Desde a noite do nó em Hollywood, a 6 de Junho de 1985 (depois de apenas um dia de ensaios), que a formação clássica dos Guns N' Roses, composta por Axl Rose, Slash, Duff McKagan, Izzy Stradlin e Steven Adler, protagonizou um dos casamentos mais apaixonantes e explosivos do Rock N' Roll. Com a paixão, veio a tormenta e o drama não mais abandonou esta relação até à sua implosão em meados da década de 90. A maior banda Rock N' Roll dos últimos 30 anos está agora prestes a reunir-se e a questão que fica, à partida, é... valerá a pena?
Em primeiro lugar, é preciso perceber que a banda que gravou "Appetite For Destruction" e semeou o caos na Califórnia em finais dos anos 80 já não existe. Apesar de vivos (o que, convenhamos, era extremamente improvável), Axl, Slash, Duff, Izzy e Steven estão mais velhos, mais cínicos e alguns apresentam limitações evidentes - Izzy não gosta de andar estrada e Steven teve um AVC (e problemas recorrentes com drogas e... com toda a gente na banda). Mas mesmo se se juntassem novamente, essa já não seria a banda de delinquentes que os eram Guns nos 80s. A reunião do gangue de Hollywood original é uma ideia entre o impossível e o imaginário.
Restam então Axl, Slash e Duff, a quem se deve juntar Dizzy Reed da formação de "Use Your Illusion", bem como Richard Fortus (guitarrista desde 2001) e Frank Ferrer (baterista desde 2006) da formação mais recente, ocupando os lugares de Izzy e Steven, respectivamente. Fica um sabor agridoce nesta que parece ser uma reunião híbrida entre membros originais (Axl, Slash, Duff e vá, Dizzy) e membros da formação Axl-e-amigos (Frank e Fortus), mas isto pode até ser um bom sinal. Senão vejamos: Steven e Izzy são dois músicos voláteis, que a qualquer momento poderiam sair e pôr em riscos os contratos milionários que aí vêm; já Slash e Duff são dois workaholics que nunca pararam desde que saíram dos Guns, mantendo-se em sucessivos ciclos de álbum-digressão-álbum. Duff até já acompanhou os Guns na América do Sul em 2014, pelo que o factor novo aqui acaba por ser o regresso de Slash.
Assim, em vez de ser uma reunião de nostalgia pura, a soma de dois músicos funcionais permite que esta reunião híbrida possa sonhar em ser uma banda outra vez. O Metal Sludge fala na possibilidade de um punhado de temas novos (Slash está sempre a sacar de riffs novos da carteira) e isso é, até ver, a mais entusiasmante de todas as notícias. Claro que isto pode entrar em conflito com o ritmo absurdamente vagaroso de Axl Rose, mas se chegámos até aqui, por que não esperar um bocadinho mais?
A reunião vale a pena? CLARO QUE SIM. Claro que a reunião de músicos com uma química única vale sempre a pena, independentemente da idade e da pança que apresentam (as bocas do peso não têm piada nem originalidade). Não é a mesma coisa? Claro que não, mas e depois? Nunca nada é igual ao que já foi. Resta-me desejar que Izzy entre no (eventual) processo de criação de temas novos, era ele a espinha-dorsal da banda original.
A reunião (incompleta) dos Guns N' Roses parece iminente e a qualquer hora podem surgir novos desenvolvimentos na novela interminável do Rock N' Roll que é a banda de Los Angeles. Antes do anúncio oficial, vamos fazer uma revisão dos acontecimentos por ordem cronológica (obrigado ao MyGNRforum pela ajuda):
7 de Junho de 2014: Guns N' Roses (versão Axl-e-amigos) dão o último espectáculo, fechando a residência no Hard Rock Hotel, em Las Vegas. Comenta-se que "as coisas ficaram em Vegas";
1 de Julho de 2014: É lançado o vídeo "Appetite For Democracy" que documenta a residência em Las Vegas, tal só é possível com a aprovação de Slash;
22 de Agosto de 2014: Slash culpa os media pelos conflitos entre os membros dos Guns N' Roses;
1 de Outubro de 2014: O radialista Eddie Trunk, conhecido "insider" dos Guns N' Roses, comenta: "a reunião está em andamento";
6 de Outubro de 2014: Slash enumera as qualidades de Axl Rose;
6 de Dezembro de 2014: Richard Fortus, guitarrista dos Guns N' Roses desde 2001, (ainda) fala sobre o próximo álbum da banda e refere que pode incluir material dos tempos de Slash;
26 de Janeiro de 2015: Del James, um dos homens mais próximos de Axl, faz um tag a Slash no Twitter;
6 de Fevereiro de 2015: Slash deseja feliz aniversário a Axl Rose no Twitter;
22 de Fevereiro de 2015: Tommy Stinson, baixista dos Guns N' Roses desde 2001, revela que "está fora do circuito" da banda;
1 de Maio de 2015: Slash volta a elogiar Axl Rose: "Axl é criativamente explosivo, tudo o que ouvem dele é honesto até ao tutano";
7 de Maio de 2015: Slash diz "nunca digo nunca" a uma reunião do Guns N' Roses, admitindo a animosidade entre ele e Axl já se dissipou;
15 de Maio de 2015: Slash afirma que Axl Rose é o melhor frontman de todos os tempos;
22 de Maio de 2015: Duff McKagan admite que uma reunião dos Guns N' Roses "pode acontecer";
27 de Julho de 2015: DJ Ashba, guitarrista dos Guns N' Roses desde 2009, abandona a banda com uma carta aberta;
31 de Julho de 2015: Bumblefoot, guitarrista desde 2006, deixa também os Guns N' Roses de acordo com uma "fonte dentro da banda";
22 de Agosto de 2015: Slash confirma na imprensa sueca que voltou a falar com Axl: "já não era sem tempo";
2 de Outubro de 2015: Richard Fortus diz que não sabe o que se passa com os Guns N' Roses;
7 de Outubro de 2015: Matt Sorum, baterista que substituiu Steven Adler em 1990 e ficou até 1997, recusa-se a falar na reunião: "Invoco a quinta emenda";
9 de Outubro de 2015: Gilby Clarke diz que gostava de fazer parte da reunião;
14 de Outubro de 2015: Blitz revela que há uma proposta para a versão original dos Guns N' Roses tocar em Portugal em 2016;
5 Novembro de 2015: Um dos maiores promotores argentinos refere que a versão original dos Guns N' Roses se vai reunir para o ano;
12 de Novembro de 2015: Nikki Sixx dos Motley Crue diz que os Guns N' Roses se vão reunir e já "toda a gente sabe";
25 de Dezembro de 2015: Guns N' Roses apagam o seu site oficial, deixando apenas o logótipo original da banda desenhado por Slash.
26 de Dezembro de 2015: Um anúncio misterioso começa a passar nos cinemas americanos antes do novo filme da saga "Star Wars" e o site Metal Sludge refere que pode vir aí novo material da nova-velha formação;
27 de Dezembro de 2015: Eddie Trunk revela que o anúncio será feito "na próxima Terça-Feira", a 5 de Janeiro, dia do anúncio do cartaz de Coachella;
29 de Dezembro de 2015: A Billboard confirma que os Guns N' Roses vão a Coachella em 2016 e avança com uma digressão de 25 estádios nos EUA durante o Verão. Começa a circular informação que a primeira aparição da banda reunida será a 6 de Janeiro no programa de Jimmy Kimmel.
A reunião parece iminente.
segunda-feira, 28 de dezembro de 2015
Bem-vindos à selva, novamente: tudo sobre a iminente reunião (incompleta) dos Guns N' Roses
Etiquetas:
#gunsnroses,
#newintown,
#nit,
#nunobento,
#opinião,
Artista: Guns N' Roses
quarta-feira, 23 de dezembro de 2015
Os melhores de 2015 — Os álbuns do ano
Mais um dia de Dezembro, mais uma lista dos melhores do ano. Nada de novo, não fosse esta lista elaborada com um algoritmo preciso e original, com um único e simples critério: o tempo de escuta. Por outras palavras, os álbuns mais bem classificados na minha lista de fim de ano são os que mais ouvi, os que tocaram compulsivamente durante dias e semanas a fio, no meu carro, na minha sala e no meu gabinete. Se têm algum problema com isso, o melhor é fecharem o separador e correrem para os braços da Pitchfork. Mas como vocês adoram listas e eu adoro listas e melhor que a lista que tem os álbuns que ouvimos, só mesmo a lista que tem os álbuns que não ouvimos, aqui estão as minhas escolhas para os melhores álbuns de 2015.
Top 10
10 — Hooton Tennis Club — "Highest Point In Cliff Town"
O álbum de estreia dos Hooton Tennis Club é implacavelmente 90s e daí colhe de tudo um pouco, desde a Britpop fina dos Blur, até ao underground americano dos Pavement. Mas foram os toques mancunicanos de Stone Roses e Oasis em "I'm Not Going Roses Again" que me conquistaram. As referências às minhas referências são tantas, que fica difícil não gostar do primeiro álbum da banda de Liverpool.
8 — Courtney Barnett — "Sometimes I Sit and Think, and Sometimes I Just Sit"
7 — The Decemberists — "What a Terrible World, What a Beautiful World"
Ao mesmo tempo que liberta um aroma de grandiosidade intemporal levitada por órgãos, violinos e trompetes, "What a Terrible World, What a Beautiful World" poderia servir como banda sonora de uma sitcom americana dos late 90; ou pode ser apenas a banda sonora de uma tarde de limpezas em casa. São várias as layers de consumo deste álbum, que tanto serve de música de fundo, como de objecto de análise académica. Foi dos primeiro álbuns originais que ouvi este ano e ficou comigo até ao fim.
6 — Kurt Vile — "B'lieve I'm Goin Down..."
"B'lieve I'm Goin Down..." é o trabalho de um artista já com a maturidade para fazer um "Nebraska" e safar-se com isso. Confessional, minimalista e vulnerável, este é um álbum de histórias que poderiam ser contadas no decorrer de uma noite no deserto, só com o barulho de fundo da fogueira. Um deleite.
5 — Blur — "The Magic Whip"
Top 10
10 — Hooton Tennis Club — "Highest Point In Cliff Town"
O álbum de estreia dos Hooton Tennis Club é implacavelmente 90s e daí colhe de tudo um pouco, desde a Britpop fina dos Blur, até ao underground americano dos Pavement. Mas foram os toques mancunicanos de Stone Roses e Oasis em "I'm Not Going Roses Again" que me conquistaram. As referências às minhas referências são tantas, que fica difícil não gostar do primeiro álbum da banda de Liverpool.
9 — Vangoffey — "Take Off Your Jacket & Get Into It"
O baterista dos Supergrass foi a solo, bateu em várias portas e sacou um punhado de pérolas. No superlativo "The Race Of Life" parece um Basement Jaxx melódico e no single "Trials Of The Modern Man" parece The Kinks teleportados para os 90s. Álbum sólido e leve no ouvido.
Se Liam Gallagher tivesse uma filha australiana (em 1987, duvido que ele tivesse sequer saído de Manchester), imagino-a como a Courtney Barnett: decidida, desbocada e estilosa, a destilar bazófia na voz. Ah e com o talento do tio Noel para a escrita. "Sometimes I Sit and Think, and Sometimes I Just Sit" é transversalmente considerado um dos álbuns do ano e desta feita, estou totalmente com a crítica. Ouçam à confiança.
7 — The Decemberists — "What a Terrible World, What a Beautiful World"
Ao mesmo tempo que liberta um aroma de grandiosidade intemporal levitada por órgãos, violinos e trompetes, "What a Terrible World, What a Beautiful World" poderia servir como banda sonora de uma sitcom americana dos late 90; ou pode ser apenas a banda sonora de uma tarde de limpezas em casa. São várias as layers de consumo deste álbum, que tanto serve de música de fundo, como de objecto de análise académica. Foi dos primeiro álbuns originais que ouvi este ano e ficou comigo até ao fim.
6 — Kurt Vile — "B'lieve I'm Goin Down..."
"B'lieve I'm Goin Down..." é o trabalho de um artista já com a maturidade para fazer um "Nebraska" e safar-se com isso. Confessional, minimalista e vulnerável, este é um álbum de histórias que poderiam ser contadas no decorrer de uma noite no deserto, só com o barulho de fundo da fogueira. Um deleite.
O aclamado regresso dos Blur aterrou com estrondo em 2015 e trouxe-nos logo em Janeiro o single do ano — "Go Out". Por vezes os melhores álbuns resultam de um fugaz alinhamento de estrelas, mas se os dias em Hong Kong foram produtivos, "The Magic Whip" precisava de mais algumas semanas daquela explosão criativa que só acontece quando os quatro blurs se juntam, para ser aquilo que merecia. Valeu-nos um dos concertos do ano no SBSR.
4 — Tame Impala — "Currents"
O novo trabalho dos Tame Impala era o álbum Indie mais esperado do ano, com a curiosidade acrescida de vir rotulado como "mais electrónico" que o anterior. "Medo", pensei. O resultado acabou por ser nem especialmente radical como se temia, nem especialmente brilhante. A virtude de "Currents" é que quando é bom, é mesmo muito, muito bom. "Let It Happen" e "The Less I Know The Better" são dois dos melhores temas de 2015. E aquela capa? Quase que ganhavam, de caras, o título de melhor artwork do ano. Não fosse Peter Saville meter-se ao barulho...
3 — David Gilmour — "Rattle That Lock"
David Gilmour sabe da beleza e "Rattle That Lock" recupera o quê de belo dos Pink Floyd em temas como "5 A.M.", "Faces Of Stone" e "In Any Tongue", corrigindo ainda o inexplicável medo dos solos de guitarra que afectou os álbuns de Rock na última década e meia. Os problemas de "Rattle That Lock" são a ausência de Richard Wright — cimento que ligava toda a brita dos Floyd — e aquele tema Jazz, onde David arrisca a ser confundido como uma segunda vaga de Leonard Cohen. Espero que o próximo álbum não demore mais 9 anos.
1 — Noel Gallagher — "Chasing Yesterday"
O que há para enganar em "Chasing Yesterday"? O Chefe entregou mais 10 canções com o seu selo de qualidade e embarcou numa digressão onde o apanhei por três vezes. Não admira que tenha sido o álbum que mais ouvi em 2015. Noel reuniu em "Chasing Yesterday" temas que poderiam ter sido Lados B dos Oasis no início dos 00s (alguns remontam a essa altura) e acreditem, isto é o maior elogio que lhe poderia fazer. O floydiano "Riverman" e o zero7iano "The Right Stuff" destacam-se, mas o melhor está guardado (mais uma vez) para os Lados B, desta vez do single de "Ballad Of The Mighty I": "Revolution Song" — uma versão uptempo de "Solve My Mystery" — tema gravado nas sessões do malfadado "Standing On The Shoulder Of Giants", metido na gaveta desde então e que viu finalmente a luz do dia. Que o Chefe esteja connosco por muitos mais anos.
Menções honrosas
Quase, quase a entrar no Top 10 estiveram "Carrie & Lowell" de Sufjan Stevens (não quis fazer a vontade ao meu colega Paulo), "Elsewhere" de Moullinex (melhor álbum português), "Teens Of Style" dos Car Seat Headrest (este foi mesmo por um triz), "In Colour" de Jamie XX (um dos mais inventivos de 2015) e, permitam-me a batota, "The Ties That Bind", o álbum perdido que Bruce Springsteen devia ter lançado em 1979 (devia mesmo) e só lançou este ano na caixa de celebração de "The River". Pensando nisto, até podia ter feito um Top 15. Mas não há 15 mandamentos, pois não?
Outras menções honrosas são devidas à cover de "Save A Prayer" pelos Eagles Of Death Metal (já era fã da versão dos Duran Duran antes de... vocês sabem), aos imparáveis Sleaford Mods (adoro aquele sotaque), aos Pretty Vicious a rebentarem em Glastonbury (atenção que estes miúdos não têm medo de solos de guitarra), ao épico dos Titus Andronicus (que semearam o caos no Mexefest), ao regresso dos Destroyer (se fecharem os olhos em "Dream Lover", vêem a E Street Band), a mais um mind-fucking long-play dos Godspeed You! Black Emperor e ao que já ouvimos da bomba que está quase a chegar de David Bowie ("Blackstar" é de doidos e "Lazarus" é de chorar por mais).
Sem necessariamente respeitar a ordem em cima, fiquem com a playlist do melhor de 2015:
4 — Tame Impala — "Currents"
O novo trabalho dos Tame Impala era o álbum Indie mais esperado do ano, com a curiosidade acrescida de vir rotulado como "mais electrónico" que o anterior. "Medo", pensei. O resultado acabou por ser nem especialmente radical como se temia, nem especialmente brilhante. A virtude de "Currents" é que quando é bom, é mesmo muito, muito bom. "Let It Happen" e "The Less I Know The Better" são dois dos melhores temas de 2015. E aquela capa? Quase que ganhavam, de caras, o título de melhor artwork do ano. Não fosse Peter Saville meter-se ao barulho...
3 — David Gilmour — "Rattle That Lock"
David Gilmour sabe da beleza e "Rattle That Lock" recupera o quê de belo dos Pink Floyd em temas como "5 A.M.", "Faces Of Stone" e "In Any Tongue", corrigindo ainda o inexplicável medo dos solos de guitarra que afectou os álbuns de Rock na última década e meia. Os problemas de "Rattle That Lock" são a ausência de Richard Wright — cimento que ligava toda a brita dos Floyd — e aquele tema Jazz, onde David arrisca a ser confundido como uma segunda vaga de Leonard Cohen. Espero que o próximo álbum não demore mais 9 anos.
2 — New Order — "Music Complete"
A grande surpresa do ano. Na ressaca da saída tormentosa de um membro-chave como Peter Hook (o meu preferido), foi contra todas as expectativas (incluindo as minhas) que os New Order fixeram "somente" um dos melhores álbuns dançáveis dos últimos anos, "somente" o melhor da banda desde "Technique" de 1989. Mas há mais. "Tutti Frutti" (com La Roux na voz) é "somente" o melhor tema dançável do ano e a capa é "somente" a melhor artwork do ano, trazida com o selo de qualidade de Peter Saville. Melhor regresso era difícil.
A grande surpresa do ano. Na ressaca da saída tormentosa de um membro-chave como Peter Hook (o meu preferido), foi contra todas as expectativas (incluindo as minhas) que os New Order fixeram "somente" um dos melhores álbuns dançáveis dos últimos anos, "somente" o melhor da banda desde "Technique" de 1989. Mas há mais. "Tutti Frutti" (com La Roux na voz) é "somente" o melhor tema dançável do ano e a capa é "somente" a melhor artwork do ano, trazida com o selo de qualidade de Peter Saville. Melhor regresso era difícil.
1 — Noel Gallagher — "Chasing Yesterday"
O que há para enganar em "Chasing Yesterday"? O Chefe entregou mais 10 canções com o seu selo de qualidade e embarcou numa digressão onde o apanhei por três vezes. Não admira que tenha sido o álbum que mais ouvi em 2015. Noel reuniu em "Chasing Yesterday" temas que poderiam ter sido Lados B dos Oasis no início dos 00s (alguns remontam a essa altura) e acreditem, isto é o maior elogio que lhe poderia fazer. O floydiano "Riverman" e o zero7iano "The Right Stuff" destacam-se, mas o melhor está guardado (mais uma vez) para os Lados B, desta vez do single de "Ballad Of The Mighty I": "Revolution Song" — uma versão uptempo de "Solve My Mystery" — tema gravado nas sessões do malfadado "Standing On The Shoulder Of Giants", metido na gaveta desde então e que viu finalmente a luz do dia. Que o Chefe esteja connosco por muitos mais anos.
Menções honrosas
Quase, quase a entrar no Top 10 estiveram "Carrie & Lowell" de Sufjan Stevens (não quis fazer a vontade ao meu colega Paulo), "Elsewhere" de Moullinex (melhor álbum português), "Teens Of Style" dos Car Seat Headrest (este foi mesmo por um triz), "In Colour" de Jamie XX (um dos mais inventivos de 2015) e, permitam-me a batota, "The Ties That Bind", o álbum perdido que Bruce Springsteen devia ter lançado em 1979 (devia mesmo) e só lançou este ano na caixa de celebração de "The River". Pensando nisto, até podia ter feito um Top 15. Mas não há 15 mandamentos, pois não?
Outras menções honrosas são devidas à cover de "Save A Prayer" pelos Eagles Of Death Metal (já era fã da versão dos Duran Duran antes de... vocês sabem), aos imparáveis Sleaford Mods (adoro aquele sotaque), aos Pretty Vicious a rebentarem em Glastonbury (atenção que estes miúdos não têm medo de solos de guitarra), ao épico dos Titus Andronicus (que semearam o caos no Mexefest), ao regresso dos Destroyer (se fecharem os olhos em "Dream Lover", vêem a E Street Band), a mais um mind-fucking long-play dos Godspeed You! Black Emperor e ao que já ouvimos da bomba que está quase a chegar de David Bowie ("Blackstar" é de doidos e "Lazarus" é de chorar por mais).
Sem necessariamente respeitar a ordem em cima, fiquem com a playlist do melhor de 2015:
Etiquetas:
#2015,
#blur,
#courtneybarnett,
#davidgilmour,
#hootontennisclub,
#kurtvile,
#neworder,
#revistadoano,
#tameimpala,
#thedecemberists,
#vangoffey,
2015,
Artista: David Gilmour,
Artista: Noel Gallagher
sexta-feira, 4 de dezembro de 2015
Prego a fundo até ao abismo: Scott Weiland aguenta-se até aos 48 anos
O comboio que seguiu furioso em direcção à ravina.
"Scott Weiland aguenta-se até aos 48 anos". Devia ser assim o título das notícias da morte do vocalista dos Stone Temple Pilots e Velvet Revolver. Ao contrário da maioria das estrelas rock que se sanitizam depois dos 40 anos, normalmente depois de arranjarem mulher, filhos e contas para pagar, Scott nunca abrandou. Foi prego a fundo até ao abismo, como a estrela Rock N' Roll pura e indefectível que foi.
As entrevistas de alarme foram mais que muitas. Recordo-me de uma conversa com o Howard Stern, onde Scott dizia que estava sozinho, mas que não podia abrandar para pagar as pensões milionárias das mulheres e filhos que teve. Dizer que ninguém o ouviu será com certeza um absurdo. Tanto os STP como os VR o tentaram recuperar e até as redes sociais lhe tentaram dar a mão, quando em Abril apareceu um vídeo de Scott numa contenda para vestir um casaco em palco (só conseguiu com a ajuda de um roadie e a cantar "Vasoline" com a morte nos olhos. Na altura escrevi:
"Olhos vazios, zero de emoção, desaparecido de si mesmo, a um sopro de se desmanchar e sem acertar uma nota. Eis Scott Weiland a "cantar" esta semana. Doloroso de ver.
Este é o reverso da medalha da vida do Rock N' Roll. Os Velvet não o querem, os STP expulsaram-no e se continua assim, não tarda estamos a ler mais um obituário. Mas Scott já passou os 27, por isso até já essa piada perdeu. Volta depressa man, the joke is not funny anymore."
Mas Scott não ouviu ninguém e o comboio lá seguiu furioso em direcção à ravina.
Como rocker terminal que sou, sempre gostei dos Stone Temple Pilots, mas como fanático dos Guns N' Roses, vibrei ainda mais com os Velvet Revolver. Os Velvet ressuscitaram os Guns com a voz de Scott Weiland e fizeram (sem favor nenhum) um dos melhores álbuns dos anos 00 – "Contraband" – que em plena era de cinismo musical nos trouxe canções coléricas com cheiro a whisky, fumo e sexo. Uma maravilha. "Get away from the drugs you're taking", dizia Scott em "Dirty Little Thing". Hoje vou ouvir "Slither", "Set Me Free", "Plush" e "Vasoline", sem drogas, mas acompanhado com um copo de whisky. À tua, Scott. See you in hell.
"Scott Weiland aguenta-se até aos 48 anos". Devia ser assim o título das notícias da morte do vocalista dos Stone Temple Pilots e Velvet Revolver. Ao contrário da maioria das estrelas rock que se sanitizam depois dos 40 anos, normalmente depois de arranjarem mulher, filhos e contas para pagar, Scott nunca abrandou. Foi prego a fundo até ao abismo, como a estrela Rock N' Roll pura e indefectível que foi.
As entrevistas de alarme foram mais que muitas. Recordo-me de uma conversa com o Howard Stern, onde Scott dizia que estava sozinho, mas que não podia abrandar para pagar as pensões milionárias das mulheres e filhos que teve. Dizer que ninguém o ouviu será com certeza um absurdo. Tanto os STP como os VR o tentaram recuperar e até as redes sociais lhe tentaram dar a mão, quando em Abril apareceu um vídeo de Scott numa contenda para vestir um casaco em palco (só conseguiu com a ajuda de um roadie e a cantar "Vasoline" com a morte nos olhos. Na altura escrevi:
"Olhos vazios, zero de emoção, desaparecido de si mesmo, a um sopro de se desmanchar e sem acertar uma nota. Eis Scott Weiland a "cantar" esta semana. Doloroso de ver.
Este é o reverso da medalha da vida do Rock N' Roll. Os Velvet não o querem, os STP expulsaram-no e se continua assim, não tarda estamos a ler mais um obituário. Mas Scott já passou os 27, por isso até já essa piada perdeu. Volta depressa man, the joke is not funny anymore."
Mas Scott não ouviu ninguém e o comboio lá seguiu furioso em direcção à ravina.
Como rocker terminal que sou, sempre gostei dos Stone Temple Pilots, mas como fanático dos Guns N' Roses, vibrei ainda mais com os Velvet Revolver. Os Velvet ressuscitaram os Guns com a voz de Scott Weiland e fizeram (sem favor nenhum) um dos melhores álbuns dos anos 00 – "Contraband" – que em plena era de cinismo musical nos trouxe canções coléricas com cheiro a whisky, fumo e sexo. Uma maravilha. "Get away from the drugs you're taking", dizia Scott em "Dirty Little Thing". Hoje vou ouvir "Slither", "Set Me Free", "Plush" e "Vasoline", sem drogas, mas acompanhado com um copo de whisky. À tua, Scott. See you in hell.
segunda-feira, 30 de novembro de 2015
Vodafone Mexefest 2015: as noites do bizarro e do fascinante
A história do último festival da temporada festivaleira
E eis que chegamos à derradeira paragem da temporada festivaleira de 2015. E que viagem foi esta, que nos deu concertos eternos de Tame Impala, Blur (e Chromeo, já agora) e que a mim deu um pé partido em The Prodigy. Como acontece desde 2011, para último ficou reservado o GP Suzuka dos festivais portugueses — o Vodafone Mexefest. O Mexefest é o festival que dá prioridade a bandas mais obscuras e afastadas do circuito mainstream, umas porque ainda não chegaram lá, outras porque a sua imagem não pode ser vendida a muita gente (Peaches, estou a falar de ti). É esta mistura heterogénea de bandas, aliada a uma distribuição caótica de horários e a uma alocação única de salas que faz do Mexefest um saco de gatos que tem tanto de bizarro, como de fascinante e até empolgante.
Empolgante porque permite que cada espectador possa produzir o seu próprio festival (boa ideia, a da app). Este é o meu Mexefest.
A primeira noite começa com um concerto no âmbito do surreal. Sozinho em palco, apenas com um técnico de som escondido lá atrás, La Priest é um one-man-band que produz uma malha sonora psicadélica que enche o Tivoli e hipnotiza uma audiência que rejeita o conforto das suas cadeiras em favor de passos de dança furiosos. Eu ainda não tinha bebido nada e talvez por isso não tivesse curtido o concerto como devia. E eu até gostei muito de "Inji", o álbum que La Priest trazia na bagagem.
Desço a avenida rumo ao Coliseu (o Mexefest é mesmo isto — uma correria desenfreada entre salas) onde dentro de poucos minutos entrariam os Chairlift — uma das bandas que mais ouvira nas últimas semanas. Que desilusão. A banda não consegue conquistar o público com o seu Synthpop tricotado e o volume envergonhado que sai dos altifalantes. De tal forma que se ouve mais ruído do público a conversar que a própria banda em palco... isto durante a música. Nunca tinha presenciado nada desta escala. Entre temas, o ruído é ensurdecedor e obriga a banda a explicar-se: "estamos a tocar material novo". Os Chairlift despedem-se com "Ch-ching" e eu nem sequer ouço o meu "Amonanesia".. Baah que desilusão. Tantas expectativas goradas.
Hora de Bully na EPAL. A banda punk de Nashville toca numa sala minúscula, à pinha. São as condições perfeitas para a música que trazem. Agora sim, temos concerto. O set é curto, conciso e demolidor. É o primeiro mosh da noite, o meu primeiro desde o pé partido e a primeira sensação de libertação que o festival me oferece. Daquelas sensações que só a música nos dá.
Quando uma multidão já fazia fila desde o Coliseu ao Ateneu para ver a cena hipster do momento, eu fico pelo Ateneu para ver a banda que fez um dos álbuns do ano — Titus Andronicus. Nada contra Benjamin Clementine, mas as contingências das sobreposições horárias do Mexefest assim o ditam. Surpreendentemente, o gimnodesportivo do Ateneu está muito bem composto. O público nas filas da frente é facilmente reconhecível — basicamente os mesmos de Bully — só rockers, muitos deles pertencentes à doutrina beto-urbano-punk, que cruza o cabelinho à agro-beto da Golegã, barba urbana e iPod com a discografia de Sex Pistols. Cuidado, que isto é malta que vem para o mosh com as noções dos treinos do rugby do Técnico. O concerto tem volume nos limites, cervejas a voar, mosh agressivo e Rock N' Roll. A loucura. "Fired Up" arranca a maior reacção do público. "Escreve lá na NiT que o som está uma merda!!!", gritam-me aos ouvidos. De facto. Tenho pena de não conseguir ouvir a banda em condições, mas o som que vem da mesa de mistura tornava impossível distinguir o que quer que fosse.
A poucos minutos do fim de Titus Andronicus, não resisto e vou espreitar o que se passa no Coliseu com Benjamin Clementine (I had to know what the hype was all about). Tenho que me meter à socapa num dos camarotes para conseguir ver alguma coisa. Concerto à pinha, como eu nunca vira o Coliseu. Ainda chego a tempo dos últimos temas, com direito a encore com solo de bateria. Do que vi (correndo o risco de ser injusto por julgar uma parte do concerto pelo seu todo), pareceu-me uma sala demasiado grande e histérica para a música intimista de Benjamin, que lutava sozinho contra os urros de quem queria chamar a si o centro das atenções. É pena. Ficará para ver noutro dia, noutras condições mais adequadas.
Fim do primeiro dia.
O segundo dia começa com Ariel Pink no Coliseu. Wow, quem é que falou em bizarro? Munido com um álbum interessante "pom pom" e um bass-drum capaz de deslocar as fundações do Coliseu, o americano parece apostado em mexer com o sistema sensorial do público, mas não pelas melhores razões. As baixas frequências estão tão proeminentes que se torna praticamente insuportável estar ali, já para não falar na impossibilidade em perceber o que sai da boca dele.
Saio do Coliseu a uma hora do início de Peaches e já a fila para o Tanque chega ao Politeama. Era o concerto que eu mais esperava de todo o festival e pelos vistos o meu entusiasmo é partilhado com muita gente (talvez merecesse uma sala maior). Chego ainda a tempo de ver a Teresa "Da Chick", acompanhada por Mike El Nite e Moullinex, dar um concerto pleno de energia, mandando os "filhos e os pais para casa" com o vibrante "You Make Me Feel (Mighty Real)" de Sylvester James.
Depois... Depois chega Peaches. E que dizer acerca do concerto de Peaches? Palavras serão sempre curtas para descrever este concerto. É algo que vai para além da minha palete sensorial conhecida: há a visão, a audição, o tacto, o paladar, o olfacto... e o concerto de Peaches. O cenário é a Peaches, a Peaches e uma mesa de DJ (e uma participação especial da Da Chick). A música é um Electro-punk que eu melhor descreveria como uma versão hardcore dos Human League, depois de serem tomados de assalto pela miúda que entretanto virou punk. O público é o mais andrógino onde já estive, a fazer jus à canção dos Blur: girls who are boys, boys who are girls, boys who do boys, boys who do girls, girls who do girls. Aqui não interessa quem és ou de quem gostas, estamos todos unidos pela música.
Peaches dá um concerto libertador de preconceitos, com o velocímetro dos excessos a bater no vermelho: andou em crowdsurfing pelo público, ergueu duas bonecas insufláveis, despejou duas garrafas de champagne nas filas da frente e no fim esfregou duas toalhas nas suas partes íntimas frontais e traseiras, atirando-as para gáudio de alguns sortudos na audiência. "Talk To Me" e "Boys Wanna Be Her" são dois highlights do festival. Para quem esteve no Tanque e viu o que eu vi (quem chegou em cima da hora, ou não entrou, ou não viu nada), é fácil eleger o concerto do Mexefest 2015: Peaches, obviamente.
Depois disto, qualquer coisa seria aborrecida. Mas Patrick Watson esticou a corda. Tal como na noite anterior com Benjamin, Coliseu à pinha. Tento invadir novamente um camarote, mas desta vez sou apanhado pela segurança e enviado para o piso de cima. Lá em baixo, a mesma romaria de ontem. Na música de Patrick, em que os silêncios são tão importantes como as notas, o ruído da conversa chega a ser insuportável e na plateia são muitos os "sshhhh" de quem não aguenta mais a conversa do lado. Eu, que vinha do concerto de Peaches com os sentidos a bater no máximo, não aguentei o tédio. Noutro dia, quem sabe, noutras condições.
O balanço do Mexefest 2015 posiciona-o firme como um one-of-a-kind no nosso calendário festivaleiro. Não haveria outra maneira de juntar Titus Andronicus, Benjamin Clementine, Peaches e Patrick Watson, todos no mesmo evento. A NiT esteve no festival a convite do Grupo Turim Hotels, parceiro do Vodafone Mexefest.
Etiquetas:
2015,
Mexefest,
NiT,
Vodafone Mexefest
quinta-feira, 26 de novembro de 2015
U2 de volta a Portugal em 2016? Não se entusiasmem muito com a ideia
Calma.
Já prevendo a tempestade que se vai abater (mais uma vez) sobre os U2 quando soubermos que eles "afinal não vêm a Portugal em 2016", sou obrigado a pôr água na fervura das notícias que têm percorrido a comunicação social esta semana. Eu sei, foi uma desilusão não os verem aqui este ano e já estão entusiasmados com a "certeza" que eles vêm no próximo. Eu sei, até já pediram os dias de férias ao chefe e já perguntaram à Dona Irene se pode ficar com o Martim na primeira semana de Julho. Eu sei disso tudo e não quero ser desmancha-prazeres, mas deixem lá a Dona Irene em paz. Neste momento, está muito longe de ser líquido que os U2 venham a Portugal em 2016.
Tudo começou com uma notícia da Blitz que anunciava que os "U2 chegam à MEO Arena na primeira semana de Julho". O título é forte e gerou uma euforia tal (porque temos o bonito hábito de ler apenas os títulos das notícias) que até foram criados eventos no Facebook, onde milhares de pessoas já asseguraram presença em concertos inexistentes. O problema é que ninguém deu muita importância ao subtítulo da notícia da Blitz: "Só os trabalhos do novo álbum dos U2, "Songs of Experience", poderão alterar as datas da digressão europeia de 2016." Pois é. Só que este "só" é um grande "só".
Neste momento, tudo não passa de uma encruzilhada de rumores. Ouve-se um rumor aqui, um rumo ali, muitas vezes eles são contraditórios e nem por isso deixam de ser todos verdadeiros. Se me parece evidente que há conversações e que os U2 têm a primeira semana do Atlântico "reservada" com um ano de antecedência (porque são o tipo de banda que pode fazer isso), se tal nunca foi confirmado é porque os U2 não estavam certos dos seus planos. Eu gosto de confirmar os meus rumores com quem mais sabe da poda, que normalmente são os fãs acérrimos da banda, farejadores de todos detalhes debaixo do tapete. E esses desde Sábado que não estão muito optimistas. Tanto os alemães do U2tour.de, como os holandeses do U2start.com, o U2 en España e o nosso U2Portugal, todos citam fontes próprias que alegam que os planos para a digressão europeia em 2016 vão ser cancelados em favor das gravações de "Songs Of Experience" (que segundo o fotógrafo dos U2 Anton Corbijn, sairá em Setembro de 2016). Já é muita gente a dizer a mesma coisa.
Eu, mais que ninguém, quero estar enganado. No fim de contas, até sou dos que sai mais prejudicado com este volte-face, pois fazendo fé nos rumores paguei há duas semanas a subscrição anual no site oficial dos U2 e agora fico a arder. Rumores são rumores e nada nos diz que eles não mudam de ideias outra vez, mas não se entusiasmem uma miragem e não desesperem se o tempo passar e nada mais ouvirmos dos concertos de Julho. Até porque como é que se cancelam concertos que nunca foram confirmados?
terça-feira, 17 de novembro de 2015
Contra o medo, whisky e Rock N' Roll
Cada um escolhe o seu evangelho e os meus foram escritos por Beatles, Queen, Pink Floyd e Springsteen.
Permitam-me hoje um tom particularmente sério. Os ataques terroristas de sexta-feira em Paris deixaram-me muito perturbado, não tanto pela proximidade, mas sim pelo alvo: bares, restaurantes, futebol e música. Imaginem se sexta-feira à hora de jantar atacassem simultaneamente o Bairro Alto, o Cais do Sodré, o Estádio da Luz num jogo da Selecção Nacional e o Coliseu dos Recreios durante um concerto. Eu estaria num destes locais de certeza absoluta.
Está claro que este foi um ataque à nossa forma de viver e à nossa cultura, mas de todos os alvos, o que me deixa mais perturbado é o Bataclan. Atacar a música? Porquê?! Não dá para entender. A música é a nossa forma de viver mais congregadora e inofensiva. Até o Irão já acolheu a música dos Queen há mais de uma década. As salas de concertos são lugares sagrados da nossa civilização, locais de peregrinação onde estranhos se cruzam e criam laços em torno de um amor comum: a música.
A maioria das vítimas destes atentados eram jovens rockers cujo pecado foi um concerto numa sexta à noite. Podia ter sido ido eu ali. Este é o meu povo. Esta é a minha gente. Gente que ali dentro, em frente ao palco a curtir a música, não tem cor, clube, nação, religião, ou sex... género (sexo têm, às vezes). Gente que se junta nestes locais sagrados de comunhão de alegria, para celebrar a música.
Na sequência dos atentados, foram cancelados os concertos de U2, Deftones e Motörhead em Paris, bem como as digressões europeias dos Foo Fighters, Prince e, obviamente, dos Eagles Of Death Metal. Compreendo as decisões das bandas, especialmente dos EODM (não consigo imaginar o que passa pela cabeça deles depois de uma coisa destas), mas feito o luto, é preciso marcar posição e seguir em frente.
Depois do que aconteceu, todos temos medo. É inevitável, eu também o tenho. A questão aqui é se nos deixamos vencer por ele. Se há coisa que eu abomino, se há que coisa que eu não admito na minha vida, é a política do medo. Agora, mais do que nunca, não podemos sucumbir à cultura do medo, não nos podemos render. Agora é preciso demonstrar que não é por isto que vamos mudar o nosso modo de vida. Não podemos deixar que nos digam onde é que vamos hoje à noite.
O comunicado reivindicativo do Daesh refere o Bataclan como um local "onde centenas de apóstatas se juntavam numa festa de devassa e prostituição". Não gosto de discutir assuntos religiosos. Cada um escolhe o seu evangelho e os meus foram escritos por Beatles, Queen, Pink Floyd e Springsteen. Na sexta-feira atacaram uma das minhas mesquitas e a minha retaliação será feita continuando nessa devassa das orgias musicais em concertos regados a cerveja e whisky. Contra o medo, até ao fim. Contra o medo, whisky e Rock N' Roll.
sexta-feira, 13 de novembro de 2015
Crítica: One Direction - "Made In The A.M." | Música para montagens de fotos
"Made In The A.M." não vai ganhar novos fãs aos One Direction, mas também não vai desapontar os antigos
De quando em vez, ocorre na nossa vida um evento que, sem nos apercebermos, a define para sempre. Um dos eventos que definiu a minha relação com a música deu-se no Natal de 1997, quando o meu tio Jorge ofereceu um cheque-disco (para quem não sabe, um voucher para comprar um CD) a mim e ao meu primo João Pedro. Dias mais tarde, fui com o João à loja de discos de Castelo Branco e ele fez com o cheque-disco o que um miúdo de 12 anos faz: comprou o disco da moda. Enquanto ele levou para casa o álbum "Backstreet's Back" dos Backstreet Boys, eu fiquei intrigado com a capa de um disco sentado na prateleira dos clássicos e trouxe comigo um tal de "A Day At The Races" dos Queen. Mas não fiquei convencido. Como todos os miúdos, também eu queria ser o mais fixe da turma e fui por isso a casa do meu primo ouvir o que tinha perdido. A hora que se seguiu deixou-me para sempre descansado com a minha decisão. Quando a NiT me lançou o desafio de ouvir o novo disco dos One Direction "Made In The A.M.", cruzei-me com o meu passado e foi como se voltasse para aquela hora na casa do meu primo.
Antes de avançar, devo dizer que nada me move contra os rapazes dos One Direction, nem contra as boys-bands em geral (sou fã acérrimo dos Wham!). As boys-bands vêm desde a Motown e nos últimos 50 anos houve umas melhores e outras piores. Mas qualquer coisa se passou em meados da década de 90 e as boys-bands deixaram de ser formadas por músicos com boa imagem, para passarem a ser um conjunto de miúdos com boa imagem que sabem dançar e, nalguns casos, também sabem cantar. A palavra-chave "músicos" foi à vida. Os One Direction inserem-se nesta nova fase: são fulanos a cantar e dançar música composta por sicranos e interpretada por beltranos. Eles são o que são e não pretendem ser mais que isso mesmo, esse não é o meu problema com eles. O meu problema com eles é mesmo a música.
O novo álbum "Made In The A.M." nem começa mal: "Hey Angel" é um tema catchy que quase não sofre do síndrome da Pop ultra-processada que agora infecta as estações de rádio. É um indicador positivo, mas imediatamente negado quando chegam "Drag Me Down" e "Perfect", os singles de promoção do álbum. Se é para a rádio, tem que ser igual a tudo o que lá passa, pois claro. Mas o pior chega em "End Of The Day", um tema que é tão genérico, tão medíocre, tão igual-a-tudo, tão cruzado entre Coldplays, Aviciis, Mumfords e outros Sons, que é doloroso chegar ao fim. Mas calma Nuno, que ainda só estamos na quinta faixa.
"If I Could Fly" vem a seguir e é uma balada ao piano, com violinos no clímax. Genérico? Claro, mas nada de ofensivo. Menos quando corrigem o tom do voz com o autotune. Eles no mínimo deveriam saber cantar, não é? "Long Way Down" é mais uma balada, esta ao estilo de "Drops of Jupiter" dos Train. "Never Enough" é S Club 7 com refrão Muse. "Walking In The Wind" é Jack Johnson e Sheppard no sunset de Tróia. E assim se sucedem as genericidades, tema a tema, até ao fim do álbum. "Made In The A.M." não vai ganhar novos fãs aos One Direction, mas também não vai desapontar os antigos. É Pop ultra-polida, destinada às bandas sonoras de montagens de fotos em férias para publicar no Facebook. Não é mau, não é ofensivo, é só desesperadamente genérico; mas serve bem o seu propósito. Tudo plástico, tudo pela rama, profundidade inexistente. Eis mais um álbum dos One Direction.
Subscrever:
Mensagens (Atom)




