Hoje é um dia especial para mim e para os Queen.
Hoje é um dia especial para mim e para os Queen. Faz hoje exactamente 30 anos que foi lançado "One Vision", o primeiro tema que juntou os quatro membros dos Queen na composição, inspirados pela noite triunfal que tiveram, meses antes, no Live Aid - a noite em que os Queen reinaram o Mundo e o mito de Freddie Mercury nasceu.
Quando Freddie conduzia a audiência em "We Will Rock You" com um grito de "I like it, sing it again!", milhares de milhões de espectadores em todo o Mundo já moravam na palma da sua mão. O Wembley, esse era seu desde que "Radio Ga Ga" pusera as 74 mil pessoas que enchiam o estádio a bater palmas com a coordenação de um comício nazi. E aqui reside a magnitude deste feito: aquele não era sequer o público dos Queen.
No Wembley havia U2, Elton John, David Bowie, reunião dos The Who e Paul McCartney a cantar Beatles. Todos os grandes nomes da Pop Rock estavam no Live Aid, incluindo os líderes das tabelas de então. A maioria da audiência em Wembley, pelo menos a falange mais nova, estava lá para ver os U2 (reparem nos cartazes à frente do palco), a banda jovem e sensação da época. Aquele não era o público dos Queen, mas aquela era a noite de Freddie Mercury.
Naquela noite, Freddie queria mais que o Wembley, Freddie queria o Mundo. E agarrou-o, ao dançar com o cameraman em "Hammer To Fall", como se desse a mão às 1.9 mil milhões de pessoas (um terço da humanidade) que o viam em casa. E foi assim, que na noite de 13 de Julho de 1985, o planeta acordou para um facto que estivera o tempo todo à sua frente: não havia um showman como Freddie Mercury, com uma capacidade sem paralelo para captar a audiência. Não havia e não voltou a haver. O Wembley parecia uma pequena chávena para o brilho da estrela que explodia em palco. Assim foi a vida de Freddie Mercury: como uma estrela que brilhou muito, muito rápido, muito intensamente e explodiu, porque o universo não aguentava com tanto brilho.
E assim nasceu o mito de Freddie Mercury, no Live Aid, onde os Queen deram à humanidade os melhores 20 minutos da sua História. O filho dessa noite nasceria a 4 de Novembro de 1985 e chamar-se-ia "One Vision".
Hoje é um dia especial. Enquanto os Queen lançavam "One Vision" no Reino Unido, quis o destino que a milhares de quilómetros, numa cidade perdida no interior de Portugal, nesse mesmo dia nascesse um enorme fã da banda.. Faz hoje exactamente 30 anos.
quarta-feira, 4 de novembro de 2015
sexta-feira, 9 de outubro de 2015
Crítica: New Order – "Music Complete" é uma sexta-feira à noite, toda a semana
Os velhotes voltam a mostrar quem é que sabe disto.
Antes da música, uma constatação: a capa do novo álbum dos New Order é das melhores artworks que vi nos últimos anos. É uma ideia tão simples e tão enigmática. Será que estão lá um "M" e um "C" das iniciais do álbum? Um "N" e um "O" das iniciais da banda? Uma mensagem subliminar? Fuck knows. Passo dezenas de minutos a olhar para aquilo e não faço a mínima ideia do que é. Mas é espetacular. Se consegue pôr a imaginação a trabalhar, não se pode pedir mais.
Para além da capa, o que dizer então deste "Music Complete" – o primeiro álbum dos New Order desde a saída de Peter Hook (o meu elemento preferido da banda)? Cuidado. Muito cuidado. Ou "porra!", também podemos dizer isso. Não estava à espera deste álbum. No meu livro, "Music Complete" é somente um dos melhores álbuns dançáveis dos últimos anos e é somente o melhor dos New Order desde 1989, ano de "Technique". Chega para vos chamar a atenção? Boa.
O arranque é feito com "Restless", um típico single dos New Order. Bernard Sumner põe-nos logo à partida confortáveis, quando nos pergunta "how does it feel?". Onde é que já ouvimos isto? O tema poderia vir dos anos 80, mas também poderia vir dos 90s, ou dos 00s, de tão New Order que é. Instant classic. É a canção mais amigável do álbum e o single óbvio.
As coisas ficam mais interessantes quando passamos para o segundo tema. "Singularity" começa como um tema dos Joy Division (JD), mas por volta da marca dos 50 segundos salta para território dos New Order (NO). Fica marcado o antagonismo entre a música downer dos JD e upper dos NO e como elas podem funcionar na mesma personalidade densa que é a banda de Manchester.
Falando em Manchester, é para lá que vamos logo a seguir em "Plastic". Logo no início levamos com Acid House e BAM!, estamos na Haçienda. Fookin' Madchester all over again. O álbum, esse, continua a ganhar passada. Hook já não está lá, mas os hooks não faltam. A cavalgada do refrão de "Tutti Frutti" (You've got me where it hurts / but I don't really care / cause I know I'm OK / whenever you are there), cantando em dueto com Elly Jackson dos La Roux, é ouro Pop. "Gold, Jerry, gold!", diria o Bania, do Seinfeld. Mas o toque de Midas vem a seguir, quando entra a voz de um narrador de um qualquer filme soft porn italiano de Tinto Brass (julgava que nunca ia mostrar a minha sabedoria nesta matéria) e dispara "TUTTI FRUTTIIIIII". Eishhh... E ainda só vamos no quarto tema.
Depois chega o funk. Os velhotes de Manchester querem mesmo bater em todas as portas da dança. O riff de piano de "People On The High Line" é das maiores pérolas deste álbum, a lembrar aqueles doces Pop deliciosos dos early 90s, quando George Michael e Madonna davam masterclasses de como fazer um single Pop.
"Stray Dog" escurece a sala, num monólogo bêbado, confessional e sombrio de Iggy Pop, com a banda sonora de uma perseguição policial, madrugada adentro. As luzes regressam com "Academic", em mais um potencial single. Este é o tipo de coisa que as tabelas tabelas suplicam há anos. É criminoso se as rádios não tocarem "Academic" nos próximos meses. Nota ainda para "Superheated", que fecha o álbum antecipando os sinos natalícios, com Brandon Flowers dos The Killers a anunciar o cair do pano: "it's over".
Estou há duas semanas em audição repetida e obsessiva de "Music Complete". A primeira metade do álbum é do melhor que tenho ouvido no panorama da música dançável nos últimos anos. Agora que a música de dança está tão em voga e é tão popular (tomando conta até dos festivais, como sabemos), os velhotes voltam para mostrar quem é que sabe disto. Dançar em 2015, (ainda) é com os New Order. É sexta-feira à noite toda a semana com "Music Complete".
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Artista: New Order
segunda-feira, 5 de outubro de 2015
David Gilmour e um Fariseu em Pula
Quando eu tive o David Gilmour à distância da minha canadiana na Arena de Pula, lembrei-me de um episódio bíblico.
Conta o Novo Testamento que quando os Fariseus conheceram Jesus Cristo, não ficaram muito impressionados. Os Fariseus sabiam de estórias de um Rei cujo reino "não fazia parte deste mundo", um Rei dos Reis, mas quando lhes apareceu, Jesus era "apenas" um homem mal vestido que falava de maneira diferente. "O quê? É isto?! É este gajo? Este gajo está vestido pior que nós!", terão protestado os Fariseus, num qualquer dialecto hebraico.
Quando eu tive o David Gilmour à distância da minha canadiana na Arena de Pula, na Croácia, lembrei-me deste episódio bíblico. Durante toda a minha vida, tive Gilmour como um ser divino, criador de obras que engrandeceram a minha existência. Mas agora este ser divino estava ali, tão perto de mim, mais perto do que eu poderia imaginar quando o meu Pai me submetia a visualizações repetidas do concerto dos Pink Floyd em Veneza. Vi-o como um qualquer Fariseu que teve o acaso de se cruzar com aquele a quem chamavam o Rei dos Reis. E assim pude ver que David Gilmour é "apenas" um homem vestido com uma t-shirt preta. David é, afinal, humano.
Mas vamos ao princípio. Recuemos 24 horas.
Chego a Pula no dia anterior ao concerto e vou directo para a Arena. Estão a montar o palco e pasme-se, as visitas turísticas ainda estão abertas. Entro. WOWOWOW!!! O que é isto? PINK FLOYD WORLD TOUR? Equipamento dos Pink Floyd?! Nem acredito que me deixam andar ali.
Ao fim da tarde, enquanto virava canecas num bar com vista panorâmica para a Arena, David aparece para o soundcheck. Sem mais, começa a despejar temas do novo álbum, um depois do outro, seis no total. Incrível, um concerto de borla!
Depois vem "Wish You Were Here". Esta todos conhecem, é vê-los de telemóvel em punho, a gravar o momento. Cena normal nos nossos dias. Mas David ainda tem mais uma na manga. Pam... Pam... Pam... Pam... "High Hopes"! A minha reacção neste momento não deveria ser descrita aqui, sob pena de perder a imagem máscula perante as meninas. Mas que se foda. Mal ouvi o sino, desatei a chorar descontroladamente, cara escondida no braço da canadiana. "High Hopes" é a minha música, o meu elixir. Naquele momento, tudo valera a pena. O pé partido, o risco da viagem solitária para a Croácia, o frio que rapei em Zagreb, tudo fora compensado.
Fast-forward para o concerto. Já conhecendo os cantos à casa, finto a segurança e consigo entrar com uma garrafa de Jameson. Ouvir Pink Floyd sóbrio também é fixe, é verdade, mas para que é que eu haveria de fazer uma coisa dessas?
Vou directo com um LP do "The Division Bell" para junto do camarim do David, na esperança de um autógrafo. Poucos minutos depois, David sai do camarim. "DAAAAVID!", grito em súplica. David vira-se e vem na minha direcção. Quase a chegar, a um metro apenas, David repara que naqueles parcos segundos se haviam juntado dezenas atrás de mim. David pára. Vira-se. Vai-se embora.
"FODA-SE! Estive tão TÃO perto! FODA-SE!", gritei num português que pareceu aos demais um qualquer dialecto hebraico.
Procuro o meu lugar. Segunda fila, ainda a inspirar o fumo saído do palco, que maravilha. E logo chega David, com todas as rugas à minha frente, juntando o ar frágil de um homem de 69 anos, com a robustez de quem teve que aturar o Roger Waters durante quase duas décadas.
Não sabia nada da setlist e tinha feito um aviso de excomunhão a quem ousasse quebrar-me esse segredo. Por isso quando David arrancou com o BRRRRRUMMMM de "Sorrow", saltei da cadeira num grito que deve ter sido audível no outro lado do Adriático (na verdade são dois gritos bem audíveis neste vídeo). Foi o meu momento da noite.
Ao longo da noite, David fartou-se de borrar a pintura, num concerto longe da perfeição, mas tão perto de mim. Pude ver que ele é "apenas" um homem e passei a amá-lo ainda mais por isso. Porque David Gilmour não é um homem qualquer, é um homem que cria coisas divinas.
Artigo publicado originalmente
na revista online New In Town (NiT),
Segunda-Feira, 10 de Outubro de 2015
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Artista: David Gilmour,
Artista: Pink Floyd
quinta-feira, 3 de setembro de 2015
Bruce Springsteen: 40 anos de "Born To Run" — Um ensaio sobre o sofrimento
Quem mais nos poderia fazer reflectir sobre a importância de um estado de espírito do qual fugimos toda uma vida?
"Born To Run" foi o álbum que lançou Bruce Springsteenpara o estrelato em 1975, atirando-o para as capas das revistas Time e Newsweek na mesma semana. Mais importante que isso, foi a obra que definiu a carreira de Bruce, onde este introduziu os personagens que o seguiram nas décadas seguintes, personagens que deram asas à nossa imaginação e com as quais nos pudemos identificar tantas e tantas vezes. Como disse Jon Stewart aquando da condecoração de Bruce nos Prémios Kennedy:
Segundo Bruce Springsteen, "Born To Run" é um conjunto de histórias épicas que poderiam decorrer todas "numa interminável noite de Verão". São histórias que dançam à volta de uma motivação, de uma vontade: FUGIR. Há por todo o álbum um sentimento que uma jornada importante se aproxima, um momento que vai definir a nossa vida. O sentimento é de urgência, de fuga das raízes. É preciso fazer alguma coisa para mudar uma vida que não nos satisfaz e é preciso fazê-lo urgentemente. Querer ir embora daqui, sem saber ainda para onde. Na verdade, isso não importa, desde que seja para longe. Não há certezas, a não ser de que aqui, nesta vida, já não dá. Vamos fugir.
Mais cedo do que tarde, inevitavelmente percebemos que os problemas fogem connosco e nada corre como tínhamos planeado. É a vida. Somos obrigados a chocar com ela de frente e a música de Bruce Springsteen parece servir de manual para saber como fazê-lo. Ou pelo menos para perceber que não estamos sozinhos. Que alguém, há muitos anos, muito longe de nós e em circunstâncias diferentes, passou pelo mesmo. Bruce mostrou que o sofrimento é sentido por todos e é sentido da mesma forma. Com "Born To Run", Bruce Springsteen uniu pela primeira vez milhões de pessoas à volta de um sentimento, de uma vontade, de uma urgência, de um sofrimento. É essa a força, é essa a magia de Bruce Springsteen.
Quem mais nos poderia fazer reflectir sobre a importância de um estado de espírito do qual fugimos toda uma vida? O sofrimento. Porque ninguém sabe sofrer como Bruce Springsteen.
"Why do we suffer? I got the answer to that one: because we have to! What would life be?"
"Por que sofremos? Eu sei a resposta: porque temos que o fazer! Como é que seria a vida?"É com esta reflexão sobre o sofrimento que Bruce Springsteen abre o filme "Wings For Wheels" — o premiado documentário que mostra o making of de "Born To Run", álbum que comemorou 40 anos na semana passada.
"Born To Run" foi o álbum que lançou Bruce Springsteenpara o estrelato em 1975, atirando-o para as capas das revistas Time e Newsweek na mesma semana. Mais importante que isso, foi a obra que definiu a carreira de Bruce, onde este introduziu os personagens que o seguiram nas décadas seguintes, personagens que deram asas à nossa imaginação e com as quais nos pudemos identificar tantas e tantas vezes. Como disse Jon Stewart aquando da condecoração de Bruce nos Prémios Kennedy:
"When you listen to Bruce’s music, you aren’t a loser. You are a character in an epic poem... about losers."
"Quando ouves a música do Bruce, não és um falhado. És um personagem num poema épico... sobre falhados."
Segundo Bruce Springsteen, "Born To Run" é um conjunto de histórias épicas que poderiam decorrer todas "numa interminável noite de Verão". São histórias que dançam à volta de uma motivação, de uma vontade: FUGIR. Há por todo o álbum um sentimento que uma jornada importante se aproxima, um momento que vai definir a nossa vida. O sentimento é de urgência, de fuga das raízes. É preciso fazer alguma coisa para mudar uma vida que não nos satisfaz e é preciso fazê-lo urgentemente. Querer ir embora daqui, sem saber ainda para onde. Na verdade, isso não importa, desde que seja para longe. Não há certezas, a não ser de que aqui, nesta vida, já não dá. Vamos fugir.
Mais cedo do que tarde, inevitavelmente percebemos que os problemas fogem connosco e nada corre como tínhamos planeado. É a vida. Somos obrigados a chocar com ela de frente e a música de Bruce Springsteen parece servir de manual para saber como fazê-lo. Ou pelo menos para perceber que não estamos sozinhos. Que alguém, há muitos anos, muito longe de nós e em circunstâncias diferentes, passou pelo mesmo. Bruce mostrou que o sofrimento é sentido por todos e é sentido da mesma forma. Com "Born To Run", Bruce Springsteen uniu pela primeira vez milhões de pessoas à volta de um sentimento, de uma vontade, de uma urgência, de um sofrimento. É essa a força, é essa a magia de Bruce Springsteen.
Quem mais nos poderia fazer reflectir sobre a importância de um estado de espírito do qual fugimos toda uma vida? O sofrimento. Porque ninguém sabe sofrer como Bruce Springsteen.
Artigo publicado originalmente
na revista online New In Town (NiT),
Quinta-Feira, 3 de Setembro de 2015
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Artista: Bruce Springsteen
segunda-feira, 24 de agosto de 2015
Da mente de Kevin Parker, para as pistas de dança. Valeu a pena a viagem?
Uma viagem pelo arco discográfico dos Tame Impala
Se estão a ler esta crónica, sabem quem é o Kevin Parker e quem são os Tame Impala. Sabem que eles estiveram no Paredes de Coura e que foi um vê-se-te-avias para arranjar bilhete. Sabem também que eles têm um novo álbum e que o mesmo marca uma saída do Rock psicadélico, para um registo mais electrónico e dançável. Isto já foi escrito por dezenas de publicações musicais e restantes entendidos e vocês já estão fartos de saber. Mas... E então? Será que a migração foi bem sucedida? A narrativa da "evolução sónica da banda" pode fazer-nos crer que sim, que qualquer coisa nova seja uma coisa boa. Não necessariamente.
"Innerspeaker" em 2010, "Lonerism" em 2012, "Currents" em 2015. São estes os três pontos que em 5 anos definem o primeiro arco discográfico dos Tame Impala. "Lonerism" foi um dos álbuns da década e em "Apocalypse Dreams", os Tame Impala tocaram no céu. Ao terceiro álbum, chegam as pistas de dança. Não é a primeira vez que artistas Rock decidem fazer esta viragem para as bolas de espelhos. Historicamente, os resultados são tão díspares como as polémicas que tais mudanças implicam. David Bowie fez os seus melhores álbuns em meados dos anos 70 ("Station To Station", "Low" e "Heroes") quando começou a respirar os ares da electrónica alemã. Os Queen foram fuzilados pela crítica quando desceram aos bares gay noviorquinos nos early 80s e de lá trouxeram a Disco para o álbum "Hot Space". Os Pink Floyd também levaram a Disco para "Another Brick In The Wall Pt.2", mas desta feita com sucesso retumbante. Cada caso é um caso. E o caso dos Tame Impala não é particularmente bem sucedido.
Calma. Guardem lá as pedras, pelo menos para já. Kevin Parker provou que se pode gravar um disco dançável sem vender a alma ao diabo, como fizeram os Coldplay. "Currents" está longe de ser um álbum vulgar e é facilmente um dos melhores do ano. Quando é bom, é mesmo muito bom. Mas podia ser muito melhor do que é. "Currents" empalidece ao lado de "Lonerism" e não é por ser mais dançável, é porque naquilo que é, não é especialmente brilhante. Mas esse era o preço do risco assumido na mudança de direcção. Há uma certa esquizofrenia em "Currents" que torna a sua digestão um caso sério de dispepsia sonora. Temas como "Love/Paranoia", "Past Life", ou "Yes, I'm Changing" são difíceis de mastigar, aborrecem-me e não me deixam a viajar na minha própria mente como faziam "Solitude Is Bliss" ou "Be Above It".
Para alimentar esta confusão, é curioso perceber que o melhor deste álbum aparece quando Kevin Parker carrega mais na bola de espelhos: "The Less I Know The Better", "Disciples" e "'Cause I'm A Man" são pequenas gomas Pop viciantes que podiam ter saído de qualquer um dos álbuns de Michael Jackson nos anos 80. E agora faço uma pausa para se aperceberem da magnitude de uma coisa destas. (...) Como disse em cima, quando "Currents" é bom, é muito bom. Mas nem sempre é bom.
Há semanas que "Currents" não sai do meu Spotify e alguma coisa isso quererá dizer. Mas não consigo deixar de pensar que os Tame Impala perderam aqui algum do seu quê de especial. O álbum divide opiniões e dividiu-me a mim também e se notam alguma esquizofrenia nesta análise, isso só reflecte o meu sentimento ao ouvir este álbum. "Currents" é bom, mas ainda é "Lonerism" o prato forte dos Tame Impala. Com a viragem às pistas de dança, os Tame Impala deixaram de ser excelentes e passaram a ser apenas muito bons.
Se estão a ler esta crónica, sabem quem é o Kevin Parker e quem são os Tame Impala. Sabem que eles estiveram no Paredes de Coura e que foi um vê-se-te-avias para arranjar bilhete. Sabem também que eles têm um novo álbum e que o mesmo marca uma saída do Rock psicadélico, para um registo mais electrónico e dançável. Isto já foi escrito por dezenas de publicações musicais e restantes entendidos e vocês já estão fartos de saber. Mas... E então? Será que a migração foi bem sucedida? A narrativa da "evolução sónica da banda" pode fazer-nos crer que sim, que qualquer coisa nova seja uma coisa boa. Não necessariamente.
"Innerspeaker" em 2010, "Lonerism" em 2012, "Currents" em 2015. São estes os três pontos que em 5 anos definem o primeiro arco discográfico dos Tame Impala. "Lonerism" foi um dos álbuns da década e em "Apocalypse Dreams", os Tame Impala tocaram no céu. Ao terceiro álbum, chegam as pistas de dança. Não é a primeira vez que artistas Rock decidem fazer esta viragem para as bolas de espelhos. Historicamente, os resultados são tão díspares como as polémicas que tais mudanças implicam. David Bowie fez os seus melhores álbuns em meados dos anos 70 ("Station To Station", "Low" e "Heroes") quando começou a respirar os ares da electrónica alemã. Os Queen foram fuzilados pela crítica quando desceram aos bares gay noviorquinos nos early 80s e de lá trouxeram a Disco para o álbum "Hot Space". Os Pink Floyd também levaram a Disco para "Another Brick In The Wall Pt.2", mas desta feita com sucesso retumbante. Cada caso é um caso. E o caso dos Tame Impala não é particularmente bem sucedido.
Calma. Guardem lá as pedras, pelo menos para já. Kevin Parker provou que se pode gravar um disco dançável sem vender a alma ao diabo, como fizeram os Coldplay. "Currents" está longe de ser um álbum vulgar e é facilmente um dos melhores do ano. Quando é bom, é mesmo muito bom. Mas podia ser muito melhor do que é. "Currents" empalidece ao lado de "Lonerism" e não é por ser mais dançável, é porque naquilo que é, não é especialmente brilhante. Mas esse era o preço do risco assumido na mudança de direcção. Há uma certa esquizofrenia em "Currents" que torna a sua digestão um caso sério de dispepsia sonora. Temas como "Love/Paranoia", "Past Life", ou "Yes, I'm Changing" são difíceis de mastigar, aborrecem-me e não me deixam a viajar na minha própria mente como faziam "Solitude Is Bliss" ou "Be Above It".
Para alimentar esta confusão, é curioso perceber que o melhor deste álbum aparece quando Kevin Parker carrega mais na bola de espelhos: "The Less I Know The Better", "Disciples" e "'Cause I'm A Man" são pequenas gomas Pop viciantes que podiam ter saído de qualquer um dos álbuns de Michael Jackson nos anos 80. E agora faço uma pausa para se aperceberem da magnitude de uma coisa destas. (...) Como disse em cima, quando "Currents" é bom, é muito bom. Mas nem sempre é bom.
Há semanas que "Currents" não sai do meu Spotify e alguma coisa isso quererá dizer. Mas não consigo deixar de pensar que os Tame Impala perderam aqui algum do seu quê de especial. O álbum divide opiniões e dividiu-me a mim também e se notam alguma esquizofrenia nesta análise, isso só reflecte o meu sentimento ao ouvir este álbum. "Currents" é bom, mas ainda é "Lonerism" o prato forte dos Tame Impala. Com a viragem às pistas de dança, os Tame Impala deixaram de ser excelentes e passaram a ser apenas muito bons.
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Artista: Tame Impala
terça-feira, 11 de agosto de 2015
O ouvinte tem sempre razão
Mas tem mesmo?
O ouvinte tem sempre razão? Não. Mas claro que não! Ou é preciso recordar que os Aqua foram #1 em todo o mundo em 1997 com "Barbie Girl"? Ainda alguém se lembra do Crazy Frog? E do Scatman John? E do R. Kelly? Ah ok, desse lembramo-nos por causa daquela cena chata da pedofilia.
Este fim-de-semana aconteceu o maior festival português na Zambujeira do Mar e, acreditem, eu queria ficar calado. A sério, juro que queria. Mas a quantidade de fezes que foi atirada na defesa desta nova ideia de 'festival de Verão' não me deixa ficar calado.
Outras vozes já se expressaram devidamente. As minha preferidas foram a de João Quadros, no Twitter: "Ainda assim: cartaz do PS > cartaz do Sudoeste" (tão bom) e a de João Pedro Rodrigues, no Facebook, um membro da "tribo" (parabéns ao génio publicitário que inventou este conceito) que avaliou o festival com 5 estrelas, comentando de forma assertiva: "epah mais um ano a partir aquela merd* toda !!! O cartaz é fatela Ya, mas o que conta com é o espírito !!!". Meus amigos do Sudoeste, quando um dos membros mais fervorosos da vossa tribo apelida o cartaz de "fatela Ya", eu acho que não preciso de entrar em cena com adjectivação adicional. O trabalho está feito.
Mas depois vieram as fezes.
Dizem-me que é a evolução, que a música nova irrita sempre as gerações mais velhas e que assim é que deve ser. Certo. Mas o quando o Dylan ligou a guitarra eléctrica no Newport Folk Festival em 1965 e chocou uma audiência que esperava um espectáculo acústico, ele não se limitou a carregar num botão para tocar hits da década anterior, nem começou a atirar bolos à audiência. Tocou a música dele AO VIVO, foi REAL.
E quando os Sex Pistols abriram a distorção e cuspiram no público dos bares suados da Grã-Bretanha de 1976, ainda era música AO VIVO que saía das colunas, por muito desafinada que fosse. Era REAL (excepto quando o Sid Vicious não ligava o baixo, aí era mesmo só cuspo).
Dizem-me que isto é "música do meu tempo" e que o meu tempo já passou. Música do meu tempo? Eu nasci nos anos 80 e as minhas bandas preferidas são dos anos 60 e 70. Moldei o meu gosto porque o meu Pai me deu a conhecer música e eu ganhei curiosidade para procurar mais. Os jovens ouvem aquilo que lhes dão e se eles gostam de caca é porque só lhes deram caca, dia após dia, após dia, e eles não conhecem outra coisa. Isto é só mais um capítulo do livro dos nossos tempos "Ausência dos pais em casa". Os miúdos não precisam de gostar dos Beatles nem dos Stones, mas convém conhecê-los, como parte da História e da Cultura que eles são. Não conhecer os Beatles é tão grave como não saber quem foi Hitler. E aposto que muitos não conhecem nenhum deles.
Dizem-me que que a geração mais nova gosta de volume e de graves e não quer saber do conteúdo. Certo. Mais uma vez, gostam disso porque é aquilo que lhes dão. É fácil. É anestésico. É acéfalo. Dá para desligar facilmente e assim dar atenção às babes que passam e à selfie que se tira.
Dizem-me frases feitas numa linguagem torpe de políticos, que normalmente antecede a sentença "e por isso vamos ter que aumentar os impostos". Mas esquecem-se de falar no desinvestimento. Porque aí é que reside a explicação. Querem uma ideia do que estamos a falar? Eu dou. Uma pesquisa rápida no Google revela-nos que Calvin Harris — talvez o nome mais caro do SW — cobra aproximadamente 500 mil euros por actuação. Dando um exemplo de outro cabeça de cartaz deste ano, os Muse cobram perto de 850 mil euros para dar um concerto. Pois. E se olharmos para o volume do cartaz? "Fatela Ya", como diz o João Pedro. Ou apenas o fruto do desinvestimento.
Dizem-me coisas em tom paternalista, de gente bem intencionada que acha que temos que "ser razoáveis" para com o festival e os seus organizadores e patrocinadores, "ser razoáveis" para com a vertigem do lucro. Mas isto é música. Desde quando é que temos que "ser razoáveis" para com a arte? Foi a isto que chegámos? Não é na música que devemos procurar a pureza? Pelo menos foi isso que a música do meu Pai me ensinou.
Não, o ouvinte não tem sempre razão. Como em todas as culturas, é preciso educar para colher frutos. Se educarem os miúdos com caca, eles vão ouvir caca. E caca é muito mais barato. Já aqui o escrevi: há demasiadas coisas medíocres na nossa vida, a música não pode ser uma delas.
Este fim-de-semana aconteceu o maior festival português na Zambujeira do Mar e, acreditem, eu queria ficar calado. A sério, juro que queria. Mas a quantidade de fezes que foi atirada na defesa desta nova ideia de 'festival de Verão' não me deixa ficar calado.
Outras vozes já se expressaram devidamente. As minha preferidas foram a de João Quadros, no Twitter: "Ainda assim: cartaz do PS > cartaz do Sudoeste" (tão bom) e a de João Pedro Rodrigues, no Facebook, um membro da "tribo" (parabéns ao génio publicitário que inventou este conceito) que avaliou o festival com 5 estrelas, comentando de forma assertiva: "epah mais um ano a partir aquela merd* toda !!! O cartaz é fatela Ya, mas o que conta com é o espírito !!!". Meus amigos do Sudoeste, quando um dos membros mais fervorosos da vossa tribo apelida o cartaz de "fatela Ya", eu acho que não preciso de entrar em cena com adjectivação adicional. O trabalho está feito.
Mas depois vieram as fezes.
Dizem-me que é a evolução, que a música nova irrita sempre as gerações mais velhas e que assim é que deve ser. Certo. Mas o quando o Dylan ligou a guitarra eléctrica no Newport Folk Festival em 1965 e chocou uma audiência que esperava um espectáculo acústico, ele não se limitou a carregar num botão para tocar hits da década anterior, nem começou a atirar bolos à audiência. Tocou a música dele AO VIVO, foi REAL.
E quando os Sex Pistols abriram a distorção e cuspiram no público dos bares suados da Grã-Bretanha de 1976, ainda era música AO VIVO que saía das colunas, por muito desafinada que fosse. Era REAL (excepto quando o Sid Vicious não ligava o baixo, aí era mesmo só cuspo).
Dizem-me que isto é "música do meu tempo" e que o meu tempo já passou. Música do meu tempo? Eu nasci nos anos 80 e as minhas bandas preferidas são dos anos 60 e 70. Moldei o meu gosto porque o meu Pai me deu a conhecer música e eu ganhei curiosidade para procurar mais. Os jovens ouvem aquilo que lhes dão e se eles gostam de caca é porque só lhes deram caca, dia após dia, após dia, e eles não conhecem outra coisa. Isto é só mais um capítulo do livro dos nossos tempos "Ausência dos pais em casa". Os miúdos não precisam de gostar dos Beatles nem dos Stones, mas convém conhecê-los, como parte da História e da Cultura que eles são. Não conhecer os Beatles é tão grave como não saber quem foi Hitler. E aposto que muitos não conhecem nenhum deles.
Dizem-me que que a geração mais nova gosta de volume e de graves e não quer saber do conteúdo. Certo. Mais uma vez, gostam disso porque é aquilo que lhes dão. É fácil. É anestésico. É acéfalo. Dá para desligar facilmente e assim dar atenção às babes que passam e à selfie que se tira.
Dizem-me frases feitas numa linguagem torpe de políticos, que normalmente antecede a sentença "e por isso vamos ter que aumentar os impostos". Mas esquecem-se de falar no desinvestimento. Porque aí é que reside a explicação. Querem uma ideia do que estamos a falar? Eu dou. Uma pesquisa rápida no Google revela-nos que Calvin Harris — talvez o nome mais caro do SW — cobra aproximadamente 500 mil euros por actuação. Dando um exemplo de outro cabeça de cartaz deste ano, os Muse cobram perto de 850 mil euros para dar um concerto. Pois. E se olharmos para o volume do cartaz? "Fatela Ya", como diz o João Pedro. Ou apenas o fruto do desinvestimento.
Dizem-me coisas em tom paternalista, de gente bem intencionada que acha que temos que "ser razoáveis" para com o festival e os seus organizadores e patrocinadores, "ser razoáveis" para com a vertigem do lucro. Mas isto é música. Desde quando é que temos que "ser razoáveis" para com a arte? Foi a isto que chegámos? Não é na música que devemos procurar a pureza? Pelo menos foi isso que a música do meu Pai me ensinou.
Não, o ouvinte não tem sempre razão. Como em todas as culturas, é preciso educar para colher frutos. Se educarem os miúdos com caca, eles vão ouvir caca. E caca é muito mais barato. Já aqui o escrevi: há demasiadas coisas medíocres na nossa vida, a música não pode ser uma delas.
Artigo publicado originalmente neste link,
na revista online New In Town (NiT),
Terça-Feira 11 de Agosto de 2015
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segunda-feira, 3 de agosto de 2015
O novo filme de James Bond e a pergunta do milhão de euros
Quem se seguirá a Adele? E quem devia seguir? Tudo aqui.
Sou fã acérrimo da saga de James Bond. Desde que joguei o mítico "Goldeneye 007" na Nintendo 64 e depois fui ao cinema ver o Pierce Brosnan fugir a um helicóptero numa mota pelos telhados de Ho Chi Minh em "Tomorrow Never Dies", que fiquei agarrado. Os filmes não são o que podemos chamar de intelectualmente exigentes, mas oferecem a fantasia (aquele início do "Goldeneye" é a ficção e a perfeição em doses iguais) e a acção que preciso para me alienar do marasmo de um quotidiano sem explosões, nem Aston Martins, nem a Eva Green. Mas apesar de gostar dos filmes, o que me move mesmo na saga do espião inglês é a música, mais precisamente os temas do genérico de cada filme. Arrisco dizer que nenhuma outra saga está tão bem representada neste capítulo como a de James Bond.
Se têm dúvidas, ouçam a compilação "The Best of Bond...James Bond" (qualquer uma delas, embora eu prefira a ordem da compilação de 2002) e tirem as vossas conclusões. É malha atrás de malha, numa enxurrada impressionante. Desde as várias versões do clássico "James Bond Theme", originalmente composto por Monty Norman em 1962 para "Dr.No", passando pelo drama de "Goldfinger", a intensidade de "Thunderball", a saudade de "From Russia With Love", a candura de "Nobody Does It Better", a Pop de "A View To A Kill" e até algum refugo como "Diamonds Are Forever" (o José Castelo Branco destruiu para sempre este tema para mim, quando o vi cantá-lo vestido de mulher na televisão. Porra. Vade retro). Tendo em conta que a saga acompanhou a cultura popular desde os anos 60, o leque de artistas que já contribuiu para os filmes é vasto e representativo do mainstream de cada década: Shirley Bassey nos anos 60, Paul McCartney nos 70s, Duran Duran nos 80s, Sheryl Crow nos 90s, Jack White 00s e Adele 10s. Há espaço para tudo.
Agora que estamos a poucos meses da chegada de "Spectre", fica a questão do milhão de euros: quem vai cantar o tema do próximo filme de James Bond? Bem, um milhão de euros não sei, mas vale pelo menos 15 mil libras, quantia que um apostador pôs nos Radiohead esta semana, levando à suspensão das apostas. Das duas, uma: ou o cavalheiro sabia de alguma coisa que nós não sabemos, ou então é um fã dos Radiohead sem grande amor ao dinheiro. E nós já sabemos como é com os fãs dos Radiohead: o melhor é não os contrariar.
A lógica dita que a resposta à grande pergunta esteja algures nas tabelas dos últimos anos. Os rumores mais fortes indicavam primeiro Sam Smith, depois Ellie Goulding e agora Radiohead. A resposta deve morar aqui. Também já se falou no Kanye West (por favor não, vamos manter o Bond classy), Ed Sheeran (pior ainda, ele quanto muito devia fazer a banda sonora dos Teletubbies) e até no Noel Gallagher (seria bom, mas duvido muito), mas essas são hipóteses mais remotas.
A minha aposta entre o trio dos preferidos seria (de longe) os Radiohead. É interessante pensar na voz de Thom Yorke à frente da frota de trompetes que costuma acompanhar os temas de Bond. E basta recordar o que eles fizeram com "Nobody Does It Better" para ficar com água na boca.
Mas a minha preferência pessoal não recai em nenhum dos anteriores.
O tema que apresenta um filme de James Bond precisa de ser explosivo, dilacerante e poderoso; precisa de nos pôr aos saltos no banco do cinema ainda antes do filme começar; precisa, por isso, da figura maior do rock musculado dos nossos dias. Mandasse eu na EON e subempreitava o tema de "Spectre" a Josh Homme e aos Queens Of The Stone Age. Fico com água na boca, só de pensar nas explosões no ecrã ao som das guitarras da banda californiana. E fazia mais: dava a banda sonora (que já foi entregue a Thomas Newman) a Trent Reznor, que tão bem tem tratado os filmes de David Fincher. E já que estamos com o balanço, aproveitava e dava o próximo filme ao próprio David Fincher. Mas talvez já me esteja a entusiasmar.
"Spectre" sai em Outubro deste ano, por isso já deve faltar pouco para saber a resposta à pergunta do milhão de euros. Fica a faltar-me só o Aston Martin. E a Eva Green.
Sou fã acérrimo da saga de James Bond. Desde que joguei o mítico "Goldeneye 007" na Nintendo 64 e depois fui ao cinema ver o Pierce Brosnan fugir a um helicóptero numa mota pelos telhados de Ho Chi Minh em "Tomorrow Never Dies", que fiquei agarrado. Os filmes não são o que podemos chamar de intelectualmente exigentes, mas oferecem a fantasia (aquele início do "Goldeneye" é a ficção e a perfeição em doses iguais) e a acção que preciso para me alienar do marasmo de um quotidiano sem explosões, nem Aston Martins, nem a Eva Green. Mas apesar de gostar dos filmes, o que me move mesmo na saga do espião inglês é a música, mais precisamente os temas do genérico de cada filme. Arrisco dizer que nenhuma outra saga está tão bem representada neste capítulo como a de James Bond.
Se têm dúvidas, ouçam a compilação "The Best of Bond...James Bond" (qualquer uma delas, embora eu prefira a ordem da compilação de 2002) e tirem as vossas conclusões. É malha atrás de malha, numa enxurrada impressionante. Desde as várias versões do clássico "James Bond Theme", originalmente composto por Monty Norman em 1962 para "Dr.No", passando pelo drama de "Goldfinger", a intensidade de "Thunderball", a saudade de "From Russia With Love", a candura de "Nobody Does It Better", a Pop de "A View To A Kill" e até algum refugo como "Diamonds Are Forever" (o José Castelo Branco destruiu para sempre este tema para mim, quando o vi cantá-lo vestido de mulher na televisão. Porra. Vade retro). Tendo em conta que a saga acompanhou a cultura popular desde os anos 60, o leque de artistas que já contribuiu para os filmes é vasto e representativo do mainstream de cada década: Shirley Bassey nos anos 60, Paul McCartney nos 70s, Duran Duran nos 80s, Sheryl Crow nos 90s, Jack White 00s e Adele 10s. Há espaço para tudo.
Agora que estamos a poucos meses da chegada de "Spectre", fica a questão do milhão de euros: quem vai cantar o tema do próximo filme de James Bond? Bem, um milhão de euros não sei, mas vale pelo menos 15 mil libras, quantia que um apostador pôs nos Radiohead esta semana, levando à suspensão das apostas. Das duas, uma: ou o cavalheiro sabia de alguma coisa que nós não sabemos, ou então é um fã dos Radiohead sem grande amor ao dinheiro. E nós já sabemos como é com os fãs dos Radiohead: o melhor é não os contrariar.
A lógica dita que a resposta à grande pergunta esteja algures nas tabelas dos últimos anos. Os rumores mais fortes indicavam primeiro Sam Smith, depois Ellie Goulding e agora Radiohead. A resposta deve morar aqui. Também já se falou no Kanye West (por favor não, vamos manter o Bond classy), Ed Sheeran (pior ainda, ele quanto muito devia fazer a banda sonora dos Teletubbies) e até no Noel Gallagher (seria bom, mas duvido muito), mas essas são hipóteses mais remotas.
A minha aposta entre o trio dos preferidos seria (de longe) os Radiohead. É interessante pensar na voz de Thom Yorke à frente da frota de trompetes que costuma acompanhar os temas de Bond. E basta recordar o que eles fizeram com "Nobody Does It Better" para ficar com água na boca.
Mas a minha preferência pessoal não recai em nenhum dos anteriores.
O tema que apresenta um filme de James Bond precisa de ser explosivo, dilacerante e poderoso; precisa de nos pôr aos saltos no banco do cinema ainda antes do filme começar; precisa, por isso, da figura maior do rock musculado dos nossos dias. Mandasse eu na EON e subempreitava o tema de "Spectre" a Josh Homme e aos Queens Of The Stone Age. Fico com água na boca, só de pensar nas explosões no ecrã ao som das guitarras da banda californiana. E fazia mais: dava a banda sonora (que já foi entregue a Thomas Newman) a Trent Reznor, que tão bem tem tratado os filmes de David Fincher. E já que estamos com o balanço, aproveitava e dava o próximo filme ao próprio David Fincher. Mas talvez já me esteja a entusiasmar.
"Spectre" sai em Outubro deste ano, por isso já deve faltar pouco para saber a resposta à pergunta do milhão de euros. Fica a faltar-me só o Aston Martin. E a Eva Green.
Artigo publicado originalmente neste link,
na revista online New In Town (NiT),
Segunda-Feira, 3 de Agosto de 2015
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