segunda-feira, 27 de julho de 2015

A velha questão da pirataria vista por um melómano

Não é a atacar os ouvintes que se resolve a questão da pirataria.



Rejubilem. Após sucessivas ameaças, o Pirate Bay foi este ano bloqueado em Portugal. O problema da pirataria está resolvido e os artistas vão finalmente começar a ver o dinheiro que eles merecem. Certo? Errado. Não vou sequer dissertar sobre o gravíssimo precedente que se abre com o bloqueio destes sites, num ato de censura norte-coreanista que pareceu ser aceite com relativa tranquilidade. Não é no âmbito legal que eu quero entrar, porque desse lamaçal, percebo muito pouco. O que eu quero é saber da música, da proteção dos artistas que a fazem e claro, de quem a ouve. Porque não é a atacar os ouvintes que se resolve a questão da pirataria.

Mas antes de avançar, vou apresentar-me: o meu nome é Nuno Bento e sou um melómano. Grande parte do meu ordenado é investido em música. Tenho os meus álbuns divididos por três casas e em nenhuma delas tenho espaço para mais, mas continuo a comprar discos e já é difícil andar na minha sala sem dar um pontapé num vinil do David Bowie. Por isso falo à vontade, tenho a consciência tranquila. O dia em que me prenderem por pirataria é o dia em que toda esta discussão deixa de fazer sentido.

Falo à vontade para dizer que, mesmo assim, sempre fiz downloads (legais, é desses que eu estou a falar, ok?). Muitos. Estou sempre à procura de música nova e os downloads nunca me impediram de a comprar mais tarde. O meu amor pela música não pode ser platónico, necessita de contacto físico. Preciso de agarrar no CD, folhear o livrete, ler as letras, ver os agradecimentos. E se gostar mesmo do álbum, compro o vinil para ter a artwork em tamanho real nas minhas mãos, retirar o disco da capa, cheirá-lo, pô-lo a rodar. É um ritual.

Esses rituais são fomentados a ouvir música. Não é a restringir a audição e a perseguir os ouvintes que os miúdos se vão apaixonar pela música, pelas bandas e pelas suas histórias. É tornando a música mais livre. No fim, os artistas serão sempre pagos, seja pelas vendas, seja pelos concertos. O que é preciso é deixar as pessoas apaixonarem-se pela música. As pessoas fazem as coisas mais incríveis por amor. Até comprar discos. Uma porrada deles.

Eu percebo que o coleccionismo não sirva para toda a gente. Essas pessoas têm alternativas legais nos serviços de streaming como o Spotify, o Tidal, ou o Apple Music. Também é por aqui que se pode combater o download de uma forma não agressiva, criando novos hábitos nos ouvintes. Os serviços de streaming não chegam para mim (e por isso precisarei sempre dos formatos físicos), mas são uma boa ideia que combina o conceito de "rádio personalizada", com a comodidade e claro, a legalidade. Mas é uma ideia que precisa de séria revisão. Não tanto pelos grandes artistas, porque bandas como os Pink Floyd ou os Beatles têm um bom leverage negocial e têm também (muitas) vendas físicas garantidas (o último álbum dos Pink Floyd até cometeu a proeza de bater os One Direction e o Tony Carreira). Já as bandas em ascensão, essas são obrigadas a aceitar o acordo que lhes é posto em cima da mesa, por mais miserável que seja. E há quem se queixe, mesmo artistas estabelecidos como a Taylor Swift, que deixou o Spotify no ano passado.

No fim de contas, as editoras e os executivos continuam a receber mais que os artistas e isso é o que está errado. Eu entendo o lado das editoras e estou solidário com a sua existência, na medida em que promovem e distribuem o trabalho dos artistas. Mas o seu modelo de negócio ficou preso nos anos 90, quando as pessoas ouviam o "How You Remind Me" na rádio e iam a correr comprar o álbum dos Nickelback. Isso já acabou. E convenhamos que também não é justo enganar assim as pessoas. É um modelo de negócio ainda carregado de intermediários e comissionistas inúteis que, francamente, é ofensivo para com os artistas e os consumidores. As editoras precisam de perceber que são os artistas quem deve receber a maior parte do bolo e entender que quem quer comprar, quer um produto de qualidade, com bela artwork e tudo a que tem direito. Não é para fazerem como no último álbum dos Queens Of The Stone Age, quando fui vilipendiado sem dó nem piedade.

Na questão dos downloads, há aqui um enorme paralelismo com o cenário de há 30, 40 anos. Vou falar do caso que me é mais próximo: o meu Pai, que foi quem me passou esta paixão pela música. Há 40 anos, não havia lojas de discos na Beira. Mas havia um amigo que de vez em quando trazia uns LPs de Lisboa. Chamemos a esse amigo "Pirate Bay". Os LPs desse amigo serviam para centenas, milhares de pessoas; eles eram gravados para cassetes, que por sua vez eram gravadas para cassetes e assim sucessivamente, até à vigésima geração. Quando chegavam à Pampilhosa da Serra, a guitarra dos Black Sabbath atingia níveis de distorção que nem o Tony Iommi conseguia emular com os seus pedais. E mesmo com a proliferação das cassetes pela Beira Baixa, pasmem-se, os Sabbath fizeram uma carreira.

É verdade que os círculos de afectação na partilha de uma torrent são maiores e a qualidade também é melhor (embora seja no mínimo puxado afirmar que o mp3 é um recurso de qualidade). Mas ainda assim, há dinheiro envolvido. Sempre que se compra um disco rígido, ou um CD/DVD virgem, já se paga uma taxa de autor. É para isto que ela serve. É pouco? É. Mas é mais do que o zero que recebiam com as cassetes.

Tal como nos anos 60, 70, 80 e 90, haverá sempre melómanos como eu para comprar música, seja em formato físico, em download digital (como no iTunes), ou no novo formato telepático que há de vir. Mas para venderem mais, as editoras têm que baixar o preço dos discos, que é inadequado. Como? Redefinam-se. Cortem nos intermediários. Antecipem-se à pirataria, disponibilizem o álbum para download gratuito em mp3 e deixem o consumidor ouvi-lo dez vezes, depois fixem um preço justo para ele continuar a ouvi-lo em FLAC, ou noutro formato de qualidade. E os serviços de streaming, se querem ser a alternativa, também têm que aceitar menor parte do bolo e pagar melhor aos artistas. Isto é válido principalmente para o Spotify, que segundo um estudo do Nextshark (vejam em baixo o gráfico completo com a divisão detalhada de lucros em todos os formatos) paga 5 vezes menos que o Tidal. O Youtube paga ainda menos que o Spotify, o que me deixa sem saber para que serve afinal toda aquela publicidade irritante antes dos vídeos.



Poderia também advogar que se as editoras estão em dificuldades, é porque apostam na música errada, segura, formatada, desinteressante. Mas isso é outra discussão. Ou talvez seja a outra face do mesmo problema.
Pela minha parte, apenas faço votos que se um dia formos todos presos por fazer downloads de música, espero que pelo menos nos separem por género musical. É o mínimo.


Artigo publicado originalmente neste link,
na revista online New In Town (NiT), 
Segunda-Feira, 27 de Julho de 2015

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