele era. TODOS. Bastava começar a cantar.

Vi há pouco alguém duvidar que, apesar da multiplicação de RIPs destas alturas, a maioria das pessoas consiga sequer enumerar 10 temas do Prince. Talvez; mas eu dou uma ajuda. Se viveram no planeta Terra nos últimos 30 anos, provavelmente até conhecem mais que isso. E de certeza que já dançaram ao som de "Cream", "Kiss", "When The Doves Cry", "1999", "Sexy MF", "Let's Go Crazy", "U Got The Look" (a minha preferida) e já cantaram entredentes ou a plenos pulmões o "Purple Rain", "The Most Beautiful Girl In The World" ou... "Nothing Compares 2 U". Esse mesmo, que foi um mega êxito para Sinéad O'Connor. É dele.

Eu tive o privilégio de o ver ao vivo num concerto "espontâneo", anunciado na véspera para o Coliseu. Bilhetes a 50 euros. "Este gajo é doido", pensei. Nunca na vida que vai esgotar o Coliseu em pleno Agosto, com Lisboa vazia e bilhetes a este preço, à venda 24 horas antes. Doido! Chegando ao Coliseu 15 minutos antes da hora, já estava a sala à pinha. Lugar para sentar, era para esquecer. O melhor que se arranjou foi um lugar detrás da mesa de som, um spot perfeito para a minha amiga que jogava na mesma equipa do artista em palco — a dos baixinhos. Fomo-nos entretendo com as histórias dos engenheiros de som: nunca se sabia bem como poderia correr uma noite com Prince. Será que ele vinha? Quando ia chegar? Cinco noites antes, em Amesterdão, tinha feito o público esperar duas horas e só saiu do hotel quando a banda lhe mostrou pelo Skype que o público estava a fervilhar por ele. Nós "só" esperámos uma hora, mas quando Prince chegou, encheu-nos os sentidos durante três horas. A minha amiga ainda hoje define esse concerto como o melhor da vida dela. Foram três horas para a eternidade.

Prince era uma estrela. Para mim, o momento em que o seu brilho foi mais visível deu-se quando foi posto ao lado de outras estrelas. Aí sim, deu para ver quem brilhava mais. Num concerto de tributo a George Harrison — uma rara aparição de Prince neste tipo de eventos —, ao lado de Tom Petty, Steve Winwood e Jeff Lynne dos ELO, Prince apareceu a tocar um solo de Eric Clapton em "While My Guitar Gently Weeps" dos Beatles (imaginem a pressão) e encadeou toda a sala com o seu brilho. Uma boa metáfora para a sua vida.



segunda-feira, 18 de abril de 2016

Dias cinzentos não podem ser dias de Bruce Springsteen

Para quê apostar no Euromilhões, se o prémio não vem em bilhetes para concertos do Bruce Springsteen?

Há dias em que tudo parece correr mal. Mas esses dias cinzentos são passados no frio do escritório, no trânsito, debaixo da chuva, com o cabelo despenteado e pedaços de comida nos dentes. Dias cinzentos não podem ser dias de concerto do Bruce Springsteen na quente e soalheira Los Angeles. Não devia ser.

Mas à chegada à LA Sports Arena (que vivia naquela noite o seu último concerto), logo começa o drama da lotaria. Passo a explicar: nos concertos do Bruce em solo americano são distribuídas pulseiras numeradas por ordem de chegada e poucas horas antes do início do espectáculo, é sorteado um número. É a partir desse número que é feita a entrada na venue, pelo que são esses que ficam com os melhores lugares. As primeiras pulseiras ficam na "pit" - a área junto ao palco - e os outros, bem, os outros vão lá para trás. Mas mesmo esses têm que respeitar a ordem de entrada sorteada.
Eu fora um dos primeiros a chegar, tinha a pulseira 64. Na minha ingenuidade, achava que chegar cedo me traria alguma vantagem. À minha volta multiplicavam-se os relatos de quem tinha cronometrado cirurgicamente a hora de chegada, de modo a receber uma pulseira com um determinado número, com base em estatísticas de anteriores sorteios. O equivalente a quem faz estatísticas do Euromilhões e joga nos números que saem mais vezes. Mas para quê apostar no Euromilhões, se o prémio não vem em bilhetes para concertos do Bruce Springsteen?

À minha frente está uma senhora com os seus 65 anos, vestida de branco integral, trevos na t-shirt, trevos nas calças e trevos nas meias (gente que leva o St. Patrick's Day a sério), que tinha acabado de chegar de Toronto para o concerto. De autocarro. Vou deixar-vos um momento a pensar no que é fazer Toronto - LA de autocarro (o Google Maps dá-me um tempo de viagem de 5 dias). O sonho desta senhora era dançar com o Bruce Springsteen, ser filmada e aparecer no YouTube. Falava nisso com o mesmo olhar obstinado que a senhora do "Requiem For A Dream". Medo. "Eu não falo com pessoas que não sejam die-hards, eles não entendem que Bruce é uma religião.", dizia.  E eu pensava: "então é assim que eu sou aos olhos das outras pessoas, quando falo do Bruce Springsteen."
Ao fim de cinco horas de espera, chega o momento do sorteio. Sai o número 326. Eu, com o 64, era obrigado a contentar-me com um lugar lá atrás. Desilusão. É por isto que não gosto de casinos.

Já lá dentro, vou-me chegando à frente um passinho de cada vez, à medida que a plateia ia ao bar matar a sede. À hora do início do espectáculo, já só havia 10 filas entre mim e a passadeira a meio da arena, que dividia os sortudos da "pit" dos plebeus. "Menos mau", pensei; até que olho para cima e tenho o Vinnie Jones a espumar-se à minha frente, enquanto me tira as medidas para uma cena de pancadaria. "Não devias estar aqui. Mostra-me a tua pulseira!", ordena-me furiosamente enquanto me agarra no braço. Naquele momento, qualquer pessoa com a mínima réstia de amor próprio teria disparado dali para fora de cabeça baixa, mas eu tenho um grande defeito: uma crónica inaptidão em identificar situações de perigo. E por isso levantei-lhe a voz e disse-lhe que ele não tinha nada a ver com isso. Gente, não confundam isto com coragem. Não. Se o Vinnie Jones resolvesse partir para a batatatada, eu ia passar a puré em três tempos. Mas tive sorte, ele deve ter vindo da última sessão de anger management e engoliu em seco, enquanto quase cuspia os olhos das órbitas. Como podem atestar por este relato, estava a ser um início de concerto com tanto de agradável, como de prometedor. Ainda por cima tinha pago 175 dólares pelo bilhete. Longe do palco. Tudo parecia correr mal.

Mas depois entrou o Bruce Springsteen. Entrou e despejou o álbum "The River" inteiro e mais um punhado de êxitos, em 3 horas e meia de concerto sem intervalo (deixo-vos um momento para pensar nisto, sabendo que o homem tem 66 anos). O "The River", álbum que sempre olhei com desconfiança, ganhou uma nova dimensão para mim, numa viagem da miséria à redenção ali feita. Ao vivo, até minudências como "Cadillac Ranch" ou "Crush On You" se tornam épicos, ciclos de um programa de lavagem da alma que é um concerto de Bruce Springsteen.

E quando a noite já ia longa e as luzes da LA Sports Arena já estavam ligadas, como quem convida o público a abandonar a sala, Bruce decide arrancar para um último número: "Tenth Avenue Freeze Out", do álbum "Born To Run". Bruce sai do palco, dirige-se para a passadeira a meio da arena e enquanto olha para o mar de plebeus desafortunados, pára à minha frente e fita-me nos olhos... e aperta-me a mão.

E tudo ficou bem.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Sonhos da Califórnia

A roadtrip, a solidão do volante e a lenda que fica

Porquê fazer uma roadtrip? Olhamos à nossa volta e temos sempre aquele amigo que recusa o Algarve, em favor de uma destas viagens no âmbito do insano. Doido, este gajo. Não são as férias um tempo para descansar? Tiramos 5 dias para fugir ao inferno da empresa e vamos fazer 3 000 kms em estradas desconhecidas, a conduzir um carro que não é o nosso, a puxar o corpo aos limites e a correr riscos que evitamos na nossa vida mundana? Todo o tempo da nossa vida que perdemos parados em semáforos, não será ele suficiente?

Quando se trata da clássica roadtrip pela Costa Vicentina, o pior que nos pode acontecer é ter que chamar a Assistência em Viagem e regressar a casa mais cedo com um taxista fala-barato do Sporting, que passa duas horas a queixar-se das arbitragens. É chato, sim, mas o risco é controlado. Mas quando se viaja para o outro lado do mundo para se fazer milhares de quilómetros no deserto, por vezes de noite, por vezes sozinho, por vezes a desafiar a capacidade do depósito e a própria segurança, qual é a motivação? Chegar ao destino? Ver os sunsets? Contar aos amigos? Não, não e não. Não para mim. Para mim, são os quilómetros.

Para mim, são as horas ao volante, fazer quilómetros e mais quilómetros a pensar na puta da vida. É na solidão do volante que eu procuro respostas aos meus anseios. Voei de Lisboa para o Canadá, conduzi até Nova Iorque, voei novamente para Los Angeles para ver 4 concertos (essa história fica para outro dia), mas o ponto alto da minha viagem foi quando me deram o Jeep para as mãos e eu lhe fiz milhares de milhas de rodagem. À estrada batida com o Jeep, às ansiedades ali rogadas, o volante retribuiu-me com o conforto que só uma máquina solitária, cega, surda e muda pode oferecer.

Fazer-me à estrada em São Francisco – com destino a Las Vegas – só com um mapa ao lado. GPS? Para meninos. Ligar o rádio, sintonizar numa qualquer estação Rock da Southern California e viajar nas ondas FM. Toca Tom Petty música da estrada; tocam os Fleetwood Mac música a cheirar a Califórnia; tocam os Eagles, já estamos no deserto. O cenário lá fora é ermo, estão 35º e um nada infinito rodeia-me. Saí da Interstate e aventurei-me por uma estrada secundária. Esta ainda vem no mapa, vou cortar para este caminho não cartografado e ver onde me leva. Aqui já não há rede nenhuma, nem de telemóvel, nem de planificação, nem de segurança, nada. Estou entregue a mim mesmo e a uma rádio californiana. A última bomba de gasolina foi há mais de 100 milhas, o depósito já não vai para cheio e não há vestígios de vida à minha volta. A água já canta como o cisne. Sobra uma Coca-Cola quente, a marinar há 3 horas no sol do deserto (é, literalmente, a última Coca-Cola do deserto). Na rádio tocam os Eagles outra vez. Sinto que estou a ter um momento para a eternidade.

A escolha da música numa roadtrip é mais importante que a escolha do carro e do motel. A soma da banda sonora e da paisagem lá fora é o que faz a viagem, é o que fica para sempre. Desde que voltei, sou propositadamente perseguido pela banda sonora das minhas férias. No banho, a fazer a A5 para o trabalho, sentado à secretária, só toca a playlist das minhas férias. Ouço o Tom Petty e lá vou eu automaticamente teleportado para o deserto de Mojave, perdido entre a Interstate e o Zabriskie Point. Estou de volta à Califórnia, a ouvir Guns na Sunset Boulevard ao volante do meu Jeep, meu companheiro de viagem que abandonei cruelmente no rent-a-car do aeroporto LAX.

No fim, a roadtrip ganha contornos de lenda, marca a nossa existência como Jesus Cristo marcou o calendário gregoriano e o tempo começa a contar em anos antes da roadtrip e anos depois da roadtrip. A lenda vive e a chuva que se abate teimosa e castigadora sobre Lisboa só me traz sonhos da Califórnia. Tal como o tema dos Mamas And The Papas, mal fecho os olhos, sinto-me seguro e quentinho –  "California dreaming, on such a winter's day." E daqui a 10 anos, quando "Mary Jane's Last Dance" voltar a rebentar nas colunas, os quilómetros voltarão a passar a milhas e aí poderei contar a lenda da roadtrip na Califórnia aos meus filhos, sentados no banco de trás do meu Jeep.

terça-feira, 8 de março de 2016

A morte da minha noite

O fecho anunciado do Jamaica, do Tokyo e do Europa marca o fim de uma era. Mas não tem que ser assim.

O fecho anunciado do Jamaica, do Tokyo e do Europa marca o fim de uma era na noite lisboeta. Mais do que isso, para mim, esta notícia significa a morte de parte da minha noite. Consta que ali nascerá um hotel. Mais um. É a política da terra queimada, da cegueira do lucro imediato. Acentua-se a gentrificação, a Lisboa para os lisboetas desaparece, nasce a Lisboa para os turistas, sem que ninguém se aperceba do paradoxo criado com o desaparecimento dos motivos que trazem os turistas à nossa cidade. Mas não tem que ser assim.

É óbvio que o edifício, como está, não pode continuar. O prédio está devoluto e os próprios bares já tiveram que financiar inúmeras obras de recuperação para continuarem a funcionar. A este cenário corresponde a aplicação de rendas ridículas, desadequadas ao valor actual da propriedade, que os bares facturam em poucas horas numa qualquer sexta-feira à noite. Mas é preciso lembrar que no espaço onde hoje jaz ouro, há não muitos anos morava um buraco infestado de ratos, baratas e prostituição barata. Se o espaço valorizou para o que hoje conhecemos, muito se deve ao funcionamento destes bares que atraíram multidões, tornaram-se ícones da noite de Lisboa e agora, em pleno auge, são obrigados a fechar. Não faz sentido.

Não se trata de advogar pela nacionalização o prédio. A conjuntura cultural de Lisboa ofereceu aos donos do edifício uma pedra preciosa e não há mal nenhum em aproveitar isso. Mas não a qualquer preço. O Planeamento Urbano existe e por alguma razão não se pode comprar os Jerónimos e fazer daquilo um hotel. Os bares do Cais do Sodré são (hoje, mais do que nunca) um ícone da cidade de Lisboa e devem ser protegidos como tal. Porra, o Jamaica está aberto há 45 anos! Os meus pais frequentaram o espaço e eu já sou cliente há mais de dez, muito antes do rosa cosmopolita. E acreditem, se há quem tem razões de queixa, esse sou eu, que sempre tive uma relação particularmente complicada com os porteiros do Jamaica. Fun story: sabem por que a retrete da casa de banho dos homens do Jamaica já não tem porta há 2 ou 3 anos? Porque um dos seguranças (o "Vin Diesel") a arrombou enquanto eu estava lá dentro. Nunca mais foi posta no sítio.

As obras são inevitáveis. Devem recolocar a porta e reconstruir o restante edifício, sim, mas englobando os estabelecimentos que ali funcionam há mais de 40 anos. Sem eles, o Cais do Sodré perde a sua identidade. Por falar em identidade, estou também curioso para ver o Projecto do novo hotel que vai nascer. Estou para ver se vão recuperar a fachada característica lisboeta ou se vai brotar dali um monstro de 20 andares espelhado e ultra-moderno a la Sana Evolution do Saldanha, que é tudo o que aquele espaço não precisa (dou de barato a questão de se permitir construir hotéis furiosamente e em tudo o que é esquina, expulsando as pessoas para fora da cidade; isso é outra discussão). Querem saber como se agrada a todos? Recuperem o edifício, deixem os bares onde estão, façam o lobby do hotel na Rua do Alecrim e o espaço funciona daí para cima. Deixam toda a gente satisfeita e respeita-se a cultura da cidade. Não têm de quê.

A Câmara pode (e deve) intervir para a manutenção dos bares, sem prejuízo para nenhuma das partes. Se matam a cidade, no fim vão-se embora os turistas, fecham os hotéis e os prédios voltam a ser vetados ao abandono. O que virá a seguir? O Roterdão? O Liverpool? O Incógnito? Ou, medo, o Plateau?! Não me matem a noite, por favor.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

A música divinal de George Harrison

Recordar o Quiet Beatle no dia em que faria 73 anos. Hare Krishna.


Adoro o George Harrison. Ele pode até ter sido o "Quiet Beatle", contido e discreto, mas carregava consigo uma aura sem paralelo. Talvez devido à sua devoção espiritual, talvez devido às influências indianas, há qualquer coisa em George de único, que eleva a sua música para um patamar de apreciação quase-metafísico. Esta sensação enche-nos particularmente no seu épico álbum de estreia a solo "All Things Must Pass" (1970). Sim, eu sei que é arriscado falar de música nestes termos, mas se me lêem há mais de duas crónicas, já devem estar habituados ao uso dos superlativos.

De tudo o que já me foi dado a ouvir ao longo da vida, o álbum "All Things Must Pass" é o produto musical mais merecedor de honras de canonização. E se acham que estou a ser leviano ao trazer assuntos eclesiásticos para uma crónica musical, desenganem-se, que eu levo a música religiosamente a sério. O álbum agarra-nos pelo pescoço e ali nos segura, esmagados e subjugados pela beleza da música, até à exaustão. Isto não é música para relaxamento, é música para purificação, pura e simples. Se o conceito de música divinal existe, então é disto que se trata.

"All Things Must Pass" é um álbum duplo, que resulta de uma gigantesca pilha de temas que George tinha deixado de lado ao longo do seu tempo nos Beatles, onde estava limitado a uma pequena quota por cada álbum. Dos poucos que conseguiu meter nos álbuns, apenas "Something" chegou a single e só em 1969 – ano de despedida da banda. Temos que ter em conta que os Beatles eram fundamentalmente a banda de Lennon e McCartney... onde Harrison também tocava. Os seus momentos de protagonismo ali foram efémeros e mais concentrados na fase final, quando a sua escrita melhorou exponencialmente com temas como "Something", "Here Comes The Sun", ou "While My Guitar Gently Weeps".

Este domínio de John e Paul (principalmente de Paul que, não por acaso, era chamado de "Bossy Beatle") ficou bem demonstrado no filme "Let It Be" e na discussão entre Paul e George (https://www.youtube.com/watch?v=IJQx9-GXAic) em frente às câmaras, durante os ensaios para "Maxwell Silver Hammer" ("eu toco o que tu quiseres que eu toque e se não quiseres que eu toque nada, eu não toco nada"). Farto de ser subjugado pelos seus colegas, George saiu furioso do estúdio e foi para casa escrever "Wah-Wah", tema que mais tarde seria também incluído em "All Things Must Pass".

Eu disse que "All Things Must Pass" era um álbum duplo? Esqueçam lá isso. É sim um álbum triplo, se contarmos com o disco bónus "Apple Jams", incluído na caixa de LPs original. A quantidade de material que George Harrison tinha acumulado para o seu primeiro álbum (não conto com os seus álbuns experimentais dos anos 60, objectos de mera curiosidade) era tão grande que deixou o produtor Phil Spector em choque. À medida que George sacava de mais e mais temas que tinha empilhados dos tempos dos Beatles, Spector apercebeu-se que George tinha em mãos um filão colossal e que a grande dificuldade estaria em fazer uma triagem de tudo aquilo. O resultado, construído à imagem da estética "Wall Of Sound" arquitectada por Spector, acabou por ser um álbum que rivaliza com as alturas babilónicas atingidas pelos Beatles; uma obra épica e majestosa, de uma grandiosidade que nos esmaga os sentidos, ao mesmo tempo que os mima.

Acho que já esgotei os superlativos. Agora vão ouvir o "All Things Must Pass" e deixem que o George mude a vossa vida. A minha mudou de certeza.